Na mente do Führer

Relatório secreto sobre a psique de Adolf Hitler ganha nova edição — fundamental para pensar no alarmante futuro da humanidade

Muitas comparações são feitas entre Hitler e políticos contemporâneos, principalmente quando o candidato tem propostas duvidosas ou assustadoras no que diz respeito à segurança dos Direitos Humanos. Levando o cotejo para a mídia, já foram inúmeras as vezes em que os presidentes Recep Tayyip Erdogan (Turquia), Vladimir Putin (Rússia), Donald Trump (Estados Unidos) e o presidenciável Jair Bolsonaro, aqui no Brasil, ganharam caricaturas comparando-os ao lendário comandante da Alemanha nazista. Ademais, se, por um lado, é imensurável a calamidade causada pelas atitudes do Führer no Holocausto, por outro, existe certa curiosidade a respeito da figura por trás do político alemão. Como acontece com muitos dos psicopatas que entram para a história por serem propulsores de grandes tragédias.

Apesar de tantos escritos tentarem moldar a persona do líder nazista, nenhuma obra foi tão aprofundada quanto A Mente de Adolf Hitler, relatório encomendado pela OSS (serviço de inteligência que antecedeu a CIA) ao psicanalista Walter C. Langer em 1943, e que se tornou uma completa biografia psicológica construída a partir de conversas com pessoas próximas ao político. Lançado em 1972, o livro apresenta desde fatos inéditos da juventude do perfilado — passando pelas decepções amorosas, manias e relações familiares, até suas táticas mais perversas durante a guerra. Ganha agora uma nova edição em português, pela LeYa, com prefácio de Eurípedes Alcântara, ex-diretor de redação da revista Veja.

Ao adentrar na psique de Hitler, o psicanalista relata fatos quase inacreditáveis, distribuídos em capítulos distintos para fácil entendimento, decorrentes das entrevistas que realizou no processo de sua pesquisa. Primeiro, o leitor fica sabendo como Hitler acreditava ser. Orgulhoso de sua dureza e brutalidade, ele nunca relutou em exibir sua onipotência, a supremacia de quem decidia cada passo da Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que não admitia ser contrariado.

“Apesar do fato de ele ter sido reprovado no exame de admissão para a Academia de Belas Artes, acredita ser o único juiz competente nessa área”, conta Langer. “Certa ocasião, ele nomeou uma comissão de três pessoas para atuar como juízes finais em questões de arte, mas, quando os vereditos não o agradaram, demitiu-os e assumiu os deveres deles. Faz pouca diferença se o campo de atuação é economia, educação, relações exteriores, propaganda, cinema, música ou vestuário feminino. Em todas as áreas, Hitler acredita ser uma autoridade inquestionável”.

A despeito dos rumores em torno da sua crença em astrologia, o autor da biografia deixa claro que, certamente, não passam de boatos. Embora seja certo que o político dizia escutar “uma voz interior” que guiava seus passos, como ele mesmo afirmou: “Cumpro as ordens que a Divina Providência me atribuiu (…) E se a voz falar, então saberei que chegou o momento de agir”. Com o passar do tempo, ficou claro que ele se achava o Messias, que ia conduzir a Alemanha à glória, e citava a Bíblia com frequência. Mesmo assim, vale salientar, ele se identificava não com a figura de Jesus Cristo crucificado — que ele considerava fraco, incompatível com um Messias germânico — , mas com uma personificação de Cristo furioso, lutador, açoitando a multidão.

Sobre-humano

No livro de Langer ficamos sabendo também como o povo alemão o conhecia. Com estatura abaixo da média, pernas curtas, finas e fracas, ele era descrito como “amorfo, quase sem roto, um homem cujo semblante é uma caricatura, um homem cuja estrutura parece cartilaginosa, sem ossos. Ele é insignificante e volúvel, inadequado e inseguro. É o próprio protótipo de homenzinho”.

Por outro lado, as histórias sobre seus olhos azul-claros hipnóticos são, no mínimo, interessantes. Dizem que um policial conhecido por sua antipatia ao nazismo foi enviado a um comício para manter a ordem. Chegando lá, Hitler encarou-o com o olhar fatal, hipnotizados e irresistível, que arrebatou imediatamente o oficial. Atento, ele confessou na manhã seguinte: “Desde ontem à noite, sou nacionalista socialista. Heil Hitler”.

Como orador, demonstrava grande influência sobre os alemães comuns, de tal maneira que, em suas aparições públicas (sempre lotadas de ouvintes), quando terminava de falar, entorpecia completamente as faculdades críticas de seus ouvintes, fazendo-os acreditar em tudo que dizia.

Outro ponto interessante é como a máquina de propaganda nazista fazia de tudo para retratar Hitler como sobre-humano (e os alemães compravam a ideia), que não consumia carne, nem bebidas alcoólicas ou cigarro. Alguém que, aparentemente, não tinha vida sexual e nutria “profundo desprezo pela fraqueza dos homens por sexo e pela forma como o sexo os converte em tolos”.

Em outro bloco do livro, Langer revela como os colaboradores conheciam seu Führer. Descobre-se que ele era um demônio no trabalho, que não dormia por sucessivos dias e com incomum poder de concentração (além de saber de cor cada tipo de armamento, blindagem e dados gerais de cada tripulante do navio da Marinha britânica), e, apesar de enlouquecer os funcionários com sua procrastinação, ele despertava também a unânime admiração do seu staff.

Com memória fora do normal, em contraste com uma desconcertante capacidade de esquecimento, ele aplicava na equipe diversos fatores relativos à psicologia em grupo. É intrigante, quase inacreditável, ficar sabendo que o mesmo líder que provocou a morte de mais de 6 milhões de pessoas durante o Holocausto, só comia quando todos ao seu redor já estavam servidos, se sensibilizava com questões pontuais e, ao perder a sobrinha, entrou em uma das tantas depressões que teve ao longo da vida.

Na vida e na morte

A Mente de Hitler fala sobre ângulos de sua vida fundamentais para tentar decifrar aquele que, provavelmente, é considerado o psicopata mais famoso que já existiu. Sobre seu relacionamento com os pais; o medo da morte, desejo da imortalidade e o complexo de Messias; a difusão do instinto sexual; os rumores de sua homossexualidade; a transformação do caráter, o antissemitismo, os ataques de fúria e a origem de sua perversão; entre outros detalhes perturbadores que tiram o fôlego ao penetrar no interior de alguém com um histórico tão obscuro.

Um dos motivos que levaram o relatório do Dr. Langer ao estrelato foi a parte em que, considerando as possibilidades do futuro de Hitler, previu o suicídio — em 1945, cercado pelos russos em seu bunker em Berlim, ele se matou com um tiro na cabeça. Sua mulher, Eva Braun, ingeriu uma cápsula de cianeto.

“É provável que ele tenha um medo exagerado da morte, mas, sendo um psicopata, poderia, sem dúvida, preparar o personagem do super-homem para o pior e realizar a ação. É quase certo, porém, que não seria um suicídio simples. Hitler é teatral demais para isso, e como a imortalidade é uma de suas intenções dominantes, podemos imaginar que ele encenaria a morte mais dramática e eficaz que fosse capaz de pensar. Hitler sabe como vincular as pessoas a ele, e, se não puder ter o vínculo em vida, com certeza fará o máximo para alcançar isso na morte. Ele pode até empregar algum outro fanático para realizar o assassinato às suas ordens”.

Deixando de lado a Lei de Godwin — axioma proposto em 1990 pelo escritor e advogado Mike Godwin, que afirma cometer suicídio retórico quem comparar qualquer outro líder político com Hitler, pois nenhum mal se compara ao Holocausto ou aos seus autores — citada no prefácio do livro por Eurípedes Alcântara, ao concluir a leitura do livro de Langer, é impossível não refletir sobre os dias atuais. Sobre os riscos que o Brasil corre neste ano eleitoral.

Sobre a violência cada vez mais dominante, que mata defensores humanitários, mas também atinge com uma facada um candidato conhecido por incitar a violência e intolerância. A nível mundial, basta analisar com clareza a gestão dos governantes citados no começo deste texto, entre outros tantos presidentes que, vulgarmente falando, tocam o terror em seus respectivos países. Ao ler A Mente de Hitler, não só tem-se uma vasta compreensão do século 20, como uma espécie de botão de discernimento é acionada na nossa cabeça.

No final do seu relatório, Walter C. Langer selou sobre Hitler em 1972: “O caminho que ele seguirá será aquele que parece ser o mais seguro para a imortalidade, e que, ao mesmo tempo, acarrete a maior vingança contra um mundo que ele despreza”. Corta para 2018: negros, indígenas, LGBTs, mulheres e outros grupos historicamente oprimidos, nunca lutaram tanto para viver com dignidade. Aliás, para sobreviver. Em contrapartida, nunca regredimos tanto. No Brasil e no exterior o conservadorismo tem crescido e candidatos que são um legítimo atentado aos Direitos Humanos, saem vitoriosos.

Contraditoriamente, o argumento dos eleitores é de que “eles vão acabar com a violência” — fazendo uso de mais violência e radicalismo, diga-se de passagem. Em nome da glória e da salvação, psicopatas são eleitos, desde a época do Reich alemão. Sua vingança contra o mundo, arrisco dizer, foi a certeza de que tantos outros ditadores dominariam as grandes potências mundiais. Olhando por esse ângulo, pode-se afirmar que o Führer alcançou a sua tão cobiçada imortalidade.

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A Mente de Adolf Hitler, de Walter C. Langer. LeYa, 272 págs., R$ 44,90.