O êxtase minimalista de Terry Riley

Pela primeira vez no Brasil, o compositor apresenta suas estruturas cíclicas no Sesc Pompeia

Terry Riley com o Kronos Quartet em 1983 (Foto: James M. Brown)

Quem gosta do minimalismo e mora em São Paulo têm ao menos duas boas razões para sorrir em setembro. Até o fim do mês, os compositores Philip Glass e Terry Riley, nomes do primeiro escalão minimalista, fazem concertos a preços populares e de graça na capital paulista.

Glass se apresenta em concerto pago na Sala São Paulo e em um gratuito no Parque Ibirapuera nos dias 16 e 17, respectivamente. Ele também passa pelo Rio de Janeiro, onde se apresenta na Cidade das Artes, no dia 14. Antes disso, nesta sexta-feira (8), Riley sobe ao palco do teatro do Sesc Pompeia para apresentação única com seu filho, o violonista Gyan Riley. “Esperei 82 anos para esta viagem”, diz Terry, que vem ao Brasil pela primeira vez.

Autor de peças seminais do minimalismo, como In C e A Rainbow in Curved Air, Terry Riley é conhecido por suas estruturas cíclicas de composição, que deixam abertos espaços para a improvisação ao mesmo tempo que exigem repetição quase meditativa. Por trás dos dois elementos está a sua heterodoxa formação, que possui ao menos três facetas.

“In C” (1964), em concerto promovido pelo Boiler Room em 2015

Vanguarda, jazz e raga

Riley recebeu ensino formal de música em conservatório e universidade californianos, tendo sido aluno de Seymour Shifrin em Berkeley no início dos anos 60. Para bancar os estudos, tocou piano e saxofone em bares de jazz — e no mesmo período colaborou com Chet Baker, cujo trompete recebeu a manipulação sonora de seus tape loops.

Ainda nos anos 60, tomou parte em happenings, peças de rua e acompanhou, ao lado de La Monte Young, a bailarina Ann Halprin. Em 1970, fez a primeira de muitas viagens à Índia, onde teve aulas com o professor de música clássica norte-indiana—que utiliza o modo melódico conhecido como Raga — e cantor Pandit Pran Nath, que se tornaria seu mestre.

Esta combinação de música de vanguarda, jazz e modos indianos rendeu a Terry Riley admiradores distantes da música de concerto, como o guitarrista Pete Townshend. “Baba O’Riley”, defendida pelo The Who em 1971, tem introdução inspirada em sua música, além de citá-lo no título ao lado do guru indiano Meher Baba. No mesmo ano, Riley grava o disco Church of Antrax com o baixista John Cale, que há pouco deixara o Velvet Underground.

Gyan e Terry Riley (Foto: Divulgação)

Repetição e improvisação

“Para Riley, a repetição em si não tem outro propósito além de ser um meio musical de despertar vibrações emocionais no ouvinte”, escreve Wim Mertens sobre um dos principais elementos da música de Terry Riley. No livro American Minimal Music, o compositor e musicólogo belga observa que “um pequeno motivo ou célula de som é repetido até que o intérprete decida que este deve mudar ou ser substituído”, o que retira a previsibilidade da interpretação. Falando sobre In C, Terry Riley explica que “o elemento mais importante é [o intérprete] ouvir e estar consciente de seu papel no som musical maior que está sendo criado”.

Para Mertens, é típico da repetição progressiva adotada por Riley que “gradualmente surja um dualismo entre a micro-estrutura dos sons e a macro-estrutura da composição”. No entanto, há uma ligação entre as variações sutis realizadas individualmente e a textura musical do conjunto — que permanece em grande parte estática. Esta seria a explicação, segundo Mertens, para a sugestão de imobilidade contida nas composições de Riley, ainda que elas tenham andamento acelerado.

“A Rainbow in Curved Air” (1969)

A Bravo! conversou por e-mail com o compositor Terry Riley, que falou sobre características de sua música, como a improvisação, comentou a experiência transformadora com o LSD e arriscou uma hipótese para a longevidade de In C. Leia a seguir:

Qual é reportório o senhor tocará em São Paulo?

Nós vamos tocar composições minhas, na maior parte, além de uma ou duas do Gyan. São estruturas flexíveis com vastos espaços abertos para improvisação.

Ainda que se referiam ao senhor como um compositor clássico, sua música parece borrar as fronteiras de gênero musical. Como o jazz e a música indiana influenciaram sua formação?

O jazz e a música indiana são ambos parte integrante da minha vida musical — tanto quanto a música clássica ocidental. A improvisação é fundamental em ambas as tradições e, na verdade, já fez parte da música clássica ocidental também, então naturalmente esse elemento [a improvisação] encontra lugar nas minhas composições.

A sua geração — a dos chamados compositores minimalistas — esteve interessada em técnicas de composição pioneiras, como os loops de fita. Há novas tecnologias ou formas de composição que o interessaram recentemente?

Na verdade, eu ainda uso lápis e folha pautada para compor ao piano a maior parte. Em seguida eu transfiro as ideias para um software de computador, caso esteja compondo para um conjunto grande. Para as performances eu uso meu laptop e meu celular, que são ótimas opções portáteis para criar uma grande variedade de sons.

Há uma conexão entre as estruturas cíclicas de algumas de suas composições e uma abordagem espiritual à música?

Dois dos métodos mais eficazes para produzir êxtase em música desde a sua criação são melodia e repetição.

“Persian Surgery Dervishes” (1972)

Embora tenha estreado nos anos 60, In C ainda é uma composição muito reverenciada. Interpretações recentes de artistas distintos — como Bang on a Can e Africa Express, por exemplo — foram recebidas com interesse renovado. O que faz dessa obra atemporal?

A obra é construída de modo a criar um efeito de evolução energética, e tanto toca-la quanto ouvi-la faz com que você sinta boa parte dessa energia. Ela é muito flexível — pode ser tocada por qualquer tipo de instrumento, voz ou tamanho de grupo. O elemento mais importante é ouvir e estar consciente de seu papel no som musical maior que está sendo criado. Cada interpretação tem uma vida úncia, então os músicos sentem-se parte de algo especial.

Em uma entrevista recente, o senhor disse que o LSD introduziu uma nova maneira de se ouvir música nos anos 70. O que quis dizer com isso?

O LSD muda a percepção que temos do tempo, permitindo que se ouçam detalhes na música que antes eram imperceptíveis. Isso levou muitos compositores a experimentar e a escrever música de modo a realçar esses detalhes.

Esta é sua primeira vez no Brasil? O que achou de vir tocar por aqui?

O Gyan já tocou no Brasil, mas é a minha primeira vez aqui. Esperei 82 anos para esta viagem, então estou pronto!


Terry Riley no Sesc Pompeia

Sexta (8/9), às 21h. Ingressos: de R$ 12 a R$ 40.

Sesc Pompeia: Rua Clélia, 93 — Pompeia — São Paulo.


Ouça In C na interpretação do sexteto Bang on a Can: