Ninguém segura Fernanda Young

“Pós-F”, seu novo livro, é ousado, afrontoso e vai dar muito que falar

Fernanda Young (Foto: Bob Wolfenson)

Poucas formadoras de opinião conseguem, genuinamente, esfregar sua liberdade na cara dos outros, e ao mesmo tempo, fazer críticas tão afiadas ao feminismo, como faz Fernanda Young. Ainda assim, ela afirma na primeira frase do seu novo livro: “Não sou especialista em nada. Melhor, não sou especialista de coisa pronta. Procuro me aprimorar em mim, entendendo sobre mim”.

Entenda: quando me refiro às críticas da escritora, não quero deixar subentendido aqui que ela pretende polemizar. Longe disso! Autêntica como poucas, Fernanda quer apenas continuar sendo ela mesma, doa a quem doer. Por outro lado, é inegável que ela consegue, através de seus pensamentos e temperamento forte, levar seus seguidores e leitores a um estado desconfortável de provocação. O que acontece é mais ou menos o seguinte: você defende com unhas e dentes uma causa, mas é fã inveterado dela, que resolve esboçar sua opinião e acaba confrontando totalmente o que você acredita com tanta convicção. A sensação é no mínimo incômoda.

Pós-F não é um livro fácil. Nem delicado. Aliás, a sutileza passou longe. Fernanda nunca esteve tão corajosa… e tão livre! Com ela não tem meios termos, nem nada escrito com medo de pisar em terreno perigoso. Com uma estrutura aleatória, a autora questiona tudo o que a sociedade diz saber sobre feminino e masculino. Por exemplo, ela explana seu desagrado com o feminismo como é visto hoje em dia. Toca em pontos que provavelmente vão gerar alvoroço em todo o movimento e outros grupos de minorias (palavra que também entra em questão), e em tudo que eles defendem com unhas e dentes, sem o menor receio de ser atacada.

Simultaneamente, ela deixa claro que não admite machismo ou outros tipos de preconceitos contra a liberdade de cada um. Mas defende o discernimento dentro de cada situação. Como quando questiona a diferença entre assédio e jogo de sedução. Quando a coisa parte para o lado da agressão (verbal, emocional, sexual), a autora não pensa duas vezes antes de “mandar se foder”, em suas próprias palavras.

Típico de Fernanda Young. Típico de alguém que está acostumada (conformada jamais) com os ataques. Em 2015, ao ser abusada em seu perfil de Instagram com palavras como “vadia lésbica” por um usuário falso, ela entrou com um processo que só foi resolvido mais de dois anos depois: o juiz responsável condenou o acusado a pagar apenas R$ 5 mil, e deixou claro que o valor tão baixo por um crime grave foi pelo “fato da autora ter artisticamente posado nua, de modo que sua reputação é mais elástica, inclusive porque se sujeitou a publicar fotografia fazendo sinal obsceno, publicou fotografia exibindo os seios e não se limitou a defender-se, afirmando que terceiros seriam ‘burros’”.

Com certeza, muitas pessoas que lerem Pós-F vão se sentir incomodadas com o jeito tão original da escritora. Sugiro que, cada vez que o incômodo vier à tona, lembrem-se do revoltante veredicto dado pelo juiz no caso citado acima.

Outro ponto relevante é o projeto gráfico do livro: além dos textos autobiográficos, capítulos curtos em letras garrafais citam temas aleatórios, como trechos do lendário seriado Os Normais (obra de Fernanda com o marido, Alexandre Machado), ou outras de suas pensatas. Cartas divertidas e delicadas arrancam lágrimas e risadas do leitor, bem como arrancariam de seus destinatários, se pudessem falar. Cartas à bunda, aos vendedores de ilusão, à lata de leite, à mulherzinha, ao “clitóris, querido companheiro”. Quanto às ilustrações, do começo ao fim, mostram desenhos feitos pela autora. Cenas de nudez, de partes do corpo sem depilar, (muitas) genitálias, com frases como “não sou tão forte, mas não ouse me atacar”.

Desbocada, bem-humorada, mais livre do que nunca, Fernanda continua me passando a impressão que tive desde que comecei a acompanhar sua obra: a de estar lendo uma Virginia Woolf contemporânea, que apenas fala o que pensa e nem sempre é compreendida. Que não quer polemizar, não quer brigar, apesar do jeito durão e nada delicado. No fim do livro (com o perdão do spoiler), ela diz que deseja, para um mundo Pós-F, que tenhamos a liberdade de mostrar o seio, como temos de mostrar a bunda. Que não mais precisemos usar a palavra feminismo. E que ela seja menos crítica — consigo mesma e com os outros.

Do lado de cá, o que consigo desejar é que, nesse tal futuro incerto, haja mais escritoras com a coragem de criticar como a autora faz. Que sua liberdade não seja pauta de debates. E que toda nudez (de corpo e de alma) seja celebrada. Quem sabe assim o mundo mereça um livro como o Pós-F de Fernanda Young.

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Pós-F, de Fernanda Young. LeYa, 128 págs., R$ 34,90.