Nublu Jazz Festival chega à sétima edição em São Paulo com programação impecável

Saul Williams, a banda Cymande, The Cookers e Kamasi Washington. Fotos: Divulgação

No primeiro dia, os britânicos do afro-jazz-calipso-funk-soul Cymande, pela primeira vez no Brasil, e o Sambas do Absurdo, disco que está saindo do forno de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis com letras de Nuno Ramos. Depois, os veteranos do The Cookers, banda que reúne figuras lendárias como Cecil McBee, Eddie Henderson e Billy Hart, e Plim, projeto do baterista Sergio Machado — também do Metá Metá e Clube da Encruza — que explora as relações entre música e cinema. No sábado, o mais celebrado jazzista atual, Kamasi Washington, seguido pelo mais celebrado poeta de slams, Saul Williams. Essa é a enxuta e certeira programação do Nublu Jazz Festival, que começa nesta quinta-feira (6) no Sesc Pompeia, em São Paulo.

“O Nublu é antes de tudo um festival de boa música”, dizem os diretores artísticos Talita Miranda e Ilhan Ersahin em entrevista conjunta por e-mail. “É um festival pequeno, são 6 bandas, 3 dias. Tentamos ser maleáveis quanto às escolhas, buscando sempre juntar uma variedade sonora garimpada em qualidade musical, em diferentes gêneros, juntando-se a um ineditismo em palcos locais”. Em seu sétimo ano, o evento que já faz parte do calendário de bons festivais do país é resultado do trabalho de anos do clube Nublu, criado em 2002 por Ilhan Ersahin, e do selo de mesmo nome surgido em 2005. Bandas como Forró In The Dark, o trio Kudu, o projeto 3 Na Massa, além de trabalhos do próprio Ilhan como o Praia Futuro, com Dengue (da Nação Zumbi), Catatau (do Cidadão Instigado) e o produtor Kalil, fazem parte do catálogo de lançamentos.

Para o baterista e produtor Sergio Machado, que tocará pela primeira vez no festival, o Nublu é o festival que melhor representa, no Brasil, uma tendência internacional de eventos de jazz: não tocar jazz. Ou pelo menos não no sentido tradicional. “Os curadores desses festivais entendem que o termo jazz pode estar ligado com desenvolvimento e criação de um conceito ou o desenvolvimento de novos estilos. Acompanham para onde a música está expandindo e os próprios artistas são influenciados por essas tendências que não são modistas, mas sim artísticas. Nomes como Karriem Riggins, Chris Dave e Jo Jo Mayer tocaram nas edições anteriores do Nublu e são os principais inovadores em seus instrumentos nos últimos anos”, diz o músico.

A reunião de Saul Williams, Kamasi Washington e Cymande é particularmente especial nesta edição do festival. A Cymande, apesar de inglesa, é uma das bandas que influenciou toda a geração dos anos 1990 do hip hop americano. Fugees, Wu Tang Clan, The Coup, Grandmaster Flash e De La Soul são alguns dos artistas que usaram samples dos seus álbuns clássicos, Cymande (de 1972), Second Time Round (de 1973) e Promised Heights (de 1974). Kamasi, além de ter lançado a sua elogiada estreia solo The Epic, disco que figurou em quase todas as listas de melhores álbums de 2015, toca com um dos principais nomes do rap, Kendrick Lamar. Seu disco foi lançado pelo selo do produtor Flying Lotus. Já Williams é o principal responsável pela disseminação da cultura dos slams, hoje tão populares nas periferias de São Paulo. Williams protagonizou Slam, filme dirigido por Marc Levin vencedor do Grande Prêmio do Júri no Sundance Festival e da Caméra d’Or do Festival de Cannes, em 1998. Desde então, colaborou com os principais artistas do hip hop e lançou diversos discos-protesto como Not in Our Name e o mais recente MartyrLoserKing.

A escola antiga do jazz é representada no festival pelo The Cookers, cujo baterista, Billy Hart “é um colosso na história do jazz”, como lembra Sergio. Ele gravou discos com Miles Davis, Herbie Hancock, Pharoa Sanders, Wes Montgomery, McCoy Tyner, Jimmy Smith, Clark Terry e Oscar Piterson. O trompetista David Weiss conta que já veio ao Brasil para participar de um show em tributo a Lee Morgan, com Billy Harper e Bennie Maupin, em 2015. Já Hart veio participar de um show com Stan Getz na década de 1970.

Os produtores Ilhan Ersahin e Talita Miranda. Crédito: Alexandre Gonçalves

Boa parte da programação do Nublu deste ano é composta por artistas negros, acompanhando a tendência do jazz contemporâneo a estar mais próximo da cultura hip hop. Os curadores dizem que é natural que muitos artistas pretos estejam no programa, “já que tudo de mais importante que aconteceu na música, desde o início do século passado até agora, é de autoria de artistas ligados diretamente, ou ao menos muito influenciados, pela diáspora africana”. “Além disso, o rap é o novo rock. Assim, ecos do que há de mais significativo no gênero inevitavelmente vão se fazer ouvir no trabalho de músicos das mais variadas vertentes. Pra citar um exemplo, me parece evidente que a contribuição significativa do Kamasi Washington em To Pimp A Butterfly do Kendrick Lamar não é por acaso”.

Os ingressos para o festival se esgotaram no mesmo dia em que foram postos à venda, tanto na internet como presencialmente. Mas, se tiver chance, vale a pena ir para o Sesc Pompeia e rezar para que alguém desista nos próximos dias. Ou, se estiver em São José dos Campos, a mesma programação ocorre por lá.

Nublu Jazz Festival — Sesc Pompeia

6 de Abril (quinta), às 21h30
Shows: Cymande (GBR) e Sambas do Absurdo (BRA)
DJ: Dvbz [a partir das 20h30]

7 Abril (sexta), às 21h30
Shows: The Cookers (EUA) e Plim (BRA)
DJ: PG [a partir das 20h30]

8 Abril (sábado), às 21h30
Shows: Kamasi Washington (EUA) e Saul Williams (EUA)
DJ: Tamenpi [a partir das 20h30]

9 Abril (domingo), às 19h
Show extra: Kamasi Washington (EUA)
DJ: Tamenpi [a partir das 18h]

Programação Sesc São José dos Campos

6 de Abril (quinta), às 20h30
Shows: Kamasi Washington (EUA) e Saul Williams (EUA)
DJ: Tamenpi [a partir das 20h]

7 Abril (sexta), às 20h30
Shows: Cymande (GBR) e Sambas do Absurdo (BRA)
DJ: Dvbz [a partir das 20h]

8 Abril (sábado), às 20h30
Shows: The Cookers (EUA) e Plim (BRA)
DJ: PG [a partir das 20h]

Ingressos: R$ 15,00 (credencial plena/trabalhador no comércio e serviços matriculado no Sesc e dependentes), R$ 25,00 (credenciado*/usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino) e R$ 50,00 (inteira).

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