No fim do arco-íris não existe ouro

Em seu primeiro álbum solo, mineiro FBC resgata a complexidade gangsta, apontando caminhos para o rap pós-Bolsonaro

Lançado cinco anos após sua estreia em EP — com C.A.O.S. — o primeiro álbum do mineiro FBC, S.C.A. (sigla para Sexo, Cocaína e Assassinatos), é um belo exemplar do que tem sido feito no rap nacional em 2018 — mas, sobretudo, aponta para o que vem. FBC, ou Fabrício Soares, é velho conhecido no Duelo de MCs, tradicional batalha do Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte. Além disso, foi um dos integrantes da DV Tribo, grupo que incluía também Hot, Oreia, Clara Lima e o mais prolífico do sexteto até agora, Djonga, com beats de Coyote.

Nem é preciso dizer que muito mudou de 2013 para cá, mas, além do contexto de extrema-direita já previsto no disco (que cita Bolsonaro em Contradições), outra transição, de cara, está na faixa que abre o disco: em Frank & Tikão, FBC mostra a sua guinada do boom bap de C.A.O.S. para o trap, com rimas mais contundentes sobre o dinheiro e ostentação (“Eu tenho um plano eu vou ficar rico"). Sobram farpas – como na ironia de Rap Acústico, em que uma roda de rap ao violão é interrompida com estalos de tiro e o grito "Põe um beat de trap, porra!". Logo em seguida vem a porrada 17 Anos e um 38, que somada a Contradições, Sexo, Cocaína & Assassinatos e Poder, Pt. 2 compõem, talvez, o caldo mais substancioso do disco.

Substancioso porque, além do papo reto, com flow que segue o beat (com produções de Coyote, DJ Spider, Oculto e Nill) mais puxado para os downs do que os ups, há variações de entonação — que por vezes fica mais próxima do funk, por vezes do próprio trap nacional autotunado. Mas algumas referências talvez sejam interessantes para pensar a construção da narrativa de S.C.A., a começar por Sabotage e pelos Racionais MC's.

No último disco do quarteto de Mano Brown — talvez ainda não totalmente digerido pelo público e crítica— uma quebra abrupta separa a trajetória dos traps de Cores & Valores a A Escolha que eu Fiz (faixas 1 a 9 do disco) de A Praça em diante, parte mais reflexiva e histórica do álbum. Em S.C.A., acontece algo similar: de Frank & Tikão a Ela É Green, se nota um comportamento mais intempestivo e raivoso, temperado, claro, com a ostentação. Isso é simbolizado sobretudo pela 17 Anos e um 38 inspirada na rima de IDK, 17 Wit a 38. A partir da participação de Djonga em Itinerário de I.O, que fala sobre a amizade e os corres da dupla, a história se complexifica. São paradoxos como: "As ruas odeiam X9’s / E adoram Wagner Montes / E adoram Mauro Tramonte / Isso é um paradoxo, mano (Isso é Belo Horizonte!)", de Sexo, Cocaína & Assassinatos ou "Tentei fazer dinheiro pra virar dinheiro / Pra que meus filhos nunca saibam o que é a falta de dinheiro / Pra virar dinheiro, amigo é dinheiro, poder é dinheiro / Foda-se seu corre, eles querem ver dinheiro" (Contradições).

Como entender a quebrada que odeia os X9s (delatores) mas abraça os Datenas e o jornalismo sensacionalista e que muitas vezes incentiva um punitivismo irracional de pessoas da própria comunidade? Como entender a moral do "corre" (que pode ser, entre outras coisas, o tráfico) que é feito para se livrar do "corre"? E, principalmente, em que difere a vida de um traficante da de políticos envolvidos em crimes, luxúria e transporte de cocaína (como o caso do também mineiro Gustavo Perrella, deputado federal cujo helicóptero foi flagrado transportando quase 500 kg da droga)?

Nesse ponto é que o disco de FBC resgata algo dos mestres como RZO, Sabotage e Racionais MCs — ainda que em linguagem de 2018. Na tese de doutorado de João Batista de Jesus Félix, recentemente lançada em livro (Hip-hop: cultura e política no contexto paulistano, da editora Appris), ele — figura clássica do movimento dos bailes black em São Paulo — lembra que foi só quando o rap aderiu às temáticas da desigualdade, da violência, das drogas e do abandono das áreas periféricas que passou a ser mais ouvido pelo público dos bailes. Antes, quando a temática se restringia ao racismo, à discriminação racial e ao preconceito, não conseguia conquistar aquele que era o alvo mais antenado da música nas periferias da cidade.

Que fique claro que não digo que o racismo não deva ser tematizado e enfatizado (caso, por exemplo, do trabalho recente de Baco Exu do Blues). Está também em S.C.A., como na estrofe:

Um dia numa festa de branco
Daquelas que sempre acaba em briga
Uma estudante bem equivocada fez uma piada e me chamou de “nigga”
No mínimo pensei: “mas que racista…”
Só depois tive certeza
Quando a mina branca perguntou meu nome, de qual morro eu era e se eu tinha seda
Quis zoar a patricinha, se eu fosse mais barbudo e empoderado…
Mas naquela mesa tão gentrificada meu lugar de fala era ficar calado
E nessa um brother de dread e violão
Chegou tocando um Legião
Faroeste Caboclo, mais de sete minutos, mano, hoje eu só queria ter
17 anos e um 38, 17 anos e um 38

Mas, ao trazer a problemática gangsta ao primeiro plano, com todas as suas contradições, sua ética, suas reflexões sobre o risco, os prêmios e os ônus de todo corre (não só o do tráfico), FBC traz para a cena do rap pós-sulicida os paradoxos com que se espremem as melhores rimas de Don L e BK', para citar alguns exemplos contemporâneos. Com o dedo na cara de seus colegas Djonga e da DV Tribo. Mais que isso, ainda seguindo os ensinamentos recentes de Mano Brown, tenta se conectar de novo com o povo, com a problemática da vida nos morros, nas ocupações, nas quebradas. Mas faz isso de forma adulta, abraçando a complexidade que está presente no seu próprio corre — ele que diz já ter se envolvido com o tráfico e saber o que é “vender droga no duelo de MCs pra pagar estúdio” — até extrair daí a sua moral: no fim do arco-íris não existe ouro.