Novos-velhos baianos

Sons vindos de Salvador em 2017— Giovani Cidreira, Pirombeira, Livia Nery, Dr. Drumah — mostram que um BaianaSystem não vem sozinho

Giovani Cidreira. Foto: Patrícia Martins

Quem passou a primeira década de 2000 em Salvador lembra de uma boa cena musical local que demorou a cruzar fronteira — quando cruzou — rumo ao eixo sudeste. Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, Velotroz, Scambo, Retrofoguetes, Canto dos Malditos na Terra do Nunca, Maglore (antes parte da banda era a Mulher Barbada), Cascadura.

Boa parte dessas bandas já não existe, ou se reúne apenas esporadicamente, mas seus trabalhos prosseguem de um modo ou de outro: Giovani Cidreira, por exemplo, é velho conhecido da noite baiana. Já se apresentava em bares desde 2006, foi vocalista da antiga Velotroz, e só em 2015 se arriscou a lançar as suas primeiras músicas solo (no EP Giovani Cidreira). Agora, em parceria com Natura Musical, Balaclava Records e apoio do governo do Estado da Bahia, lança o primeiro álbum.

Japanese Food — nome nonsense que, segundo o músico, intencionalmente destoa das letras — começa e termina com referências a Carlos Drummond de Andrade. O título da música que abre o disco, Movimento da Espada, é também nome de um poema d’A Rosa do Povo, assim como o primeiro verso de Crimes da Terra, “Preso à minha classe e à minha mulher”, nos remete diretamente ao célebre A Flor e a Náusea. A referência já deixa claro que o disco não vem para brincar: as letras têm muito de poesia, com várias interpretações abertas e figuras para falar sobre o amor, o corte, a traição, a nostalgia, o medo, o futuro, o incerto.

Vai Chover, segunda música do disco escrita em parceria com Paulo Diniz, é talvez um resumo da proposta: escolhida como primeiro single, já tem um clipe (assista abaixo) que reforça a estética escolhida para o disco: imagens retrô, cenas do cotidiano cortadas por vídeos bizarros, além dos versos corajosos: “Grave na sua carne a novidade / que você quer ser e nem sabe, talvez / no mundo inteiro tem alguém que nem você”.

Se é novidade ou não, Japanese Food traz alguns contrapontos interessantes ao que é esperado da música baiana recente. Não é pra ir até o chão como no Bahia Bass ou no pagodão; tem imagens menos literais — como o negro que corre em Um Capoeira: “está tudo bem pra quem não sente o pé até queimar” — , usa bastante violão. No canto de Giovani é possível até perceber um cuidado com a fala: é nitidamente um disco cantado por um baiano, mas nem todas as palavras são enfatizadas como no sotaque — no refrão de Vai Chover, por exemplo. É um toque de bons mestres como Gilberto Gil.

O clima setentista também é uma das marcas do disco. Está em Pássaro de Prata (cantada em parceria com a também baiana Josyara), em Cantoria e também em Última Vida Submarina, talvez a mais “Clube da Esquina” da série.

Uma das coisas que este disco de Giovani vem dizer, além de tudo, é que um BaianaSystem não vem sozinho. Se 2016 foi o ano (merecido) do trio Passapusso-Roberto Barreto-Seco Bass, vale a pena neste ano nos aprofundarmos mais nos sons vindos de Salvador. Por exemplo: Junix, um dos colaboradores de Duas Cidades (o segundo disco do Baiana, do ano passado), é um dos produtores de Japanese Food, e também aparece em parcerias em dois sons interessantes saídos da capital baiana neste ano: Cadê o Bongô?, faixa que está no recém-lançado disco da banda Pirombeira, e o single Vulcanidades, de Livia Nery.

A Pirombeira vem das rodas de São Lázaro (do bar de Zilda, um dos mais clássicos dos arredores das faculdades da Universidade Federal da Bahia) e também busca outras referências: vai ao baião e ao ijexá com a mistura de flauta, sanfona e percussão à base de guitarra, teclado, bateria e violão.

A influência do jazz no grupo também faz lembrar de uma outra cena importante na cidade: a Jam no MAM (Museu de Arte Moderna), que ocorre no pôr do sol aos sábados já há muitos anos e tem sofrido recentemente com falta de verbas e dificuldade para captação de recursos.

Já Livia Nery lançou neste ano o single Vulcanidades com produção de Rafa Dias, o autor do projeto mais interessante vindo de Salvador atualmente, o ÀTTØØXXÁ, mistura de pagodão e trap — ritmos afro em percussão ou em máquinas. Vulcanidades lembra o período mais dub de Céu e também tem participação de Junix. Rafa Dias também tem feito parcerias com Márcia Castro, que deve lançar o seu 4º disco neste semestre.

Ainda pela área do dub, Jorge Dubman, baterista da Ifá Afrobeat (outra banda que tem lotado os shows em Salvador e lançou no fim do ano passado o Ijexá Funk Afrobeat), divulga neste ano o seu projeto solo, uma colagem de samples de jazzhop e beats do rap americano dos anos 1990 com participação do DJ Beatchukaz. Isso sem falar em Jadsa Castro, Josyara, Irmão Carlos, OQuadro, Mauro Telefunksoul, B_T_PGDÃO, Os Nelsons, Dubstereo. O BaianaSystem, como uma das melhores bandas do Brasil atualmente, não vem sozinho. Como se diz lá: é barril dobrado.

Serviço
Giovani Cidreira e Negro Leo
Sábado (15) no Breve (Rua Clélia, 470), 21h. R$ 20 a R$ 25
https://www.facebook.com/events/322637628179410/

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