Modos de fazer dança

Improvável Produções faz a estreia nacional em São Paulo de "HARM-ONY", coprodução Brasil-Chile

Tamires Costa em apresentação no Chile © Mila Ercoli

Quando a carioca Marcela Levi e a argentina Lucía Russo decidiram criar a Improvável Produções em 2010, tinham entre os conceitos fundadores a autoria compartilhada. Ou, como também costumam chamar, “direção divertida”. Aquela que diverge. E possibilita a convivência no dissenso, no desencontro e no contraditório. Sem estabelecer polarizações ou extremismos.

O mais interessante é que essa teoria funciona muito bem na prática. Assim surge HARM-ONY, uma quebra literal da harmonia e uma disposição para lidar com as consequências do rompimento. Afinal, em inglês, “harm” significa dano e prejuízo.

Esta construção gráfica dá nome ao trabalho coproduzido em 2018 com o Nave, que atualmente é o centro cultural dedicado à dança contemporânea mais pulsante da capital chilena e com forte articulação latino-americana.

Engatinhando, intérpretes convidam para “party” © Reprodução/Facebook

O projeto foi financiado pelo fundo Iberescena/Funarte, que viabilizou a realização da primeira versão com artistas de Santiago juntamente com o “núcleo transmissor” da linguagem da Improvável. Este núcleo, explicou Marcela, é formado atualmente pelos intérpretes Tamires Costa, Ícaro Gaya e Lucas Fonseca.

Para a versão paulistana, uma seleção foi aberta em abril e onze artistas participaram por duas semanas da vivência e reconstrução do trabalho que é um site-specific, cuidadosamente adaptado para o 13º andar do Sesc Avenida Paulista. Os chilenos Franco Maldonado e José Urrea, que participaram da primeira versão, também colaboram.

Artistas chilenos reencontram HARM-ONY no Brasil © Isabel Ortiz

Embora a pesquisa esteja apoiada nas reflexões da filósofa belga Isabelle Stengers, há muito a se pensar em HARM-ONY sobre os modos como artistas podem se reorganizar para seguir trabalhando em ambientes hostis e caóticos. Especialmente, no caso brasileiro. Que recentemente assistiu ao fechamento do Ministério da Cultura e vê patrocínios minguando sem cessar.


Uma antientrevista
No sábado que antecedeu a estreia, pude acompanhar um ensaio. Abastecido de tanta informação, me questionei sobre a necessidade de realizar uma entrevista formal. Imitando Bartleby, preferi não.

Diretoras e elenco durante ensaio no Sesc Avenida Paulista © Rafael Ventuna

Mas saí com duas frases ditas pelas diretoras ecoando.

Em dado momento, ao orientar os intérpretes, Marcela disse que era preciso redobrar a atenção para uso das adjacências e coxias. E largou esta: “O espaço não visível também faz parte”.

Afinal, é importante ser relembrado do óbvio vez ou outra.

Lucía, ao ser questionada sobre possíveis reações que o público pode ter e provavelmente interferir na configuração prévia dos deslocamentos, não hesitou. “As pessoas são livres. Elas vão fazer escolhas. Lide com isso”.

E #DurmaComEssa!

As frases foram fundamentais para compreender o processo de criação em que elas se lançam e como recebem os artistas-convidados em seus modos produtivos. Pois, a Improvável não mantém um elenco fixo como uma companhia de dança convencional.

Considero sempre uma felicidade quando vejo um conceito se materializar. E se prova na prática. Em 2016, vi Mordedores (2015) e senti que a dança contemporânea brasileira ganhava um frescor com a dupla Marcela e Lucía. Aproveitando, muito em breve, o Sesc Pompeia receberá este trabalho.

Ícaro Gaya satiriza ao cantar música de Madonna em HARM-ONY © Reprodução/Facebook

A experiência com Mordedores me fez acompanhar mais de perto as pesquisas que vieram na sequência. E vale destacar que as passagens dos solos Deixa Arder (2017), com Tamires no Pompeia, e Boca de Ferro (2016/2017), com Gaya na MITsp 2019, contribuíram para um diálogo mais profícuo, sobretudo, pela identificação de propostas de dança que se libertam com muita propriedade da já desbastada estruturação coreográfica.

HARM-ONY é uma performance interativa. Repleta de fricção e distanciamentos. Que expressa muito do que somos. E do que estamos nos tornando nestes tempos marcados pelo uso massivo da internet que, como nos advertiu Umberto Eco (1932–2016), deu voz aos imbecis.

As diretoras preferiram utilizar o conceito de “idiota”, presente na psicologia e na literatura. Em uma cena, para exemplificar, o elenco se desloca engatinhando e repete a palavra “party” em tom convidativo.

Outro jogo de palavras e sonoridades. Party, que também vem do inglês, pode significar tanto “festa” como “partido”. Em cena, é uma provocação sobre os chamados que às vezes são feitos na sociedade. Num mundo arruinado pelas fake news, certamente, tem muita gente por aí que achou que ia participar da “festa”, mas já sente o coração partido pelo “partido” que a convocou.


HARM-ONY, da Improvável Produções. Sesc Avenida Paulista — 13º Andar. 18 anos. 50 min. Até 12 de maio, quinta a sábado, 21h; domingo, 19h. R$ 6 a R$ 20