O capitalismo em um olhar feminista

“Calibã e a Bruxa” é resultado de três décadas de pesquisa da historiadora italiana Silvia Federici sobre o sistema

Merece respeito uma historiadora que passou quase 30 anos pesquisando as origens do sistema capitalista e questiona teorias escritas sob a ótica masculina, até mesmo de nomes como Karl Marx e Michel Foucault. O resultado é Calibã e a Bruxa, livro em que a italiana Silvia Federici registra a participação das mulheres durante e após a transição do feudalismo para o capitalismo, por uma perspectiva diferente: a feminina. E feminista, claro, sendo a estudiosa uma militante há 57 dos seus 75 anos de vida.

Radicada nos Estados Unidos desde 1967, onde é professora emérita da Hofstra University, em Nova York , Federici começou a pesquisa para Calibã e a Bruxa nos anos 80. Publicado em 2004, acaba de ser lançado no Brasil com tradução do coletivo Sycorax e apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

No livro, ela conta como, no período do feudalismo, as mulheres eram bastante autônomas. Entre parteiras, lavradoras e curandeiras, tinham um vasto conhecimento sobre ervas e receitas naturais, sabendo inclusive o que usar para interromper a gravidez – pois possuíam domínio sobre seus próprios corpos e cabia somente a elas a decisão de fazer ou não um aborto. Com o início do capitalismo, foram ditadas “regras” segunda as quais as mulheres não deviam trabalhar fora de casa nem receber pelos trabalhos. Quando isso raramente acontecia, a remuneração era bem menor do que a que os homens recebiam nas mesmas funções. Praticamente um déjà-vu dos dias atuais, com muitas mulheres lutando pela igualdade de direitos no ambiente profissional.

Além de questões como desvalorização da mão-de-obra feminina e efeitos do patriarcado sobre a equiparação salarial, a historiadora praticamente traça uma linha do tempo, desde a Idade Média, de todas as causas feministas que estão cada vez mais discutidas, como aborto, sexualidade, sexismo, dependência financeira, violência doméstica — e emocional. Os melhores capítulos falam sobre a “caça às bruxas” como artimanha para tirar das mulheres toda a autonomia que possuíam, visto que elas geralmente eram inteligentes, donas do próprio nariz (e corpo), sábias e solteiras numa época em que eram proibidas de trabalhar para ter vários filhos em casa e, dessa forma, aumentar a mão-de-obra masculina.

Para Federici, a caça às bruxas é um ciclo que se repete exaustivamente desde aquela época, todas as vezes em que o capitalismo passa por momentos em que precisa se impor. A misoginia, o racismo e a homofobia que matam os grupos historicamente oprimidos são exemplos de caça às bruxas reinventada nesse processo de colonização global no qual nos encontramos.

Mesmo não escrevendo dezenas de livros, Federici conseguiu o que pode ser uma das mais importantes obras de não-ficção dos últimos tempos, a partir de seus valores feministas, e de um conjunto de conceitos e temáticas que acompanham o caminho da mulher desde a Idade Média até o século 21, fazendo com que os leitores parem (sem fôlego) ao final de cada capítulo e se choquem com a atualidade daqueles problemas sociais. Aliás, a autora planta uma semente e dela brotam as questões: “Por que nunca mostraram esse ponto de vista antes? Por que deixaram esses fatos passarem despercebidos?”. E uma vez questionado isso, não tem como voltar atrás.

Intelectuais, na sua maioria, e independentemente de produção acadêmica, atingem o sucesso no Brasil apenas quando lançam algo que traga um novo olhar sobre determinados acontecimentos do dia a dia. Pensem num Zygmunt Bauman ou num Umberto Eco, por exemplo. Ambos grandes pensadores, mas que se destacaram no país ao publicar livros que fizeram com que o brasileiro se enxergasse — é impossível não se lembrar de Amor Líquido, a obra que tornou Bauman um dos mais pops escritores a falar sobre a fragilidade dos laços humanos. Por outro lado, quantas acadêmicas conhecemos que alcançaram a fama dos dois homens citados?

Calibã e a Bruxa é lançado no Brasil durante um período de evidência das mulheres no meio intelectual. Recentemente, a norte-americana Angela Davis esteve na Bahia para falar sobre feminismo. Quase paralelo a esse acontecimento, na 15ª edição da Flip, além da programação contar com mais presença feminina e de autores negros, houve o lançamento do catálogo Intelectuais Negras Visíveis, que mostra a produção de 181 mulheres negras em 12 diferentes campos de atuação; e a participação de importantes nomes da mesma causa, como Djamila Ribeiro, Giovana Xavier e Conceição Evaristo.

Nunca se falou tanto em feminismo como atualmente. E precisamos debater o assunto cada vez mais! Temos estudiosas prolíficas no país, que necessitam de destaque e de oportunidades. O meio intelectual ainda tem um olhar muito eurocêntrico e masculino, que determina o que é ou não digno de ser apoiado, publicado e registrado na história. Foi assim até agora — prova disso é o impacto que Calibã e a Bruxa causa ao contar pelo olhar feminino tudo que sempre foi relatado de outra forma nas escolas e livros didáticos.

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Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici. Tradução: Coletivo Sycorax. Editora Elefante, 464 págs. R$ 50.

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