Na mente de um visionário

Edição definitiva de “Kubrick”, de Michel Ciment, disseca o diretor que foi capaz de aliar cinema autoral e sucesso financeiro

“Assistir a um filme de Kubrick é como ver o cume de uma montanha a partir do vale. Nós nos perguntamos como alguém pôde subir tão alto. Há em seus filmes trechos, imagens e espaços carregados de emoção que têm uma potência inexplicável, uma força magnética que nos aspira lenta e misteriosamente. (…) Ele era único, na medida em que, a cada novo filme, redefinia esse meio de expressão e suas possibilidades. Mas era mais que um simples inovador técnico. Como todos os visionários, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos à vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encará-la”.

As palavras acima, escritas por ninguém menos que Martin Scorsese, estão no prefácio que o cineasta fez para o livro de Michel Ciment sobre Stanley Kubrick, cuja primeira edição data de 1980, mas que foi relançado com acréscimos à medida que Kubrick estreava um novo filme — ou seja, até 1999, quando De Olhos Bem Fechados foi lançado e o diretor morreu antes de vê-lo concluído. Agora, uma sofisticada reedição acaba de chegar ao mercado através da editora Ubu.

No primeiro capítulo, Ciment constrói um perfil pessoal e intelectual de Kubrick, desde o nascimento em Nova York numa família de imigrantes judeus, ao trabalho como fotojornalista da revista Look, passando pelos primeiros passos no cinema, até chegar ao auge como um dos mais respeitados cineastas de todos os tempos, com um sucesso financeiro inegável e constante para obras autorais — naquela época, um exemplo raro na indústria americana.

“O cineasta de 2001 parece ter tido sucesso nesse jogo sutil da arte e das finanças que foi fatal para seus gloriosos precursores. Quero dizer, esses artistas fortes e ambiciosos que parecem surgir a cada década para abalar Hollywood, desafiá-la e renovar suas formas”, comenta Ciment no livro. “Griffith nos anos 1910, Stroheim nos anos 1920, Sternberg nos anos 1930, Welles nos anos 1940, Kazan nos anos 1950, Kubrick nos anos 1960 e Altman nos anos 1970. Todos, no passado, foram mais ou menos obrigados à aposentadoria forçada ou ao exílio. Orson Welles (cuja severidade é conhecida) soube reconhecer essa filiação quando, já em 1965, declarou: “Entre a jovem geração, Kubrick me parece um gigante’”.

No set de gravação de “O Iluminado”, com Jack Nicholson (1980)

Em seguida, Ciment lista 20 reflexões suas sobre a obra do cineasta. Por exemplo, a forma como o mundo de Kubrick está sempre à beira do colapso, seja ele o de um indivíduo ou o de uma sociedade. “Notaremos que ele renega o ‘happy end’ de A Morte Passou por Perto, filme cuja inteira tonalidade é a de um pesadelo acordado. O Grande Golpe tem uma atmosfera hustoniana, mas o fracasso amargo não é sequer redimido pela exaltação da luta; o que prevalece é a sensação de desperdício, de perda. Já em Medo e Desejo quatro soldados em uma guerra abstrata infiltram-se nas linhas inimigas, abrem passagem através do bosque e massacram um destacamento antes de atacar um posto inimigo para depois se dar conta de que a proeza deles não significa nada, que continuam na mesma situação inicial.

Esse universo de perseguição e de estagnação está expresso nos cenários estranhos, nas quinquilharias de Kubrick: os abajures, as lâmpadas e as sombras bizarras de O Grande Golpe, o subsolo cheio de manequins de A Morte Passou por Perto, as pastas, estátuas, copos, garrafas, quadros na espelunca que faz as vezes de casa para Quilty em Lolita, as árvores cortadas, a paisagem repleta de detritos em Glória Feita de Sangue. Mas, para além desse aspecto superficial, impõe-se um cenário emparedado, atravancado, irrespirável — as casas de Lolita, as trincheiras de 1914–18, o quarto miserável e as danceterias esfumaçadas de A Morte Passou por Perto, os esconderijos subterrâneos que o Dr. Fantástico promete aos sobreviventes do conflito e até mesmo as paisagens desérticas, secas, inquietantes de Lolita.”

“Laranja Mecânica” (1972)

A propósito, vale citar que o nome por trás do projeto é um diferencial. Assim como não dá pra falar sobre crítica literária sem citar Michiko Kakutani, James Wood e Beatriz Sarlo — todos num patamar superior em seu ofício –, é impossível falar de cinema sem lembrar o trabalho de Michel Ciment, crítico e editor da cultuada revista francesa Positif. Se Kubrick fosse escrito por um jornalista com menos experiência, provavelmente sua profundidade intelectual não chegaria à altura do biografado — e faço uso dessa palavra porque, mesmo que o foco seja na obra kubrickiana e não na vida pessoal do criador, a edição e a densidade que Ciment deposita nas múltiplas resenhas ao longo das páginas, tornam seu livro uma bela biografia.

No prólogo, ele deixa claro que não pretende ser exaustivo, mas sim apresentar uma série de proposições convergentes que buscam alcançar o núcleo central, inalterável, da obra de Kubrick. Neste ponto, o livro cumpre bem o que propõe. Longe de ser fatigante, ele consegue envolver qualquer cinéfilo, mesmo ao se mostrar mais prolixo em alguns capítulos. É uma preciosidade para entender como um gênio consegue exercer influência singular na história do cinema e como este deve ser trabalhado (e pensado) sempre respeitando a arte subjetiva de que se trata. Em paralelo, cabe ao leitor — como disse Ciment — levar adiante seu devaneio e reflexões pessoais em torno de um dos cineastas mais exigentes, mais originais e mais visionários de nosso tempo.

Além disso, aqueles que conhecem um pouco da vida de Stanley Kubrick sabem que não haveria um nome mais apropriado que o de Ciment para escrever esse livro. O cineasta era recluso, avesso a entrevistas, mesmo que se tratasse de comentar sobre seus próprios trabalhos. E apesar dos dois não terem sido amigos — Ciment já declarou que acha pouco provável alguém ter penetrado no círculo confidente de Kubrick — , o jornalista encontrou em seu perfilado um homem extremamente encantador, nada distante, uma das melhores pessoas de entrevistar. Inclusive, ele teria gostado tanto do resultado que ligou para Ciment às 9 da manhã, dizendo que estava diante do melhor livro que já havia lido sobre um diretor de cinema, e pediu-lhe 400 cópias. As consequências dessa sintonia entre ambos podem ser vistas em três raras conversas, datadas junto aos lançamentos de Laranja Mecânica (1972), Barry Lyndon (1976) e O Iluminado (1980).

Se por um lado a participação ativa do cineasta ficou apenas nessas poucas entrevistas (o que não condiz tanto com o título anterior Conversas com Kubrick que foi modificado de maneira sensata), indiretamente o leitor tem o deleite de penetrar no seu processo criativo nos bastidores, em suas estratégias para chegar ao ápice do que pretendia com seu estilo ousado e transgressor. Nascido para Matar e De Olhos Bem Fechados, seus dois últimos filmes, ganham merecidos capítulos à parte.

Ao ler os depoimentos dos mais assíduos colaboradores da carreira de Kubrick, a impressão que se tem é de vislumbrar o cineasta em ação nos sets de filmagem. E isso se deve, também, ao planejamento de Ciment, “no qual a imagem tem um papel essencial, com ilustrações tiradas dos próprios filmes e não, como quis Kubrick para suas últimas obras, de fotografias tiradas nos estúdios. Sendo assim, ela não evoca apenas um plano, um efeito de luz, um enquadramento, um gesto, mas torna-se um comentário crítico por meio de aproximações inesperadas, de rimas internas. E o próprio texto apoia-se nela ou a suscita”.

Os atores Malcolm McDowell, Jack Nicholson e Marisa Berenson — lembrados até hoje por seus personagens kubrickianos — fazem parte dos entrevistados, assim como o roteirista Michael Herr e outros nomes importantes que trabalharam com Kubrick, desde diretores de arte e publicidade, a figurinistas e assistentes. “Um dia, li as críticas feitas a 2001, e ele foi certamente subestimado, ao menos no momento de cada lançamento de um de seus filmes”, disse Nicholson. “Depois, mais tarde, sempre havia uma revisão dessas críticas. Sempre achei isso exasperador e interessante: aquele homem, com sua considerável reputação em relação ao domínio de seu meio de expressão, era, a cada novo filme, mal compreendido e mal interpretado. Sempre me perguntei por quê. Na verdade, uma única vez os comentários sobre seu filme antimilitarista, Glória Feita de Sangue, foram unanimemente positivos. Nunca entendi por que as pessoas ligadas ao cinema não se deram conta de que ele era o número um”.

Nicole Kidman e Tom Cruise em “De Olhos Bem Fechados” (1999)

Sim, ele era único, como disseram Nicholson e Scorsese. E como todo visionário, foi incompreendido por diversas vezes, massacrado pela mídia e rejeitado pela crítica. Recluso, de fato, mas não por neurose, e sim para se preservar do que ele tinha consciência que era o lado perigoso da fama. No belíssimo texto In memoriam que Ciment escreveu em 1999 após a morte do cineasta, cita o discurso que Kubrick fez ao receber o prêmio D. W. Griffith.

Ele comparou a carreira de Griffith ao mito de Ícaro, por lembrar que o autor de O Nascimento de uma Nação e de Intolerância, ao desejar voar alto demais, teve os últimos 17 anos de sua vida ignorados pela indústria. E Kubrick conclui: “Nunca tive certeza de que a moral da história de Ícaro devesse ser, como geralmente é aceito, ‘Não tente voar alto demais’, e me perguntei se não podíamos interpretá-la de outra forma: ‘Esqueça a cera e as penas, e construa asas mais sólidas’”. Graças ao livro de Michel Ciment, é possível constatar que Kubrick soube construir suas asas do jeito mais sólido possível, e se tornou, como Ícaro, um mito da sétima arte.

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Kubrick, de Michel Ciment. Tradução de Eloísa Araújo Ribeiro. Ubu Editora, 368 págs. R$ 69,90.

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