Muito além do noivado

Natalia Ginzburg mergulha no universo de uma família, e o relata belo e profundo em toda a sua humanidade

Por Carlos Castelo

Quando estava na faculdade achei no Sebo Messias — sempre ele — um livrinho que foi importante para mim. Chamava-se Tudo que Você Precisa Ler Sem Ser um Rato de Biblioteca, de Luiz Carlos Lisboa. Não era mais do que uma seleção literária de romance, poesia, teatro, ensaio e crítica. Só que editada de forma bem acessível, com textos sintéticos sobre o melhor da literatura universal. Através desse livreto acabei tomando contato com o pensamento de François Rabelais, André Malraux, Jack London, John dos Passos, G.K. Chesterton, entre outros pouco votados naqueles tempos pré-Wikipédia e blogs de resenhas literárias.

Recordo-me que uma das obras vasculhadas nessa época, por causa daquela pequena brochura, foi o romance histórico Os Noivos, um dos grandes clássicos da literatura italiana, de 1840, escrito por Alessandro Manzoni.

Nele, Manzoni conta a história de Renzo e Lúcia, camponeses analfabetos, que moram num pequena vilarejo e desejam se casar. Mas são impedidos por um fidalgo que alimenta uma paixão por Lúcia. A sequência de reveses da dupla começa quando o vigário da vila se nega a perpetrar seu matrimônio temendo Dom Rodrigo, o homem mais poderoso da região.

O grande feito de Os Noivos foi distanciar-se dos romances de cavalaria da época — que colocavam o amor no centro da narrativa — e instaurar o romantismo nas letras italianas.

Aquele pano de fundo da peste, todas as idas e vindas das personagens, marcou muito o meu imaginário e me recordo vivamente de diversas páginas até hoje.

Soube, muito tempo após a leitura, que Alessandro Manzoni havia sido pai de família dedicado e católico de raiz. A primeira mulher, Enrichetta, dera-lhe nove filhos. Tudo isso num cenário em que a radicalização das questões nacionais fervia a Bota de cima a baixo.

O que eu nunca poderia imaginar, no entanto, era que uma das principais narradoras italianas do século XX, escolheria um ponto de vista nada épico para contar a história dos Manzoni. E que o faria até lançando mão de uma linguagem áspera.

A Família Manzoni, publicado em 1983, é um romance montado a partir de cartas e relatos históricos. Um mergulho no universo de uma família, belo e profundo em toda a sua humanidade.

Quem urdiu A Família Manzoni foi Natalia Ginzburg, nascida em Palermo, em 1916. Durante anos, trabalhou na editora Einaudi, ao lado de Cesare Pavese e Italo Calvino. Entre suas obras mais conhecidas, estão o romance Léxico Familiar e os ensaios de As Pequenas Virtudes.

Companhia das Letras. Tradução: Homero Freitas de Andrade. 496 páginas. Preço: 59,90 e 39,90 (e-book).

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