“Não separo desenho e palavra”

Na série com grandes quadrinistas brasileiros, Spaca entrevista Marcello Quintanilha. “Não tenho inclinação a planejar. Simplesmente sento lá fora e espero o meteoro me encontrar”

Salvador, da série Cidades Ilustradas

Por Rafael Spaca

No começo da sua carreira você assinava seus desenhos como Marcello Gaú, por acreditar que as histórias em quadrinhos não poderiam servir como profissão. Você era pessimista ou realista?

Na época não havia nada que indicasse que os quadrinhos constituiriam minha principal ocupação, como veio a ocorrer anos depois; então, na minha forma de pensar, o mais natural seria tê-los como uma atividade paralela ao mundo jurídico, digamos assim, e o pseudônimo marcava a distinção entre as duas áreas.

Com o passar do tempo, os quadrinhos adquiriram cada vez mais espaço como função principal e o pseudônimo deixou de ter significado.

Quanto a não achar que os quadrinhos pudessem ser uma profissão, era exatamente a forma como pensava na época; é exatamente a forma como penso hoje e provavelmente será a forma como venha a pensar amanhã. Porque nunca me identifiquei com a dinâmica do profissionalismo, nem o considero um paradigma necessariamente positivo, na medida em que frequentemente podemos nos eximir de determinadas responsabilidades justamente em nome da impessoalidade constituída pela ideia do profissionalismo. Em relação ao trabalho que faço, sou o único responsável por absolutamente toda e qualquer decisão que venha a tomar, de modo que vejo meu trabalho como algo muito mais profundo do que meramente profissional.

Mesmo tendo publicado seu primeiro quadrinho ainda adolescente, o que não é fácil, achava mesmo que não iria lograr êxito nesta área?

O fato de não considerar o quadrinho como uma profissão nada tem a ver com alguma noção conceitual de êxito. Nem ser regularmente remunerado para a execução de uma determinada atividade artística representa a legitimação automática dessa atividade como uma proposta em si.

Artistas como Miley Cyrus ou Justin Bieber podem obter régios dividendos em suas carreiras; o resultado de suas performances, no entanto, representa a antítese do êxito na minha opinião.

Não sei definir exatamente o que é êxito no campo da arte, nem sei se as coisas podem ser tratadas nessa precisa esfera, mas ao longo dos anos tenho conseguido realizar meu trabalho exatamente da forma como acho que deve ser realizado e me sinto particularmente satisfeito por me comunicar com as pessoas de um modo tão honesto.

Pensou em fazer outra coisa da vida? Se sim, o quê?

Sempre estive envolvido com quadrinhos e ilustração e, uma vez que comecei a publicar muito cedo, as coisas se encaminharam nessa direção, de modo que não houve nem sequer tempo para a revisão dos trilhos, pelo menos até o momento.

Mestre Kim

Qual a avaliação que faz dos seus desenhos de artes marciais produzidos para a revista Mestre Kim, da Bloch Editores?

Foi magnífico porque pude verificar o resultado do cuidado empregado na realização da obra imediatamente após sua produção. Ou seja, o quadrinho é uma linguagem cuja finalização se determina no momento de sua veiculação; logo, uma página original finalizada não é igual à mesma página impressa ou digitalizada, que é verdadeiro objetivo final, o aspecto que efetivamente chegará ao público.

Eu produzia uma média de duas histórias ao mês, impressas logo no mês seguinte, e ter a oportunidade de acompanhar a impressão do material de modo tão imediato foi fundamental para que eu aprendesse a levar sempre em conta a melhor forma de que as páginas originais viessem a ser reproduzidas.

Antes de trabalhar para a Conrad Editora você foi animador em uma escola de inglês durante sete anos e usava o tempo livre para desenvolver seus projetos pessoais. Alguém de lá te descobriu ou você foi atrás?

Simplesmente respondi a um anúncio de jornal e, uma vez lá, integrei uma das equipes de animação que estavam sendo montadas pela empresa para a execução de projetos institucionais e publicitários.

Esse tempo livre foi fundamental para você encontrar seu estilo ou só encontrou depois?

Não, porque não somente o tempo livre se destina à plasmação de uma linguagem pessoal; todos os aspectos das relações cognitivas convergem para esse fim, se a isso se pode chamar de “fim”, claro.

Quais as suas principais recordações deste período de trabalho lá?

Foi maravilhoso em todos os aspectos porque, além de aprender um ofício, conviver com pessoas com as quais até hoje tenho laços de amizade, tive a oportunidade de percorrer pessoalmente muitos dos espaços descritos nos romances de escritores como Machado de Assis ou Lima Barreto, o que me marcou profundamente.

O mero fato de me dirigir ao emprego diariamente representava sempre uma nova experiência, e muito do que se consolidou como mais característico, gráfica e tematicamente, no meu trabalho é consequência justamente dessa época.

Chegou a fazer algum curso para apurar seu traço?

Sempre tive imensas dificuldades com qualquer tipo de aprendizado técnico, e mesmo a escola regular foi um verdadeiro calvário para mim. Nada daquilo que posteriormente se tornou parte da minha obra ou, consequentemente, da minha vida, foi provido pelo sistema educativo.

Fealdade de Fabiano Gorila, na época assinado por “Marcelo Gaú”

Sua primeira graphic novel foi publicada em 1999. Fealdade de Fabiano Gorila era uma história baseada na vida de seu pai, que foi jogador de futebol, jogava no time Canto do Rio na década de 1950. Como foi seu método de produção neste trabalho, foi pelo que seu pai te contou ou fez pesquisa de campo, em acervos, etc.?

Trabalhei em todas essas vertentes.

Como foi pra você desenhar futebol, que não é um esporte que te move. Era mais uma homenagem ao seu pai?

A pergunta contém a afirmação de que o futebol não é um esporte que me move, o que se trata, naturalmente, de um dado errôneo. Embora não nutra paixão exacerbada por nenhuma equipe em atividade atualmente, esse esporte sempre esteve presente em maior ou menor medida, e as primeiras noções do meu conhecimento sobre anatomia e, principalmente, movimento, decorrem da observação sistemática das fotografias dos jogos de futebol impressas nos jornais dos anos 70 e 80, diante das quais eu passava horas e horas, tentando apreender ao máximo a mágica lógica da captura do instante preciso de um movimento, sem qualquer tipo de intencionalidade por parte das figuras ali representadas. Expressões da constituição humana que me fascinavam pela plasticidade muitas vezes antagônica à ação que executavam.

No que se refere a apoiar uma equipe em particular, ou torcer por uma equipe, se você prefere, preciso dizer que o único clube de futebol com o qual tive afinidade foi o Manufatora F.C., oriundo do meu antigo bairro em Niterói, que deixou de existir em 1983. Nunca me identifiquei com nenhum outro time e nem vejo sentido na ideia de adotar um outro clube como objeto de interesse que substituísse o anterior — realmente acho que não se pode cair mais baixo.

Tampouco vejo sentido no comportamento, aliás, bastante disseminado, de que alguém se decante por um time cujo histórico de resultados seja eminentemente positivo, pelo sentido de pertencimento ou integração a uma parcela “vencedora” de uma determinada comunidade (a menos que esse time seja o Barcelona, obviamente; única ocasião em que essa atitude é justificável). Flamengo, Fluminense e seus co-irmãos nunca significaram nada para mim como torcedor, mas sim como parte de uma história que se mescla à formação de uma identidade nacional em seus aspectos mais essenciais, indissociável de todo aquele que aspire por um mínimo de dignidade como brasileiro, e a biografia particular de cada clube sempre foi matéria de grande interesse para mim.

Fealdade de Fabiano Gorila não significa nenhum tipo de homenagem propriamente dita, mas sim a récita de um episódio que me motiva principalmente como representação da relação do ser humano com o imponderável, o que me estimula em grande medida como autor.

Como e em que circunstância conheceu François Boucq?

Meu primeiro contato com seu desenho foi através do álbum A Mulher do Mágico, publicado em Portugal pela Meribérica/Liber e que chegou ao Brasil por meio de alguns pontos de importação. O trabalho de Boucq foi fundamental na construção daquilo que eu pretendia expressar como quadrinista, no que se refere a resgatar a importância da composição cênica, ou seja, a (re) introdução de uma iconografia eminentemente brasileira, através da revalorização de seus componentes mais comezinhos.

François Boucq era um dos mais proeminentes representantes de uma vertente que se dispõe a tratar cada um dos elementos da cena como um personagem em si mesmo, possuidor de uma história particular e, sobretudo, uma razão de ser e existir, de nenhuma forma associada à arbitrariedade do traço ou exercendo um papel gratuito na conjunto da imagem e sempre fui absorvido por autores capazes de atuar sob esses critérios.

Eu o conheci pessoalmente em 1998 ou 1999, durante a primeira fase do FIQ, de Belo Horizonte e nos tornamos amigos. Ele apresentou meu trabalho para sua editora na França, que me pôs em contato com Jorge Zentner, que, por sua vez, me apresentou o projeto de Sept Balles pour Oxford. Trabalhamos longamente no desenvolvimento desse projeto em companhia de Montecarlo, o outro roteirista e, posteriormente, decidimos lançá-lo pelas Editions du Lombard.

Ele transformou sua vida?

Os caminhos que minha vida tomou, em todos os âmbitos, desde que comecei a publicar na década de 80, derivam de uma constante aprendizagem a respeito da linguagem e do universo dos quadrinhos, o que não considero uma transformação, na acepção do termo, por se tratar da matéria que define o cotidiano do ofício em si mesmo, e a obra de François Boucq foi um componente fundamental nessa dinâmica.

Sept Balles pour Oxford

Depois desse encontro com François Boucq seus desenhos foram parar em editoras europeias. Você publicou La Promesse (A Promessa), primeiro volume da série Sept Balles pour Oxford (Sete Balas para Oxford), pela editora belga Le Lombard, com roteiro do argentino Jorge Zentner e do espanhol Montecarlo. Foi nesse momento que decidiu sair do país?

Sim, porque o contexto do mercado europeu de quadrinhos — o franco-belga em particular — e suas relações com o público sempre foi peça de atenção para mim e tinha grande interesse em viver essa prática em primeira pessoa. Não havia um plano para um assentamento definitivo. Ainda não há.

Sua editora, a Lombard, por décadas publicou as histórias do personagem Tintin, do cartunista Hergé. O que isso representa para você?

É inevitável estar sujeito ao fascínio que suscita estar próximo a tradição da mais aguda identidade do quadrinho franco-belga.

O que Hergé representa para a Bélgica?

Sem dúvida trata-se de uma de suas principais referências culturais.

Ele é uma das suas referências? Quais são?

Hergé é uma referência para qualquer pessoa interessada em quadrinhos. Mas, mais do que Hergé, toda a tradição da escola da Ligne Claire, através dos traços de artistas como Floch, Chaland, Swarte e, principalmente, Jacobs, autor da série Blake et Mortimer, sempre foram referentes incontornáveis, principalmente por uma característica intrínseca a esse estilo, expressa no desdobramento mecânico do desenvolvimento da ação, inter-relacionando personagens e cenários.

Arrebatador.

Clarice Lispector, no carro e na rua

Você tem mais mestres/referências em literatura ou em desenho?

Sim, quadrinistas como John Buscema, Roy Crane, Paul Gulacy, Jesus Blasco, Robert Gigi, Dino Battaglia, sempre farão parte do meu panteão sagrado. Escritores como Machado de Assis, Clarice Lispector, Lima Barreto, Mário Filho ou Raul Pompéia; não só pelo que escreveram, mas também pela forma com que foram capazes de fazê-lo, equacionando suas vidas de modo a produzir independentemente de qualquer interferência externa.

Seus quadrinhos são literatura stricto sensu, e a impressão que se tem é de que se, não tivessem desenhos, a narrativa fluiria do mesmo jeito. Concorda com isso?

Não, sob nenhuma hipótese, nem posso corroborar a afirmação contida na pergunta de que minha proposta se constitua ou objetive qualquer coisa que não seja a comunicação através do quadrinho em sua totalidade.

Ao longo do tempo nos habituamos tristemente à associação do efeito de interação entre leitor e obra produzido por uma experiência de leitura positiva de uma HQ a uma ressonância cinematográfica ou literária, o que é negligenciar o propósito em si mesmo da transação existente no ato da leitura de quadrinhos, ignorando o fato de que esse tipo de efeito se deve não a uma possível mimetização de uma dinâmica cinematográfica ou literária, mas, na verdade, à própria essência da lógica quadrinística no mais alto grau.

Do mesmo modo, admitir que o alçamento da linguagem do quadrinho a um determinado status quo de excelência, digamos assim, se faça através de sua transmutação em outra linguagem; o que equivale a dizer que, se o quadrinho alcança determinado grau de qualidade, ele imediatamente deixa de ser quadrinho por ultrapassar o conceito intrínseco que o define como meio; é algo que considero absolutamente inadequado.

Os desenhos são acessórios?

Nada que se refira à corporificação do quadrinho é acessório, porque converge para a construção de uma mesma estrutura codificada, na qual também se incluem balões, letreiramento, sarjetas, etc..

A palavra é mais importante que o desenho?

Da forma como vejo, sequer sou capaz de reconhecer a palavra como um código à parte do desenho; ou seja, não identifico a linguagem do quadrinho como a junção do código desenho e do código texto, no sentido de que ambos constituem o mesmo elemento para mim, assim como, repito, todos os itens que fazem parte da composição de uma estrutura narrativa.

Hoje você mora em Barcelona, publica ilustrações nos jornais espanhóis El País e Vanguardia. Nada mau para quem não acreditava em si mesmo, não é? Indo para o campo hipotético: se tivesse morando no Brasil, e não na Espanha, como estaria a sua vida, em todos os aspectos, pior ou melhor?

É impossível saber como estaria minha vida caso estivesse morando no Brasil, e minha incapacidade para especular sobre esse tipo de conjectura me leva de volta ao princípio da pergunta.

Sim, durante alguns anos colaborei com La Vanguardia e El País. Atualmente me dedico exclusivamente aos quadrinhos.

Tenho certa dificuldade em dispor a questão a partir da noção de confiança em si mesmo, porque ela se atrela a uma contextualização bem pouco familiar para mim.

Quem é o cara em Barcelona, você ou Lionel Messi?

Buenaventura Durrutti.

O Brasil dá esperança para quem é cartunista?

É difícil pensar em um espectro de oportunidades no que se refere à produção de quadrinhos como os meus em qualquer caso — tanto no Brasil como no exterior — , cuja concepção esteve sempre à margem das identidades editoriais e mercadológicas vigentes em cada época e, por conta disso, me sinto orgulhoso de chegar ao público da forma como tem ocorrido.

Tampouco me submeto à ideia de que outros países ofereçam um tipo de paraíso no qual pessoas que trabalham em áreas pouco ortodoxas gozem necessariamente de mais respeitabilidade do que no Brasil.

Cada país tem suas especificidades nesse campo e com o Brasil não é diferente.

Como é a cena na Espanha, os jornais e revistas dão mais espaço que aqui no Brasil ou é tudo igual?

A perda de espaço dos quadrinhos nos jornais é um fenômeno global, aparentemente, e já faz algumas algumas décadas que as revistas entraram em decadência igualmente em todo mundo. Portanto, esse panorama se apresenta de forma similar, não somente entre Brasil e Espanha, mas de forma generalizada, diria eu.

E de desenhistas na Europa, o que têm a falar?

Admiro inúmeros desenhistas como David Prudhomme ou Blutch; ambos, sob muitos ângulos, resgatam procedimentos ancestrais da formulação da imagem em quadrinhos que considero tremendamente significativos.

Também sou grande admirador de Max Cabanes e Rubén Pellejero, por sua capacidade de utilizar as cores sob critérios de luz e não sob os que imprimiriam elas próprias sobre cada uma das unidades da cena, criando uma atmosfera na qual nenhum dos elementos tem uma cor definida, mas sim a que é determinada pela concepção da iluminação de cada plano.

Mesmo distante você publica coisas aqui. Por quê?

O fato de ter o Brasil e suas referências particulares como ponto de partida para a realização do trabalho não traz nem nunca trouxe implícita a prerrogativa do fator presencial.

Mais objetivamente, o Brasil que represento nas minhas histórias não é o Brasil que está diante de mim, nem considero que produzir a partir do ponto de vista do “observador” de uma determinada realidade seja algo substancialmente positivo, porque esse procedimento implica um inevitável distanciamento entre quem observa e aquilo que é observado e eu nunca trabalhei a partir da distância.

Portanto, o Brasil presente nas minhas histórias não é meramente o Brasil que está “diante” de mim, mas sim o Brasil que está comigo, na expressão de uma série de coisas e valores que me formaram como ser humano.

Se você consegue estabelecer esse tipo de relação com o trabalho que realiza, a questão presencial deixa de ter qualquer significado.

Talco de Vidro

Talco de Vidro, sua mais recente graphic novel, é toda cheia de referências biográficas. Fazê-la foi uma forma de manter viva as raízes ou é mais fácil utilizar sua memória afetiva para produzir um novo trabalho?

Nem uma coisa nem outra, não tenho qualquer tipo de preocupação nem em um nem em outro sentido. As histórias existem por si e elas mesmas determinam de modo objetivo sua geografia. Assim, não me sinto arraigado a nada, nem estabeleço parâmetros que condicionassem o que represento a um recurso técnico transmutado em apelo afetivo.

Um a um, fale destes trabalhos:

Sábado dos meus Amores

Sábado dos meus amores (2009, Conrad)

Uma compilação de histórias curtas. Um dos principais objetivos é o de reintroduzir uma série de referências relativas a uma iconografia eminentemente brasileira, historicamente alijada do processo de produção de quadrinhos no Brasil, por diversas e complexas razões; lançando mão também de um processo de mimetização do grafismo litográfico, relativo à identidade visual da imprensa do século XIX.

As histórias de Sábado…, assim como todas as outras histórias, refletem facetas da realidade que conheci no Brasil, seja em primeira pessoa, seja através das pessoas que me cercavam.

Meu destaque neste álbum se refere à HQ Dorso, publicada originalmente na revista General Visão, da Editora Conrad, em 1996 ou 97. Trata-se de um atestado de conduta diante da existência na forma da reivindicação do personagem principal, através da alegoria da auto-flagelação, pelo direito de se viver sua vida da forma que melhor lhe aprouver, mesmo que isso signifique arruiná-la por completo.

Almas Públicas

Almas públicas (2011, Conrad)

Nova compilação de obras curtas. Notavelmente, as cores aplicadas em diversas histórias deste álbum, como em De Pinho ou Clarimundo de Melo, assumiram um protagonismo que viria a suplantar boa parte da referenciação litográfica e que determinou a maneira como trabalho seria realizado daquele ponto em diante.

De Pinho é uma história que trata do embate entre aspiração, realidade e ambição, expresso no cotidiano de um jogador de futebol de um time da terceira divisão do campeonato baiano.

Clarimundo de Melo tem a característica de tratar da relação do ser humano com uma série de valores que condicionam suas atitudes a partir de um entendimento do que é lícito fazer sob uma ótica religiosa. Ou, por outra, as relações que estabelecemos com o que consideramos divino e os pequenos tratos que promulgamos cotidianamente com a divindade em nome de pequenas realizações cotidianas.

Chão bento, um destaque especial, livremente inspirada na vida do sambista Silas de Oliveira, 1916–1972.

O álbum inclui as histórias Fealdade de Fabiano Gorila, Três Minutos de Linhas e Granadilha, desta vez em seu formato original e anteriormente publicadas no álbum Fealdade de Fabiano Gorila, de 1999.

O Ateneu

O Ateneu (2012, Ática)

Uma adaptação para os quadrinhos do livro O Ateneu, de Raul Pompéia, um dos grandes clássicos da literatura brasileira e um dos meus livros favoritos, pois exprime a representação de uma realidade filtrada pelo rancor, o que considero tremendamente instigante. Cada vez que lia suas páginas, uma e outra vez, ia acrescentando elementos a minha particular visão do ambiente retratado no livro.

Tungstênio (2014, Veneta)

Tungstênio expõe o resultado das escolhas feitas por quatro personagens principais em diversos momentos de suas vidas. Expõe a fragilidade das relações interpessoais ao mesmo tempo em que explora a fortaleza contida sua redenção.

Tunsgtênio

O álbum decorre de uma primeira visita à cidade de Salvador, ainda em 2003, como parte da pesquisa para o álbum Salvador para a série Cidades Ilustradas, editada pela Casa 21. Minha identificação com a cidade foi imediata, a tal ponto que voltei a ela em diversas outras histórias nos anos que se seguiram.

Sua adaptação para o cinema, com direção de Heitor Dhalia, está prevista para o segundo semestre de 2017.

Hinário Nacional

Hinário Nacional (2016, Veneta)

Nova compilação de histórias que tratam especialmente da violência em seus diversos aspectos, não somente a violência física, mas também a psicológica; não somente a violência que impomos a outra pessoa, mas também a que impomos a nós mesmos.

Trata também da característica à qual podemos nos submeter, com mais frequência do que supomos, de assumirmos o papel de vítimas voluntárias dessa violência.

Voltar ao Brasil ou se estabelecer definitivamente na Europa?

Todas as portas estão abertas.

Acredita que o fato de morar na Espanha te atrapalhe para receber convites para publicar nos jornais daqui?

Não, não acredito. Em 2010 assinei uma tira semanal no jornal O Estado de São Paulo, da qual tenho particular orgulho pelo fato de ter conseguido desenvolver o projeto, tanto estética como tematicamente, de modo honesto e, sobretudo, contundente.

Você está distante do nosso noticiário ou acompanha com frequência nossa triste realidade?

Acompanho o máximo que posso, e a efervescência em torno da palestra sobre sistema nos coloca diante de um panorama inédito no histórico do debate público no Brasil.

A internet subverteu de modo irreversível a forma como alcançamos a informação, e a possibilidade de que absolutamente qualquer pessoa possa ter voz no panorama da discussão política é uma perspectiva tremendamente excitante, no sentido de que nunca tivemos maior possibilidade de delinear o escopo de tendências e valores que constituem a sociedade brasileira como agora.

Por que razão você é um dos poucos brasileiros que alcançaram projeção internacional no gênero sem desenhar super-heróis?

Difícil responder a essa pergunta, na medida em que tudo que consegui fazer se estabeleceu dentro de condições organizadas por mim mesmo para sua execução.

Aliado a isso, acho que pude trabalhar com editores cuja proposta se define por uma contundência que não se estabelece pelas regras do mercado, o que foi, inegavelmente, um fator preponderante para a veiculação do meu trabalho.

Se a Marvel ou DC Comics te convidarem para desenhar um super-herói, você toparia?

Embora não seja especialista no universo dos super-heróis e nem no das grandes editoras, todas as portas estão abertas e não me sinto cerceado por nenhum tipo de auto-imposição. A diversidade de gêneros dentro de um determinado meio de expressão também é uma demonstração de sua vitalidade.

Considero, no mínimo, curioso que o gênero dos super heróis se estabeleça como parâmetro de conduta para alguma coisa, conduzindo a um caráter quase dicotômico do debate em todo da linguagem sobre quadrinhos o que, na minha maneira de ver, empobrece tremendamente essa discussão.

Marcello Quintanilha

O que seu trabalho tem de especial?

“Uma extraordinária ordinariedade”.

A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (2000), capa do disco do Planet Hemp; e animações para o filme espanhol Chico & Rita (2010), música e cinema. O que um produtor precisa fazer para te seduzir aceitar trabalhos nestas ou em outras áreas?

Me interesso por distintos meios de modo muito intenso. A animação e a ilustração de imprensa foram os mais presentes ao longo do tempo.

Minha motivação tem a ver com o que me deixa confortável e me sinto tremendamente à vontade trabalhando em algumas formas de expressão alheias ao quadrinho.

A animação é uma ideia que pretende desenvolver?

Não há nenhuma pretensão, nenhuma ideia em andamento no momento.

O que planeja para o futuro, o que pretende publicar?

Não tenho inclinação a planejar absolutamente nada. Simplesmente me sento lá fora e espero o meteoro me encontrar.

No Brasil, sucesso é ofensa pessoal, segundo Tom Jobim. Acha que está ofendendo alguém?

Não sei o que depreender da palavra sucesso, nem acho especialmente produtivo racionalizar as coisas por esse prisma. Aparentemente mais e mais pessoas têm apreciado meu trabalho, o que considero magnífico.

Do meu ponto de vista, chegar ao fim do dia com um mínimo de dignidade já é um objetivo suficientemente difícil de ser alcançado nos dias que correm.