O diplomata do jazz

Visão tradicional do gênero e abertura a Moacir Santos deve marcar série de ações de Wynton Marsalis com a orquestra do Jazz at Lincoln Center em unidades do Sesc, em São Paulo

Andrei Reina
Jun 19 · 7 min read
Wynton Marsalis (Foto: Ernst Gregory)

Paletós, bandejas e câmeras voltaram-se para a entrada do café no décimo sétimo andar do Sesc Avenida Paulista quando Wynton Marsalis, atrasado por causa de um problema no voo, enfim chegou ao evento organizado para recebê-lo. A miríade de jornalistas, funcionários da burocracia internacional e gestores culturais, entre eles o próprio Danilo Santos de Miranda, do Sesc São Paulo, conferia à recepção do trompetista e diretor do Jazz at Lincoln Center um ar de oficialidade, diminuído apenas em parte pela presença de músicos e amigos brasileiros.

Na cidade até 30 de junho para uma série de atividades com a orquestra da instituição fundada por ele há 32 anos, Marsalis alterna comentários musicais com frases que bem caberiam num discurso político. “Esse não é um trabalho para nós. É uma forma de vida”, disse, referindo-se ao fato de ser filho de um músico e educador como ele — Ellis Marsalis Jr., patriarca da família que desde os anos 1980 protagoniza, não sem polêmica, a cena do jazz americano.

“A música é um símbolo poderoso, mas há muitos símbolos”, continua o diplomata do jazz, perguntado sobre a capacidade da música em fazer frente à ascensão de discursos xenofóbicos e racistas. “Os recursos devem ser colocados naqueles símbolos que unem as pessoas e tirados daqueles que nos dividem através do sensacionalismo e do espetáculo.”

Espécie de representante oficial do jazz, Marsalis é o responsável por administrar a principal instituição do gênero no país. A princípio um programa de concertos de verão, o Jazz at Lincoln at Center se tornou uma organização própria e integra o complexo cultural nova-iorquino Lincoln Center for the Performing Arts, formado, entre outras instituições, pela Filarmônica de Nova York e o Metropolitan Opera. Além de temporadas anuais de concertos, o grupo viaja pelo país e pelo mundo com ações educativas.

“Work Song (Blood on the Fiedls)”, de Wynton Marsalis

Purismo musical

Não seria uma entrevista com Marsalis se não houvesse uma questão sobre o hip hop. Quando perguntado, a expressão dele diz algo como “estava demorando”. Ele lembra que seu desinteresse não corresponde a um julgamento sumário de todo o gênero, mas reforça o incômodo com o uso de palavras com origens racistas (como a n-word). A respeito da música, responde com uma provocação. “Traga-me as partituras e vou olhá-las peça a peça, e acessá-las do mesmo ponto de vista musical que acesso Moacir Santos, Shostakovich, Bach, Brahms, Duke Ellington.”

Este embaralhar de compositores de jazz e da música de concerto ocidental é significativo, pois assinala a insistência de Marsalis em defender o gênero americano como uma espécie de música clássica negra. Por um lado, esta defesa foi fundamental para a inclusão do jazz no cânone da arte do país e para o seu reconhecimento internacional como forma elevada de expressão. Por outro, é criticado por frear a inovação característica do gênero e impedir o surgimento de novos talentos, ao privilegiar uma visão museológica do jazz.

Para entender melhor a posição defendida pelo músico, é preciso voltar ao início de sua carreira. Aos 17 anos, Wynton Marsalis entrou na Julliard School, uma das faculdades de música de maior prestígio no mundo, mas largou no ano seguinte para sair em turnê com os Jazz Messengers, lendário grupo fundado pelo baterista Art Blakey. O primeiro disco como líder, em 1982, viria com a chancela da elite do jazz: aos 21 anos, era produzido por Herbie Hancock e acompanhado pelo baixista Ron Carter e pelo baterista Tony Williams.

Wynton Marsalis com os Jazz Messengers de Art Blakey

Um ano depois, consegue o feito inédito de receber prêmios Grammy nas categorias de jazz e de música de concerto na mesma edição, dividindo-se entre criações próprias ou de ícones do jazz e concertos para trompete de compositores do período clássico. No ano seguinte, repetiria a dose, firmando-se como um virtuoso precoce no instrumento. Alcança outro marco em 1997, quando se torna o primeiro jazzista a receber o Prêmio Pulitzer de música pelo disco Blood on the Fields, um oratório interpretado pela orquestra do Jazz at Lincoln Center que acompanha a saga de um casal afro-americano, da escravidão à liberdade.

A princípio, a atenção suscitada por Marsalis se devia ao fato de ele liderar uma geração de jovens músicos — os young lions — interessados em voltar às formações acústicas e à linguagem tonal que predominou no jazz até meados dos anos 60. Era uma contraposição clara ao free jazz e à contaminação do gênero pelo rock e pelo pop através do fusion. A posição lhe valeu bate-bocas com figurões como Miles Davis, que em meados dos anos 80 interpretava versões de Michael Jackson e Cyndi Lauper em trompetes coloridos.

“Extraordinariamente talentoso e fluente tanto em jazz quanto em música clássica, além de jovem, bonito, negro, impassivo e articulado, sobretudo a respeito da importância da história do jazz e de seus mestres, Marsalis estava idealmente equipado para liderar um movimento estético-cultural adequado para seu tempo, uma renascença que aumentou a estima e o apelo popular do jazz através de um retorno aos valores tradicionais da música: jazz para a revolução de Reagan”, define David Hajdu em um perfil de Marsalis na revista The Atlantic.

Na defensiva já em 1988, Marsalis delineou sua visão em um artigo no The New York Times com o pretensioso título O que é jazz — e o que não é. “Todas as forças que trabalham para embaçar as linhas deploram a ética purista no jazz, mas tentam capitalizar comercialmente sobre a sua reputação estética. Em outros campos, o purismo é considerado uma forma de heroísmo — o mocinho que não se vende — mas no jazz esse purismo é equivocadamente percebido como estagnação e inabilidade para mudar.”

“Black Codes (From the Undeground)”, de Wynton Marsalis

As bases do jazz

Em palestras e entrevistas, o músico costuma definir o jazz como sendo a soma de três elementos fundamentais: a improvisação individual, o swing construído de forma coletiva e o blues. O difícil equilíbrio entre eles corresponderia aos desafios da democracia moderna, segundo ele. “A improvisação é sobre o eu, fácil para todo mundo abraçar. Swing é sobre nós, muito mais difícil. E o blues significa manter a positividade mesmo nos piores momentos. É como a capoeira”, comparou durante a coletiva.

Em outras oportunidades, o músico explorou mais a fundo o significa social do jazz. “Através da improvisação nós aprendemos o valor de nossa criatividade; através do swing nós coordenamos a nossa comunicação com os outros; e através do blues nós aprendemos a buscar e a celebrar o ‘significado’ das partes trágicas e absurdas da vida que afligem toda comunidade”, escreveu em um artigo para a revista Downbeat, em 2009.

“Eu acredito que o jazz revolucionou a arte da música ao investir o músico individual de autoridade para ‘contar a sua história’ e ao postular que uma ‘história’ ainda maior poderia ser contada, por escolha, por um grupo de músicos igualmente empoderados”, prossegue Marsalis. “Nosso sistema educacional ainda precisa ser reequipado para acomodar essa revolução.”

A preocupação se reflete em uma das principais linhas de ação do Jazz at Lincoln Center, a educativa. Todd Stoll, vice-presidente do setor, cita o exemplo do projeto Essentially Ellington, criado há 25 anos para divulgar a música de Duke Ellington e incentivar grupos musicais em escolas americanas. “Nós distribuímos 300 mil partituras de Duke Ellington em cerca de 7 mil escolas, interpretadas para provavelmente um milhão de pessoas. Pelo menos duas gerações já conhecem a música de Ellington nos Estados Unidos”, diz.

A fala de Stoll sucedeu a resposta de Marsalis a uma pergunta sobre como tornar Moacir Santos, cuja música admira, mais conhecido no Brasil. “Distribua a música dele nas escolas e crie uma competição com seu nome”, cravou sem pensar. “Como é fácil para ele responder isso”, comentou Nailor Proveta após o evento. “Quando olhamos para o Brasil, a gente não tem cadeira, por exemplo, de música popular nas universidades. Como é que a gente vai conhecer o Moacir Santos? Como você torna uma mensagem pública?”, questiona o músico, professor da Escola do Auditório Ibirapuera há 15 anos.

“Amphibious”, de Moacir Santos, com Wynton Marsalis

Proveta é amigo dos músicos da Jazz at Lincoln Center e é chamado pelo saxofonista Ted Nash de “irmão de outra mãe”. No disco mais recente da Banda Mantiqueira, liderada por Nailor, duas faixas contam com a participação de Marsalis: Segura Ele e Con Alma. Ao lado do percussionista Ari Colares, Proveta é o convidado do concerto Vozes Visionárias: Mestres do Jazz, no qual a orquestra americana apresenta o cânone do gênero, como Duke Ellington, Count Basie — e Moacir Santos, de quem, segundo Proveta, Marsalis “deixou previsto” Amphibious, Coisa nº 2 e Coisa nº 8.

Outros compositores brasileiros, como Pixinguinha, já foram incluídos em temporadas da orquestra do Jazz at Lincoln at Center e, no canal do YouTube da instituição, é possível encontrar vídeos educativos sobre o choro. Mas além da música, Marsalis também demonstrou intimidade com certo pensamento social brasileiro em uma anedota. “Uma vez eu fui à casa de Ornette Coleman, olhei nas prateleiras e vi o livro Casa-Grande & Senzala [The Masters and the Slaves, na edição americana], do Gilberto Freyre. Eu disse ‘cara, é ótimo esse livro, há quanto tempo você tem?’. ‘Há muito tempo’, ele disse. ‘E eu vou mantê-lo até que as coisas mudem por aqui’.”

Além do show com clássicos, a orquestra do Jazz at Lincoln Center apresenta ainda um concerto com obras originais (com participação do bandolinista Hamilton de Holanda), ensaio aberto e jam session, além de um encerramento a céu aberto no Sesc Parque Dom Pedro II. Palestras sobre música e gerenciamento de bandas, oficinas para instrumentistas e um bate-papo com Wynton Marsalis completam a programação, que pode ser consultada no site do Sesc.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

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