Nas brechas do mercado

Conversamos com o coordenador do Selo Sesc, Wagner Palazzi, para entender como funciona esse oásis da música de qualidade

Matthew Shipp ao vivo no Sesc Pompeia

Apenas nas últimas semanas, o Selo Sesc lançou em disco quatro joias. Um registro ao vivo do pianista norte-americano Matthew Shipp, gravado no Sesc Pompeia em 2016; o novo trabalho do monstro do trombone Raul de Souza; e duas homenagens a compositores que fariam 100 anos agora em 2018: um álbum de Anaí Rosa cantando composições de Geraldo Pereira, com produção esmerada de Gilberto Monte e Cacá Machado, e um tributo ao gênio do choro Jacob do Bandolim, produzido por Henrique Cazes e Carlos Sion.

Junte-se a isso o Grammy Latino na categoria Jazz Latino que o bruxo Hermeto Pascoal levou no fim de novembro por Natureza Universal, e o fato de ter concorrido da categoria de melhor álbum instrumental com No Mundo dos Sons, este lançado pelo Sesc, e se tem um mês bastante especial para esse selo que preenche uma lacuna importante por conseguir olhar para a produção cultural sem a obrigação de ter retorno financeiro sobre sua produção.

Como explica o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, “a função do selo, fundamentalmente, é fazer aquilo que o mercado fonográfico não tem interesse de fazer — por razões de caráter comercial ou de oportunidade de negócio — , que tem sua importância, seja do ponto de vista do registro de antigos criadores que nem sempre foram registrados adequadamente; de criadores atuais registrados por nós; ou com relação à lembrança de alguns nomes importantes que tiveram papel relevante e que hoje têm menos expressão no mercado”.

Justamente por trabalhar nos pontos cegos do mercado, o Selo Sesc se firma como o principal veículo para a produção e divulgação da música instrumental autoral — basta lembrar os discos mais recentes de Hermeto, de Airto Moreira e de Itiberê Zwarg — , e da música erudita, representada neste ano tanto pelos DVDs da série O Som da Orquestra quanto pelo excepcional álbum em que o Trio Puelli grava as composições de Radamés Gnatalli para piano, violino e violoncelo. Isso sem contar os discos feitos a partir de registros ao vivo nas unidades do Sesc, como é o caso da série Jazz na Fábrica, que lança gravações feitas durante o festival de jazz que ocorre tradicionalmente em agosto no Sesc Pompeia e que neste ano foi ampliado para outras unidades no Estado de São Paulo.

Segundo Miranda, os principais critérios para os projetos virarem disco são a qualidade, a excelência do trabalho, a pesquisa, proposições de uma nova forma de fazer música. “Trata-se sobretudo dessa linha de registro de composições e trabalhos que precisam ser registrados. Com isso o Sesc cumpre seu papel de difusor, de instituição que valoriza a produção cultural e busca atingir um número cada vez maior de pessoas”, diz.

À frente do Selo Sesc, Wagner Palazzi conversou com a Bravo! por telefone, para falar dos novos lançamentos, da filosofia do selo, do universo fonográfico nacional e do que vem pela frente. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Como frequentador do festival Jazz na Fábrica [que a partir deste ano passou a se chamar Sesc Jazz] e alguém que estava na plateia no show do Matthew Shipp, gostaria de começar essa conversa pelo lançamento desse disco. Como funcionam esses registros da série Ao Vivo na Fábrica?

O álbum do Matthew Shipp é o quinto que lançamos dessa série. Antes saíram o de Anthony Braxton e de Roscoe Mitchell, dos shows de 2014 e 2013, e, dos registros de 2015, os do William Parker e do Grupo Um. É um aprendizado gravar esses shows ao vivo, mas quanto mais conseguimos registrar, mais legal é. Contratamos um estúdio móvel para gravar, uma pessoa para a captar e outra para mixar. É diferente de um lançamento comercial, em que você grava duas ou três datas e escolhe as melhores faixas. Nós temos um tiro só e selecionamos os melhores registros. A partir daí procuramos o artista para aprovar o lançamento. Muitos dos discos estão mais ligados ao free jazz justamente porque é mais fácil de tratar as questões de direitos diretamente com os artistas. O Sesc já realizou o festival, nossa missão é democratizar o acesso, então lançar esses registros em disco é uma forma de atingir mais pessoas. Quanto mais gente tiver acesso, melhor. Os próximos que devem sair são os shows de Melissa Aldana Quartet e de James Blood Ulmer — Memphis Blood Blues Band.

Muitos dos lançamentos do Selo Sesc estão nas plataformas digitais, como Spotify e Deezer, mas ainda há muitos discos que são lançados ainda apenas em CD. Por quê?

É uma questão de direitos autorais. Principalmente nas gravações ao vivo, conseguimos os direitos para CD, mas não todos os direitos digitais e ir atrás deles tornaria o lançamento inviável. Mas nas nossas produções, como por exemplo as da série Sessões Selo Sesc, que lançou Metá Metá, Orquestra Mundana Refugi, Siba e Fuloresta e vai lançar o Rashid, é tranquilo negociar. Para a banda é uma coisa legal. Os royalties são da plataforma, o custo é baixo. E a banda tem um disco de graça. Entramos nas plataformas de streaming no ano passado. Não conseguimos colocar todas as coisas porque muitos contratos são antigos. Mas estamos arrumando a casa e pretendemos liberar mais álbuns para as plataformas.

Quais são as diretrizes artísticas do selo?

A gente recebe muitas propostas, mas tem quatro linhas de trabalho definidas. Música popular, música erudita, música instrumental e música para criança. Uma das funções é assumir o que o mercado não faz. Hoje, por exemplo, o mercado faz quase zero de música erudita. Na música popular, o foco é em projetos, como o Rei Vadio — As Canções de Nelson Cavaquinho, do Romulo Fróes, em tentar jogar luz em músicas que são fundadoras ou responsáveis pela linha evolutiva da música brasileira. Outra é encomendar fonogramas, como foi o caso dos discos do Hermeto Pascoal, do Airto Moreira, do MPB4.

Como é a escolha dos registros ao vivo?

São mais de 5 mil shows por ano, se conseguirmos registrar 10, está ótimo. É uma forma de seguir a vocação inicial do selo. Mesmo antes do selo, começamos a gravar alguns espetáculos, fizemos muitas gravações no Sesc Vila Mariana.

Como são as tiragens dos discos?

No máximo fazemos 5 mil, a média é de 2 mil. Se tiver boa saída, reimprimimos.

E veremos os lançamentos do Selo Sesc em vinil?

Não. Para a gente não é um negócio. Nosso principal ponto de venda são as lojas do Sesc. São 38 no Estado de São Paulo. Mas concorremos com outros produtos na loja, como os livros, por exemplo. E o Sesc produz muito. Para vender LPs, teríamos de mudar todo o mobiliário das lojas. Mas alguns discos, como o do Hermeto, saíram em vinil. Em casos como esse, o artista licencia, faz o LP e distribui como quiser. Por que temos uma relação de parceria com os artistas, mas é mais fácil eles venderem os LPs nos shows.

E o que vem pela frente?

Muita coisa. Além dos dois da série Jazz na Fábrica, que agora passa a chamar Sesc Jazz Ao Vivo, teremos uma caixa do Premê, Anna Maria Kieffer com São Paulo: Paisagens Sonoras, uma pesquisa dos sons da cidade na virada do 1900, o relançamento do disco Paulo Bellinati tocando Garoto, Duo + Dois, que é a união do Duofel com o Robertinho Silva e o Carlos Malta, um encontro da Alzira Espíndola, Tetê Espíndola e Ney Matogrosso, um infantil do Pau Brasil, o novo do Grupo Rumo, a reedição das pesquisas folclóricas. Temos muito trabalho pela frente.