Muita treta pra Vinícius

Vinícius de Moraes e o avesso perverso da intelectualidade Bossa Nova

Acauam Oliveira
Nov 19 · 7 min read
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PAUSA DE MIL COMPASSOS | coluna semanal

por Acauam Oliveira

Estou lendo o volume I da fantástica antologia do Pasquim organizada por Jaguar e por Sérgio Augusto, e que reúne matérias e entrevistas publicadas entre 1969 e 1971. Ali estão presentes alguns dos momentos mais emblemáticos do jornalismo brasileiro, como as clássicas entrevistas com Madame Satã e Leyla Diniz, as charges de Millôr e de Ziraldo em grande fase, além da presença de convidados de peso como Caetano Veloso, Chico Buarque, e Paulo Francis, que encontrariam no Pasquim um espaço de acolhimento e expressão durante o exílio. As páginas do tabloide (na definição de Jaguar) cultivavam uma verve crítica afiadíssima e inovadora em diversos sentidos, que estão dentre os mais importantes registros da atuação cultural do campo progressista em plena ditadura. Ao longo dos anos ele se tornaria um dos grandes símbolos da resistência cultural da classe média progressista, junto com outras expressões artísticas.

Entretanto, como não poderia deixar de ser, o semanário (típica cria da zona Sul carioca, “Ipanema engarrafada”, nas palavras certeiras do diplomata Edgar Telles Ribeiro) também apresentava lá seus momentos ruins, interessantes na medida em que revelam fissuras importantes no campo da ‘resistência’ intelectual e artística dos anos de chumbo. Um desses momentos é a entrevista com Paulinho da Viola, publicada na edição de número 60 de agosto de 1970.

A entrevista é ruim por diversos motivos. Em primeiro lugar porque os entrevistados, bem mais íntimos da MPB em processo de legitimação que do samba, que na época andava meio apagado dos holofotes da grande mídia, buscavam trazer Paulinho da Viola para sua zona de conforto, tentando forjar a imagem de uma persona mais ‘refinada’, que o aproximaria mais da bossa nova que do samba de terreiro — aproximação essa que o compositor delicadamente faz questão de recusar: “Nem na fase da bossa nova eu tinha consciência do que era a bossa nova, do que ela significava na música. Aquilo pra mim era um negócio novo e eu já tinha um preconceito em relação aquilo por causa do meio em que eu vivia”. O refinamento de Paulinho, que existe, sempre foi profundamente popular, da escola do choro. Mas o Paulinho admirado pela intelectualidade do Pasquim é o de Sinal Fechado, canção mais afeita à lógica dos festivais. O resultado é uma entrevista que em diversos momentos beira o superficial, a despeito da distinção e elegância de Paulinho (então com 27 anos) em suas respostas.

Mas dentre os momentos ruins da entrevista, nenhum se compara às péssimas intervenções de Vinicius de Moraes. Em particular as passagens em que ele se propõe a ‘discutir’ com Paulinho a respeito do racismo são especialmente desastrosas. Em poucas linhas, comparece de tudo: racismo reverso, democracia racial e uma mistura bizarra de racismo com sexismo que é a fina flor do racismo à brasileira em sua versão mais perversa. Que esse conjunto deplorável se faça presente no interior daquele que muitos consideram como a síntese do melhor pensamento de esquerda da época é apenas mais um dos inúmeros exemplos das relações tensas e por vezes antagônicas entre classe, raça e gênero, e das contradições específicas de um projeto de esquerda que se desvincula do protagonismo popular.

Transcrevo aqui a passagem em questão. Os grifos são meus:

MACIEL Na entrevista com Capinam, ele disse que o Gilberto Gil era o primeiro cara que fazia música negra no Brasil. O que é que você acha dessa opinião?

PAULINHO Eu acho que a Clementina de Jesus faz música negra.

FLAVIO Uma vez eu li uma entrevista com Ray Charles na qual ele dizia claramente o seguinte: ‘o negócio de música é só negro que sabe fazer, no jazz é assim e na música toda é assim. É muito raro a gente encontrar um verdadeiro músico branco.

VINICIUS O jazz branco é caudatário da música negra, mas depois se misturou tudo, não há uma separação de música branca e música negra. Isso é racismo musical. O que eu quero dizer é o seguinte: eu acho o Gil um tremendo compositor, mas ele tem esse racismo, então isso se manifesta através da música dele. Eu acho que é um problema da natureza dele.

PAULINHO Você vê alguma conotação de racismo no momento em que se levantam certos problemas de uma estética negra, por exemplo?

VINICIUS Não vejo desde que não seja levantado nos termos dos Panteras Negras americanos, aí é racismo negro mesmo.

PAULINHO Você não acha que esse negócio dos Panteras Negras tem um peso que coloca em segundo plano esse problema do racismo?

VINICIUS Nunca houve um ser mais humilhado que mulher e nem por isso elas são racistas.

PAULINHO Eu acho que aí há um negócio diferente. No momento em que você tenta fazer certas afirmações em termos de uma cultura negra, de certos valores negros, e tenta afirmar isso como valores absolutos, como uma coisa que tem que ser porque não foi, eu acho que é racismo. Mas no momento em que ele tenta afirmar seus valores, o negócio do racismo fica em segundo plano.

VINICIUS Eu acho que quanto mais o negro se aproximar de uma cultura, menos racista ele deve ser. É a cultura que aproxima as pessoas e resolve os problemas. Até agora não tem resolvido nada, mas nossa esperança é que resolva.

PAULINHO Essa afirmação desses valores que você entende como uma posição racista, ela é racista até certo ponto. Dependendo das proposições, das coisas que estão acontecendo, ela até pode ser uma posição válida e importante, ela pode não ser uma posição racista.

VINICIUS Eu acho que o grande problema do racismo se resolve na cama, sabe?

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Vinicius de Moraes se autoproclamava ‘o branco mais preto do Brasil’. Provavelmente porque gostava de samba, frequentava alguns pagodes, tomava passe em terreiro e admirava a beleza de mulheres negras, sobretudo as de pele mais clara. Nessa entrevista o ‘branco mais negro do Brasil’ deixa claro como o racismo se organiza por aqui a partir de uma gramática particular de afetos que cria a curiosa figura do ‘racismo por afinidade’, que autoriza a escrotidão e desresponsabiliza o sujeito perante seu próprio olhar. De fato, o racismo transparece aqui literalmente a cada linha, coroado com o ápice de perversidade que faria a felicidade de qualquer senhor de engenho: ‘eu acho que o grande problema do racismo se resolve na cama’.

Um dos traços do racismo é que ele torna a negritude algo sempre insuficiente — o negro está sempre em débito mesmo quando é o maior gênio em seu próprio campo (como o caso de Pelé que abordamos na coluna anterior, mas também em inúmeros outros exemplos, como Machado de Assis, Lima Barreto e Milton Santos). A negritude é sempre falta. A branquitude, por sua vez, é o perpétuo saldo positivo, que faz com que o mínimo e por vezes o nada obtenham o máximo de reconhecimento e valorização. Eventuais amizades e o interesse de Vinicius pela cultura negra (os afros sambas são uma obra prima) fazem dele alguém admirável, possivelmente antirracista, a despeito das manifestações execráveis em sentido contrário, que são sempre apaziguadas, contextualizadas, ou relativizadas: “tudo bem que ele relativiza o estupro das mulheres negras com ideia de que o racismo se resolve na cama, mas tu sabe que ele tinha até amigo preto né?”. A branquitude (enquanto estrutura) é precisamente esse salvo conduto que a permite acertar sempre enquanto à negritude não se permite acertar nunca. A diferença não poderia ser mais gritante: enquanto do lado branco sempre se pede por relativização e calma, pois o ser humano é complexo e as coisas não são bem assim, do lado negro os acertos só são exaltados caso o protagonista cumpra uma série de exigências perversas que, entretanto, não servem como garantia, pois a ‘concessão’ pode ser retirada a qualquer momento.

Note-se que se trata do mesmo sistema que permite a romantização dos diversos casamentos de Vinicius de Morais como frutos de uma alma poética eternamente apaixonada, e não como o privilégio de macho branco rico que o autoriza a substituir suas companheiras por mulheres cada vez mais jovens.

É inegável que a Bossa Nova é um dos movimentos mais importantes da história da música popular brasileira, que revolucionou todo o campo cultural ao conseguir realizar efetivamente aquilo que para os modernistas sempre foi um projeto de alcance restrito: a síntese do que havia de melhor nos dois mundos, o erudito e o popular, criando uma estética a um só tempo moderna, cosmopolita e democrática. Entretanto, é também inegável que os vícios de classe não desaparecem no processo, e se inscrevem no DNA da revolução bossa novista, herdado pela MPB. Se do ponto de vista estético tais vícios têm o interesse de sintetizar e dar a compreender nossas contradições, do ponto de vista social eles precisam ser criticados por aquilo que efetivamente são.

Ser intitulado como o ‘branco mais preto do Brasil’ é marca de privilégio na medida em que tal enunciado obviamente depende da conversão da negritude em mero fetiche. Para confirmá-lo, basta pensarmos na impossibilidade estrutural de sua inversão, algo do tipo ‘o preto mais branco do Brasil’, que necessariamente seria lido em chave negativa, como apropriação indébita. O ponto é que a branquitude, lugar do universal, não pode ser apropriada enquanto fetiche, o que a transforma em uma impossibilidade estrutural para os que não se posicionam no interior de seus limites.

De todo modo, já passou da hora de mostrarmos que por aqui, de fato, é muita treta pra Vinicius de Morais.

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