Monstruosos corpos

“Monstra”, de Elisabete Finger e Manuela Eichner, é uma das raras e necessárias representações da natureza daimônica

A frágil condição humana frente à tirânica natureza é uma das questões menos encaradas na cultura ocidental. A civilização, com seus dispositivos de poder, é projetada contra uma natureza selvagem, em uma operação que resulta na falsa ideia de que homem e natureza são conceitos excludentes. Porém, não nos enganemos: entre homens e plantas há muito mais em comum do que se quer acreditar. É a partir de uma perspectiva daimônica, na qual não há espaço para a moral civilizatória, da natureza e da humanidade, que nasce Monstra, a coreografia-colagem de Elisabete Finger e Manuela Eichner encenada recentemente no SESC Avenida Paulista durante a Virada Cultural de São Paulo 2018.

De início, a proposta parece ser minimalista. No primeiro instante, em cena, estão as performers Barbara Elias, Danielli Mendes, Josefa Pereira, Mariana Costa e Patrícia Bergantin, segurando, dentre outras plantas, pés de arruda, samambaia e alecrim. Movem a cabeça lentamente enquanto esquadrinham com o olhar a plateia que tem uma visão 360º do palco. A aparente tendência à estagnação logo é quebrada pelo estridente bater de um prato. Tudo se desintegra.

Monstra é composta por células coreográficas independentes que, somadas à centralidade do espaço cênico, resultam em uma experiência complexa. Sendo múltiplos os olhares da plateia, são diversas as imagens criadas pelo grupo e capturadas pela audiência. Como uma colagem, na performance, rapidamente se vai da silenciosa profusão aromática das plantas, quando os corpos realizam movimentos de translação pelo espaço, aos gritos raivosos e incessantes das artistas que até mesmo a fazem salivar.

Se quisermos falar do mote inicial de Monstra, isto é, re-encenar a história da samambaia, podemos dizer que, muito antes do desenvolvimento das ferramentas em pedra, o domínio do corpo talvez possa ser considerado uma das primeiras evoluções técnicas da humanidade. Na obra, a história é contada a partir desse corpo que se desenvolve nas mais diferentes formas. Em determinados momentos, extrai-se som do bater dos pés e dos calcanhares no chão. Forja-se o ritmo com o morder dos dentes e a profundidade da respiração. O corpo de uma das performers é transportado de um lado ao outro a partir dos corpos que rolam e servem como uma espécie de esteira. O corpo, para além de qualquer discurso social e moral, é real.

Detalhe do quadro "A Primavera" (1482), de Sandro Botticelli.

Nos limites da centralidade desse corpo, estão as funções fisiológicas. Em uma das células coreográficas mais importantes da obra, as performers compõem uma estática ciranda, em clara referência à figura das Três Graças, presente na obra A Primavera, do pintor renascentista Sandro Botticelli, e começam a urinar. Nessa hora, é notável e curioso o constrangimento gerado em uma pequena parte da plateia que, a partir desse momento, se levanta e deixa o espetáculo. Falemos em notável e curioso porque a plateia nessa hora performa o horror moral diante da natureza daimônica que habita o ser e que se expõe de forma tão clara no espetáculo.

O enfrentamento da natureza nos é caro. Nela, constantemente forjamos beleza mas sempre tangenciamos a sua realidade. A arte e a civilização moldam e alimentam a ideia de uma natureza pura. Porém, basta o surgimento de uma nova doença ou um furacão devastador para que a retina da beleza ocidental seja arranhada e a natureza comprove que nela rege a lei dos mais fortes. Por isso, tomando emprestada a representação dos daemones, deuses da Grécia Antiga que estavam abaixo das grandes divindades, falemos de uma natureza daimônica, uma instância amoral, ou melhor, um local onde nenhum julgamento moral faria sentido. Nessa hierarquia, estamos submetidos à tirania da biologia que, nas cruzadas contemporâneas, buscamos vencer com as novas adequações socioculturais, como as discussões de gênero.

Somos corpos que respiram, sangram, adoecem, padecem de males e prazeres. Quem melhor compreender a suscetibilidade do homem frente à natureza mais poder terá. É nessa chave que Camille Paglia, ao traçar um panorama de personas sexuais na história da cultura ocidental, apontará o poder da mulher em relação aos homens. Não será à toa que as principais representações da natureza são as de uma mãe, como Gaia e a figura da Mãe Natureza. E a mãe, sabemos desde a psicanálise freudiana, para seus filhos, carrega a ambivalência de atração e horror, sendo uma das melhores metáforas desse sentimento primitivo a fantasia masculina da vagina dentada, que posteriormente será traduzida na figura da górgona. Nesse sentido, não é aleatória a escolha das únicas gravações que ocupam a dimensão sonora da obra: vozes masculinas registradas durante a guerra pela conquista do espaço.

Górgona grega, séc. VI a.C.

Toda expressão daimônica sofre tentativas de moralização ou amedontra. Outrora, houve a caça às bruxas, que condenou o culto pagão da natureza. Hoje, qualquer exercício fisiológico do corpo feminino causa constrangimento masculino. Nesse momento, a palavra “monstra”, usada para nomear a obra de Elisabete Finger e Manuela Eichner, composta majoritariamente por mulheres, arremata a sua proposta artística. Na mesma direção, outras artistas também estão usando signos da realidade daimônica enquanto posturas de afirmação feminista, como Karina Buhr no disco Selvática, onde há a canção Eu sou um monstro, os poemas de Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho e as obras visuais de Rosana Paulino, que trazem o real do corpo feminino negro atravessado pela violência.

Do asséptico início ao caótico final, onde palco e artistas estão sujos por folhas, terra, suor e urina, Monstra é uma das poucas expressões da natureza daimônica e da sua relação com o corpo na arte. Embora o ponto de partida da obra seja recontar a história de uma samambaia, o que se destaca é exatamente o ponto de vista do qual se constrói essa narrativa artística. Sem qualquer compromisso ético ou moral, Elisabete Finger e Manuela Eichner desenvolvem uma obra que ganha contornos de resistência política dentro da própria perspectiva contemporânea da arte, cada vez mais limitada por discursos e repetições.

A próxima apresentação de Monstra ocorre durante a Mostra de Performance Verbo 2018, na Galeria Vermelho, no dia 6 de julho, em São Paulo.
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