Mostra de Célio Braga fica em cartaz até outubro em Goiânia

Paulo Rezende/Divulgação

O artista Célio Braga, mineiro que atualmente mora em Amsterdã, tem uma série de obras expostas na mostra “Abluções”, no MAC de Goiânia, até 23 de outubro. O curador Hércules Goulart Martins diz que não se trata de uma retrospectiva de sua carreira, e sim a apresentação de seis momentos no percurso de Célio nos últimos 20 anos.

Temas como a fragilidade do corpo, a cura, a passagem do tempo, a memória, a natureza definitiva da morte, o luto e a sexualidade estão presentes nas obras. “Brancos e Negros” (2003–2006) foram elaborados com feltro, contas de vidro, cabelo, linha e seda, sugerem órgãos fictícios e jóias ritualísticas ancestrais. Já “Camisas Brancas” (2000–2001), concebida a partir de doações de peças de roupas de amigos por todo o mundo, retrata o período em que a Aids fazia milhares de vítimas, nos anos 1980.

Um dos aspectos ressaltados na obra de Braga é a perspectiva fluida com que trata a questão do gênero e da sexualidade. A seguir, veja três perguntas que a Bravo! fez ao artista.

Paulo Rezende/Divulgação

O que é essa ablução, que dá nome à exposição, e o que ela representa na sua carreira?

Ablução é um ritual de purificação através da lavagem do corpo, mais precisamente da lavagem e purificação das mãos. A questão do corpo sempre foi uma temática constante na construção da minha obra e a escolha do título é pertinente pelo fato deste ritual ser, através das mãos (que tudo toca), um ato que acaricia, limpa, enaltece, sexualiza e protege o corpo.

O meu trabalho é, na maioria dos casos, construído com materiais simples como retalhos de tecidos, camisas brancas usadas, lençóis, fronhas, vidros/bulas/caixas de remédios, cera, cabelo humano, fragmentos de papel e fotografia…etc. Imbuídos de memórias e significados pessoais estes materiais são obsessivamente e lentamente trabalhados na construção de objetos, esculturas, desenhos e instalações.

O ato manual e artesanal de construir estes trabalhos está aqui diretamente associado à palavra ‘ablução’ que contextualiza o fazer, o significado e o pensar da obra.

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Em que lugares você já viveu? Como essas mudanças estão presentes em sua obra?

No final dos anos 80, início dos anos 90 eu residi em Boston, nos Estados Unidos, por 4 anos, e desde 1993 eu moro em Amsterdã, na Holanda. Nos últimos 7 anos eu vivo e trabalho em São Paulo e Amsterdam. Em Boston eu iniciei os meus estudos no programa ‘Continuing Education’ da Universidade ‘The Museum School of Fine Arts’ e em Amsterdam eu me bacharelei na ‘Gerrit Rietveld Academie’.

Tudo o que eu vivi está presente na minha obra. Todo o processo criativo está diretamente associado com a experiência vivida, com as memórias e com o acúmulo de informações que vão sendo inseridas, digeridas, esquecidas, internalizadas e transformadas neste processo do fazer e do viver.

Ter morado fora do Brasil por tanto tempo me transformou de diversas formas, me fez estranho e estrangeiro, me fez mais brasileiro e mais crítico, aguçou em mim o sentimento de saudade, me fez forte, sem lugar, e me deu a certeza de que tudo é relativo, fluido e em constante transformação.

Paulo Rezende/Divulgação

Como você trata da questão do gênero e da identidade sexual em sua obra?

Eu acredito que em essência nós somos seres extremamente ambíguos e complexos mas infelizmente existe, por parte de um grupo dominante, este projeto de um engendramento simplista no que diz respeito a definições do gênero e da identidade. Somos mais e melhores que só heteros, homos, bis, normais, anormais…somos complexos e únicos.

No meu trabalho as questões do gênero e da identidade sexual se manifestam mais claramente nos objetos e nas esculturas, em especial nos trabalhos das séries ‘Camisas Brancas’, ‘Brancos e Negros’. As ‘Camisas Brancas’ passam por um laborioso ato de bordar, coser e pespontar e suas formas se assemelham a insólitas crisálidas ou órgãos sexuais indefinidos, com muitos orifícios, aberturas, falos e vulvas. Já os trabalhos das séries ‘Brancos e Negros’ foram elaborados com feltro, contas de vidro, cabelo, linhas e tecidos diversos. À custa de um esmero obsessivo são extraídas desses materiais formas luxuriantes, eróticas e ambíguas, envoltas num bordado prodigioso estes pequenos objetos evocam órgãos fictícios. De qualidade hermafrodita estes trabalhos com corpos barrocos, rugosos, com seus orifícios, cavidades e pêlos, atraem e repulsam.

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