O espaço do assédio

Os documentários “Chega de Fiu Fiu” e “Sob Constante Ameaça” mostram como violência de gênero influencia ocupação do espaço público

Cena de “Sob Constante Ameaça”

Por Aline Khouri

Medo. Repulsa. Indignação. Estes são alguns dentre uma vasta gama de sentimentos provocados pelo assédio. Aos 11 anos, a jornalista Juliana de Faria conheceu a violência que faz parte do cotidiano da maioria das mulheres. Em 2013, ela criou a ONG feminista Think Olga e a campanha Chega de Fiu Fiu, dedicada ao combate do assédio sexual em espaços públicos. “Como alguém que foi vítima desde muito cedo do assédio, eu tinha vontade de fazer algo a respeito. Não consegui achar nada sobre assédio fora do ambiente de trabalho, o que ocorre em espaços públicos. Quando fizemos a campanha, recebi relatos de milhares de mulheres do Brasil inteiro. Estamos falando de uma exclusão sistemática na cidade”, explica.

A ONG realizou uma enquete online com quase 8 mil mulheres e revelou que 98% delas já haviam sofrido assédio, e 81% desistiram de alguma atividade comum como, por exemplo, sair a pé com medo de serem assediadas. Com o objetivo de aprofundar essa discussão, foi lançado o documentário Chega de Fiu Fiu, foi financiado coletivamente por mais de 1200 pessoas. Dirigido por Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão, o filme discute a ocupação feminina no espaço urbano por meio das histórias de Raquel Carvalho, Rosa Luz e Teresa Chaves, que moram em Salvador (BA), Brasília (DF) e São Paulo (SP) respectivamente.

O início de Chega de Fiu Fiu é marcado por diversos relatos da violência sofrida por mulheres. Sobrepostas, as vozes ilustram a realidade do que é ter um corpo feminino em uma sociedade machista. Os dados mostrados também são reveladores: o Brasil ficou em quinto lugar em um ranking mundial de feminicídios feito pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O número de assassinatos é de 4,8 para cada 100 mil mulheres. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no país. Fica claro que as cidades não foram feitas para mulheres.

Embora Rosa Luz se recuse a deixar de usar roupas curtas em sua rotina, a pesquisa da Think Olga mostra que a artista trans e negra é uma exceção, já que 90% das mulheres brasileiras já trocaram de roupa antes de saírem de casa para não serem assediadas.

As diretoras se preocuparam também em mostrar como essa violência se relaciona ao racismo, à gordofobia e à transfobia. “O filme traz a possibilidade de mostrar o que é para quem não sofre. O assédio era uma palavra não dita quando saiu a campanha”, ressalta Amanda, acrescentando que é necessário sair da esfera individual para perceber que se trata de um problema coletivo e cultural.

Ameaças

Norteado pela mesma temática, Sob Constante Ameaça possui uma proposta distinta. No documentário, disponível para assistir online e coproduzido pela Agência Pública e pela SPCine e dirigido pela repórter da Agência Pública Andrea Dip e pelo artista plástico Guilherme Peters, o objetivo é de oferecer uma experiência imersiva por meio da caminhada de algumas mulheres na cidade de São Paulo. Como mulher, Andrea já havia refletido sobre a restrição do direito à cidade para as mulheres, mas foi a partir de uma entrevista com a engenheira e mestre em Planejamento de Transportes Haydee Svab — cuja dissertação de mestrado analisou os padrões de deslocamento na região metropolitana de São Paulo por uma perspectiva de gênero — que a ideia de realizar um documentário se concretizou.

Em 2015, entrevistaram mulheres cis e trans e homens trans de diferentes idades e regiões sobre sua relação com São Paulo. Além disso, foi feita uma enquete online, respondida por 2500 mulheres. Uma das perguntas da era: “Você evita andar pela cidade em algum horário específico?”. A resposta de 93% das mulheres mostrou que elas evitavam andar após o anoitecer por medo da violência. Esses métodos auxiliaram na escolha dos lugares mostrados na tela. Sob constante ameaça parece um filme de suspense. É fácil vivenciar momentos de tensão com a objetificação das mulheres na presença de homens e a ausência de iluminação e de segurança em espaços desertos em diferentes horários do dia.

Um dos momentos de destaque do documentário é quando uma mulher trans relata que começou a ser assediada no primeiro dia em que saiu na rua vestida como uma mulher. “Tentamos mostrar essas várias experiências com a cidade que passam pela interseccionalidade. A migrante tem uma experiência com a cidade, a que mora na periferia tem uma experiência diferente e a branca possui uma experiência diferente da mulher negra”, ressalta Andrea.

Quando teve que lidar diretamente com uma realidade que não vivencia, Guilherme teve dificuldades. “Foi um processo difícil e definitivamente exigiu de mim um cuidado muito maior do que outros projetos em que já trabalhei. Quando começamos a trabalhar no documentário eu passei a conviver diariamente com uma dor, uma angústia, e um medo que não me pertencem. Antes de começar as filmagens, entrevistamos 17 mulheres, com históricos diferentes, a Andrea conduzia as entrevistas e eu captava o áudio e eventualmente fazia uma pergunta, essas entrevistas serviram de matéria-prima para o documentário, foi a partir delas que elaboramos o roteiro, a decupagem, decidimos as locações, o processo de estudo e edição desses depoimentos levaram muito tempo. Convivi com os depoimentos, e toda vez que saía na rua essas falas ficavam tocando na minha cabeça, antes de iniciar o documentário essas questões não apareciam toda hora que eu caminhava pela cidade”, confessa.

Ele destaca também como são possíveis diferentes chaves interpretativas, pois na maior parte do documentário as mulheres aparecem de costas. “Isso possibilita que essas cenas sejam absorvidas tanto como o ponto de vista dessas mulheres quanto o de um possível agressor que segue as personagens durante todo o filme. Foi curioso quando começamos a mostrar o filme para algumas pessoas, e os homens que viam achavam que essas cenas eram claramente o ponto de vista de alguém que está perseguindo as mulheres e as mulheres achavam justamente o contrário. Essa dualidade de dois pontos de vista no mesmo plano nos interessa muito, isso é tão importante para a criação do nosso documentário, quanto luz e sombra é para criar uma imagem cinematográfica”.

Para o artista, o exercício da alteridade e da empatia é fundamental. “Muitas vezes quando faço meu trajeto e a rua está vazia e escura e me deparo com uma mulher caminhando na minha frente, fazendo o mesmo trajeto, vejo que imediatamente ela se sente extremamente incomodada e aflita, o que significa que por mais ‘desconstruído’ que eu possa ser, a minha presença na cidade significa uma ameaça para as mulheres. Gostaria muito que todos os homens que vissem o filme percebessem isso, que se reconhecessem em um lugar de possíveis agressores”, finaliza.

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Sob Constante Ameaça, que pode ser visto online no site da Agência Pública, entra em cartaz na Galeria Vermelho durante a Mostra Verbo de Performance, do dia 03 ao dia 07 de Julho. Chega de Fiu Fiu jé teve 17 exibições em diferentes cidades brasileiras e uma exibição na Premiere no Festival de Direitos Humanos da Universidade Estadual do Colorado (EUA) — ACT Human Rights Festival. Além dessas sessões, há as exibições coletivas. O documentário está disponível gratuitamente pela plataforma Taturana Mobilização Social e qualquer pessoa ou instituição pode organizar uma exibição coletiva em seu espaço e ser uma parceira do filme. Basta se cadastrar e agendar a sessão para ter acesso ao documentário.