O fósforo frio de Janáček

Protagonizada por Eliane Coelho, a ópera tcheca “O Caso Makropulos” ganha estreia brasileira no Theatro São Pedro sob a regência de Ira Levin e direção de André Heller-Lopes

Andrei Reina
Jun 14 · 6 min read
Cena de “O Caso Makropulos” (Foto: Heloisa Bortz)

“Eu comecei uma nova obra e por isso não estou mais entediado. Uma bela de 300 anos de idade — e eternamente jovem — mas com os sentimentos esgotados. Brrr! Fria como gelo! Sobre tal mulher escreverei uma ópera.” Anunciada pelo compositor Leoš Janáček em carta de novembro de 1923, a obra só chegaria aos palcos três anos mais tarde, quando foi encenada no Teatro Nacional, em Bruno, na região da Morávia, que hoje integra a República Tcheca.

A destinatária da missiva é Kamila Stösslová, uma jovem casada por quem Janáček nutriu um amor platônico nos últimos anos de vida. Aposentado e sessentão, o compositor aliou esse combustível subjetivo ao amadurecimento de seu estilo tardio para escrever as mais memoráveis peças de sua carreira. Entre elas está a ópera O Caso Makropulos, que enfim ganha a sua estreia brasileira hoje (14) no Theatro São Pedro, em São Paulo.

O maestro Ira Levin e o encenador André Heller-Lopes repetem a dobradinha de Kátia Kabanová, apresentada (também pela primeira vez no país) no ano passado e no mesmo palco, onde se pretende realizar um ciclo de óperas de Janáček. A obra lírica do compositor tcheco ainda é pouco conhecida no Brasil, o que inclui a mais famosa de suas óperas, Jenůfa, que estreou no Theatro Municipal de São Paulo somente em 2003 sob a regência de Levin e foi encenada por Heller-Lopes no Municipal do Rio em 2017. “A próxima ideal é A Raposinha Astuta”, adianta André, que irá montar o título de 1924 em Bogotá, na Colômbia, ainda este ano.

A abertura de “O Caso Makropulos”, com a Filarmônica de Viena regida por Charles Mackerras

Sobreviver a si mesma

Por diversas razões, O Caso Makropulos é diferente do que nos acostumamos a ver e ouvir em óperas. A começar pela própria história, baseada na peça homônima de Karel Čapek, pioneiro da ficção científica e a quem se atribui a invenção da palavra “robô”. Na trama, uma mulher misteriosa chamada Emilia Marty se envolve em uma disputa judicial em torno de uma herança. Aos poucos, descobre-se que por trás do interesse de Emilia está a fórmula do elixir da vida bebido por ela há 337 anos, quando ainda se chamava Elina Makropulos. (O título original da ópera, Věc Makropulos — “věc” significa “coisa” — refere-se tanto ao caso judicial quanto ao documento buscado.)

Ao converter a peça em ópera, Janáček manteve a centralidade do diálogo, mas enxugou e alterou o teor do texto. “Enquanto Čapek escreveu sua peça como uma comédia filosófica, que explorava desapaixonadamente os méritos e as desvantagens de uma vida prolongada por mais de 300 anos, Janáček impacientemente cortou boa parte do gracejo especulativo, concentrando-se no estado emocional da extraordinária personagem central”, observa o musicólogo John Tyrrell. André Heller-Lopes compara esse sentimento de já ter vivido tudo a um verso de Fernando Pessoa no poema Aniversário: “É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio.”

No ritmo da língua

Ira Levin comenta que, em função da aridez das conversas em cena, seria difícil organizar uma coletânea de “melhores momentos” de O Caso Makropulos. “Eles falam sobre detalhes do caso judicial, é um tema muito não-operístico, assim como o são partes de Kátia Kabanová e A Raposinha Astuta”. Para Levin, quanto mais tardia a produção de Janáček, mais extremada é essa característica. “Jenůfa ainda tem elementos românticos, em Kátia Kabanová há cenas de morte e de amor, mas os últimos trabalhos, embora sejam ainda mais apaixonados, são mais difíceis.”

Essa dificuldade é acirrada pela ausência de interrupções líricas na trama para a expressão de sentimentos íntimos das personagens. “Não é como numa ópera de Verdi ou mesmo de Wagner, onde há grande cenas e árias famosas, cabalettas e coisas assim”, comenta Levin. “Todo o conceito dele é que os cantores deveriam cantar no ritmo da língua. Frequentemente, nas suas óperas, os cantores estão quase que falando e a orquestra é que carrega o argumento musical.” Além dos intérpretes, o ouvinte também é desafiado. “Talvez seja mais difícil para o público acostumado à ópera italiana. Você não senta e espera pela ária famosa. Ela não está lá. Mas em lugar disso há uma tensão inacreditável”, garante Levin.

Como O Caso Makropulos não é interrompida por árias, a ópera ganha uma certa continuidade, que no entanto não implica numa homogeneidade musical. Isso porque Janáček faz uso do que se chama de “melodia-fala”, uma conversa entre os personagens que está entre a conversa e o canto. Neste sentido, o compositor integra, na periferia da Europa, uma série de esforços empreendidos no início do século 20 para renovar a tradição operística, como se ouve em Pelléas et Mélisande, de Claude Debussy, e em Salomé, de Richard Strauss.

Em Janáček, esse tipo de canto falado ganha contornos próprios em razão da língua tcheca, cujas particularidades dão uma imprevisibilidade rítmica à música. No livro Uma História da Ópera, Carolyn Abbate e Roger Parker observam que “em tcheco, a acentuação e a duração da sílaba frequentemente não coincidem, o que leva a que a melodia da fala se baseie em figuras rítmicas sincopadas".

Para o ouvinte, a impressão é de que a orquestra quase não tem momentos contemplativos. Já que a música é baseada na locução de personagens diferentes entre si, o diálogo incessante entre eles exige que a orquestra desdobre texturas distintas em intervalos curtos de tempo. Essa fragmentação interna, cujo efeito é moderno, não impede que o conjunto apresente uma progressão contínua, que desemboca na reflexão lírica da protagonista no terceiro ato. “Quando chega-se ao final, entende-se do que se trata a história e Emilia Mary diz quem ela é, ali a música se amplia”, diz Ira Levin. “É uma apoteose, como no final de Salomé ou O Crepúsculo dos Deuses (de Wagner). É uma das duas ou três passagens mais magníficas que Janáček já escreveu.”

A soprano Eliane Coelho (Foto: Heloisa Bortz)

Percurso visual

Para encenar a chegada até esse “arroubo melódico” e acompanhar o desenvolvimento da música, André Heller-Lopes optou por adotar estéticas diferentes em cada um dos três atos. Auxiliado pelo cenógrafo Renato Theobaldo, conferiu ao primeiro deles um tom sépia, garantido pela madeira dos arquivos, sobre quais repousa um amontoado kafkiano de papeis, e das “escadas sem fim”, inspiradas nos enigmas visuais de M. C. Escher. No segundo ato, o expressionismo de Edvard Munch na tela O Grito dita a paleta de cores, reduzida ao preto na parte final.

Segundo Heller-Lopes, esse percurso corresponde ao “quebra-cabeças que só se junta no final” da ópera. “O que eu propus ao Renato é que o cenário muito rebuscado fosse se simplificando: primeiro é o Escher, depois o Munch e depois é o nada — tem um elemento, que é uma escadaria em direção ao céu. Stairway to heaven. À medida que a coisa vai ficando mais simples na história, menos coisa tem em cena”, explica.

Cantores brasileiros são os responsáveis por emprestar voz aos personagens de O Caso Makropulos. Enquanto a orquestra toca a vigorosa abertura, vê-se a soprano Eliane Coelho assistir aos passos de Anna Pavlova em A Morte do Cisne, projetados no fundo do palco, antes de assumir o papel de Elina Makropulos. A veterana dos palcos líricos contracena com o tenor Eric Herrero e o barítono Vinicius Atique. O elenco conta ainda com nomes como a mezzo-soprano Luisa Francesconi, o tenor Giovanni Tristacci e o barítono Michel de Souza. A iluminação é de Fábio Retti.


O Caso Makropulos. Dias 14, 16, 19, 21 e 23 de junho, às 20h (exceto no domingo, às 17h). Ingressos: de R$ 30 a R$ 80, com direito a meia-entrada. Theatro São Pedro: Rua Barra Funda, 161 — Barra Funda — São Paulo.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

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