Motim e Destituição Agora

No novo livro do Comitê Invisível lançado no Brasil, os autores evidenciam a morte da política, a precariedade do direito e afirmam que destituir não significa atacar as instituições

"Todas as razões para fazer uma revolução estão aí. Não falta nenhuma. O naufrágio da política, a arrogância dos poderosos, o reino do falso, a vulgaridade das riquezas, os cataclismos da indústria, a miséria galopante, a exploração nua, o apocalipse ecológico — de nada somos poupados, nem mesmo de estar informados sobre isso."

É com estilhaços que se inicia a experiência de leitura do livro Motim e Destituição Agora, do Comitê Invisível, um grupo anônimo de pensadores e ativistas sediados na França e publicado no Brasil pela editora n-1 edições.

Tomando os conflitos da primavera de 2016 em Paris, os autores afirmam que somos os contemporâneos de uma civilização em processo de fragmentação, o que nos dar a ver que a condição que vivemos na política nacional não é outra coisa senão sintoma de uma desordem mundial: o fracasso dos Estados nacionais frente às potências transnacionais, "o estado de aviltamento do debate na esfera pública" e mais propriamente, a falência da política, do Direito e do corpo social.

Como condição desse "desmantelamento da unidade política e a ausência da experiência do comum" umas boas páginas dedicam-se a escamotear "o programa de restauração fascistizante da unidade" que eles de forma contundente nos mostram estar em curso pelos mercadores mundiais de infraestruturas da internet:

"um mundo perfeitamente fragmentado permanece de todo gerenciável do ponto de vista cibernético. Um mundo dividido é mesmo a condição da onipotência daqueles que gerenciam os meios de comunicação. […] De seu ponto de vista, a fragmentação simbólica do mundo abre espaço para sua unificação concreta; a segregação não se opõe à configuração em rede, ela lhe dá, pelo contrário, sua razão de ser."

Em um 2017 onde o espaço virtual se consagrou como a principal assembléia para o debate político, o livro inicia nos fazendo olhar criticamente para as contradições que há nas nossas militâncias e no comodismo implícito, por exemplo, no próprio ato de resenhar este livro: ao fazê-lo, veremos que “todas as razões [para se fazer uma revolução] estarão reunidas, mas não são as razões que fazem as revoluções, são os corpos. E os corpos estão diante das telas.”

“A condição do reino dos GAFA (Google, Apple, Facebook, Amazon) é trabalhar para o isolamento real de cada um. É imobilizar os corpos. É manter cada um recluso em sua bolha significante.”

Encurralando a mentira para que esta não nos faça distrair e nos despertando de qualquer sobra de ingenuidade, Motim e Destituição Agora, torna-se uma importante leitura a se debruçar neste início de 2018, seja pela falência do Direito que assistimos em tempo real, seja pela precariedade da política nacional: "se a caça ao criminoso, a sede de punição e de julgamento são tão desenfreadas em nossos dias, é apenas para procurar, por um instante, um substituto de inocência para os espectadores."

Assim que no passar das páginas, vemos que a noção de destituição não resume-se a um único capítulo, ela encontra-se pulverizada na própria forma como as palavras se apresentam. Elas mesmas se encontram destituídas, nuas, parecendo revelar-se contra toda a cortina de fumaça que encobre a forma como o capital e o neoliberalismo apodera-se de cada dimensão da nossa existência, num movimento sistemático de empobrecimento das nossas subjetividades.

Se traçarmos um paralelo com as discussões sobre práticas versus política, talvez sejam estas contribuições em torno do campo da linguagem as principais reflexões que o livro nos lança quando deflagra o reino do falso, a bolha inflacionista do palavratório mundial, a arte das relações públicas como gestão da vida ou a ação corrupta com as quais tomamos os sentidos das palavras. Nos dizendo que ver é conseguir sentir as formas, os autores nos mostram que está contido nesse nosso uso desviante da linguagem a grande mentira e desastre da política: "colocar a política de um lado e de outro a vida: de um lado, o que se diz, mas que não é real e, do outro, o que é vivido mas não se pode dizer.”

“O inferno é exatamente o lugar onde toda palavra é remetida à insignificância. O que se chama ‘debate’, em nossos dias, é apenas a morte civilizada da palavra.”

Em tempos onde se consagra a busca por autodeterminação, pelas representatividades e se aprofunda o debate afirmativo sobre os nossos lugares de fala, tendo como lugar central das assembléias o ciberespaço, a leitura questiona a linha tênue entre o pessoal e o coletivo, nos fazendo ir em busca de respostas que as cartilhas dos nossos ativismos parecem ainda não ter respostas, tendo em vista os micropoderes que criamos e as violências e silenciamentos, que muitas vezes, surtam como efeitos de sentido de nosso privado-coletivo. Inquestionáveis as nossas conquistas, fundamentais as nossas denúncias, presenças e ações, mas, a serviço de qual regime de programação global estamos suscetíveis? Quantos de nós não estão fartos das explosões de narcisismo individual e da soberania do eu que cercam as automatizações de nossas militâncias?

Há as tiradas do grande militante e o modo como ele trata seus semelhantes, com os quais se autoriza a se conduzir de maneira tanto mais sórdida quanto mais se tem por politicamente irrepreensível.

A medida da franqueza no entanto, carrega apenas o mesmo peso das forças da máquina neoliberal que nos alienam, nos ludibriam e nos jogam à inércia do ato ou à espera de soluções com um sentimento de esperança que não é outra coisa senão uma fuga do agora: "o agir político não é uma questão de discursos mas de gestos."

“ Política jamais deveria ter se convertido em um nome. Deveria ter continuado um adjetivo. Um atributo e não uma substância. (…) Não há palavras nem linguagem políticas sem sentido próprio. Há apenas um uso político da linguagem em cada situação, diante de uma adversidade determinada. (…) Uma força política verdadeira só pode se construir do próximo ao próximo e de momento a momento, e não pela enunciação de finalidades.

Diante do abismo que encara nossos olhos com a tomada de poder pela extrema direita em todas as esquinas do globo e que, no Brasil, toma forma com o risco da prisão do ex-presidente Lula, acontecimento que especialistas acreditam ser a “maior derrota sofrida pela esquerda desde a redemocratização do País”, o que nos resta? Qual a solução? O que fazer? A essas perguntas, os autores respondem com o mesmo rigor e auto-crítica que sustentam desde a primeira página: "todos aqueles que pretendem oferecer soluções ao desastre do presente só fazem uma coisa: impor-nos sua definição do problema com a esperança de nos fazer esquecer que obviamente eles mesmos fazem parte de tal problema."

De modo que, nos responsabilizando, chacoalha nossos corpos nos colocando em estado de alerta em busca de um plano operante e mobilizador que não seja, portanto, automatizado, padronizado, mapeado e por isso já previamente asfixiado pelo maquinário que nos rodeia. Se a leitura irá nos fazer recobrar na prática as nascentes do significado da palavra comunismo e o que semeia enquanto um processo de destituição da economia, não sabemos, mas é certo que o gesto de leitura enquanto ação, nos toca e incendeia. Temos então nas mãos, um livro-ação, um livro-objeto, ele mesmo dispositivo de vidência, ele em sua imanência, ato de comunhão.

Tratando o comunismo não de uma perspectiva fixadamente ideológica mas da experiência vivida, fundamental e inerente ao sentido de comunidade, o último capítulo nos faz refletir sobre o objeto central de toda elaboração comunista: "a destotalização geral e não a socialização de tudo"; o fenômeno de vidência, de aumentar a nossa capacidade de ver o intolerável e o desastre coletivo que vivemos; de nos livrar da cegueira, não amanhã, mas hoje, não no futuro, mas agora. Daí a importância da leitura e da circulação do que articula como pensamento: tentativa de “poder ler no livro do nosso próprio corpo tudo o que os homens fizeram e foram sob a soberania do tempo”.

" É claro que é possível se evadir da questão comunista. É possível se habituar a saltar, durante o caminho para o trabalho, os corpos dos moradores de rua ou dos imigrantes. É possível seguir em tempo real o derretimento das geleiras polares, o aumento do nível dos oceanos ou as migrações enlouquecidas, em todos os sentidos, de homens e animais. É possível continuar a preparar seu câncer a cada vez que engolimos uma colherada de purê. É possível dizer que a recuperação, um pouco de autoridade ou o ecofeminismo poderão resolver tudo isso. Continuar assim é pagar o preço de reprimir em nós mesmos o sentimento de viver em uma sociedade intrinsecamente criminosa e que não perde a oportunidade de nos lembrar que fazemos parte de sua pequena associação de delinquentes. Cada vez que entramos em contato com ela — pelo uso de não importa qual de suas engrenagens, pelo menor consumo de mercadoria que seja ou pelo trabalho que para ela fazemos — , nos tornamos seus cúmplices, contraímos um pouco do vício que a fundamenta: o vício da exploração, do saque, do solapamento das próprias condições de toda existência terrestre. Já não há mais lugar algum para a inocência neste mundo. Temos apenas a escolha entre dois crimes: dele participar e dele desertar a fim de o abater."

Sempre ouço das mais velhas do movimento de mulheres negras ou das feministas negras que, para os corpos racializados, o agravante do cenário político atual faz pouca diferença, devido as assimetrias históricas que definem as nossas próprias humanidades.

No entanto, impossível não nos indagar sobre como podemos reunir saberes, perspectivas e outros modos de ver que nos ajude a compreender a nossa condição em um mundo que, apesar de sempre ter sido de extrema precariedade, aprimora cada dia mais suas ferramentas de exploração e sistemas de violação criando o que alguns autores chamam de um devir negro do mundo. Um mundo de corpos-moedas, onde a distribuição da violência se alastra a uma escala planetária. Onde as instituições contemporâneas atualizam e promovem a manutenção daqueles que foram ontologicamente destituídos de direitos. E onde a ausência de direitos é a prática do Estado. Onde os modos de uso da linguagem e a forma como estas forjaram todos aqueles categorizados como negros, corrompendo e desviando seu sentido original, caracterizam o império do falso de toda uma humanidade.

"Quebrar o círculo que faz de sua contestação o alimento daquele que domina, marcar uma ruptura na fatalidade que condena as revoluções a reproduzir aquilo que elas perseguem, tal é a vocação da destituição". Se as instituições em seu sentido mais amplo geram a demanda para justificar a sua própria existência (vejamos os sistemas médicos ou penitenciários, a justiça, ou a universidade), a noção da destituição propõe que "destituir não é, portanto, atacar as instituições, mas, sim, a necessidade que temos dela."

"Destituir a justiça é aprender a regular, nós mesmos, nossos desacordos, colocar para isso um método, paralisar sua faculdade de julgar e expulsar seus oficiais de justiça de nossas vidas. Destituir a medicina é saber o que é bom para nós e o que nos deixa doentes, arrancar da instituição os saberes apaixonados que nela sobrevivem em suas sombras e não voltar jamais a se encontrar só, no hospital, com o corpo entregue à soberania artística de um cirurgião desdenhoso. Destituir o governo é se tornar ingovernável. Quem falou em vencer? Superar é tudo."

É então sobre um modo de ser, de fazer e de pensar. É sobre uma prática e um gesto, e não um discurso, que a leitura nos solicita. Palavras que se pretendem atos, que nos convocam para nos organizarmos em uma arte dos agenciamentos decisivos até que quando perplexos, deixamos ruir qualquer inocência na sua última página: "Não há nenhum sentido em partilhar coisas se não se começa por tornar comum a aptidão em ver."

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