O Alentejo e o universo

Foto: Divulgação/Patrícia Pinto

Grande vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa deste ano, anunciado na semana passada, Galveias é emblemático da trajetória do escritor português José Luís Peixoto. Espécie de romance-síntese (pelo menos até agora) de uma literatura quase sempre marcada pelo tensão entre o ficcional e o autobiográfico, entre o arcaico e o moderno, Galveias leva o nome da própria aldeia alentejana onde o autor nasceu e que serve como cenário vívido desse arcabouço essencial.

Na história, passada nos anos 80, um evento misterioso — literalmente cósmico — mexe com a vida arcaica de um vilarejo de mil habitantes, sobre os quais paira a sombra da extinção — ou da perda da identidade diante de um mundo em rápida transformação. “Aqui, tratou-se de construir uma ambiciosa variação sobre esses temas [da minha obra], acrescentando-lhe diversos outros aspectos com a intenção de enriquecer e acentuar essas propostas essenciais”, diz ele à Bravo!

Autor de 14 livros entre ficção, diários de viagem, teatro e poesia, Peixoto acrescenta o Oceanos a um currículo de premiações que inclui o José Saramago de 2001, pelo romance Nenhum Olhar — outro que evoca a paisagem rural do Alentejo. Lançado no final de 2014, Galveias já tem traduções em línguas como espanhol, georgiano e grego. Seu livro mais recente é Em Teu Ventre. Confira abaixo a entrevista com o escritor.

Em 2009, seu livro Cemitério de Pianos foi finalista do Portugal Telecom, que antecedeu o Oceanos. Bateu na trave. Agora, Galveias é o vencedor. Você ficou surpreso ou estava confiante?

Não quis acreditar até ao momento em que o nome foi anunciado e, confesso, mesmo depois disso demorei um pouco para acreditar. À medida que o livro foi passando as diversas fases, nunca quis convencer-me da possibilidade de vencer o prêmio. Não se tratou de falta de confiança no romance — gosto muito dele, é um romance muito especial para mim — mas sei que, em prêmios enormes como este, a trave é muito maior do que o gol.

A infância, a família e a paisagem alentejana são frequentes na sua obra. A ideia de escrever um romance passado na aldeia em que você nasceu fazia parte de um projeto antigo ou é recente?

Esse projeto andou na minha cabeça durante vários anos até, por fim, começar realmente a escrevê-lo. Penso que, considerando livros anteriores — como Morreste-me ou como o romance Nenhum Olhar, por exemplo — se tratou de um passo natural. Em diversos livros meus, há um jogo muito forte com a questão autobiográfica e, também, com o espaço do Portugal interiorano. Aqui, tratou-se de construir uma ambiciosa variação sobre esses temas, acrescentando-lhe diversos outros aspectos com a intenção de enriquecer e acentuar essas propostas essenciais.

Você tem bem resolvida em sua obra essa suposta oposição entre o autobiográfico e a ficção. É algo que você formulou ou é simplesmente algo que surgiu em sua literatura?

Publiquei o meu primeiro livro há 16 anos. Comecei com Morreste-me, que é um livro intensamente autobiográfico. Desde então, nunca neguei essa atração. Pelo contrário, procurei-a sempre. Encontro no jogo da autobiografia uma energia que, quando usada com consciência, carrega o texto de força bastante própria. Ao mesmo tempo, sinto que essa vertente é bastante contemporânea, podendo mesmo considerar-se um sinal dos tempos, pois vivemos no tempo dos reality-qualquer-coisa. Existe hoje a ideia de que a verdade está no factual, naquilo que aconteceu, que foi sentido e experimentado por alguém. Sinto que as coisas não são assim tão simples. No entanto, tenho muito interesse de trabalhar este tema diretamente, fazendo circular no centro do texto as sombras nem sempre nítidas do narrador, do autor e das personagens.

Como é Galveias hoje?

Hoje, Galveias é um lugar que precisa de ser visitado, que precisa de atenção. Atualmente, tem menos população do que tinha no século 19. Esses habitantes são de uma faixa etária bastante elevada, o que é demonstrativo da falta de perspectivas que existem para os mais jovens. Essa é aliás uma característica de todo o interior português. A Galveias que surge nas páginas do romance pretende ser um modelo de todas essas regiões interioranas do país, mais de metade da superfície, mas muito menos de metade da população. Semelhante ao que acontece no território Brasil, aliás.

Como você vê a maneira com que Portugal lida com a sua tradição e as demandas do século 21? É uma questão fundamental para o país?

Creio que essa é uma questão de todo o mundo contemporâneo. A velocidade do tempo, das transformações, deixa-nos a todos um pouco perdidos sob o ponto de vista identitário. Se não tomarmos consciência da nossa história, se não a reconhecermos e se não retirarmos ensinamentos dela, saberemos menos sobre o nosso presente. No fundo, é isso que está em causa. Atualmente, parece que não temos tempo sequer para tomar decisões. A ausência de reflexão e o descarte do passado serão lamentados amargamente no futuro.

Suas viagens mundo afora já renderam um livro, Dentro do Segredo, sobre a Coreia do Norte. Algum plano de outros livros na área?

Sim. Neste momento, estou exatamente a trabalhar num livro que, de alguma forma, é parente desse. No entanto, há temas que acabam sempre por se intrometer. Um livro nunca é apenas sobre um único tema.

Como é viajar o mundo depois de viver em Galveias? E como é voltar para Galveias depois de viajar o mundo?

Muitas vezes, sinto que o meu trabalho é dar a conhecer Galveias ao mundo e, por outro lado, dar a conhecer o mundo a Galveias. Sou uma ponte entre essas realidades. Quando estava em Galveias, ansiava pelo mundo, sentia que tinha nascido para o mundo; hoje, no mundo, percebo a imensa importância estrutural que Galveias tem para mim.

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