O jazz que saiu do frio

O baterista norueguês Gard Nilssen se apresenta com a banda Acoustic Unity pela primeira vez no Brasil

Por Ligia Krás

Em uma tarde fria e nublada de inverno em São Paulo, um norueguês se diverte comprando discos de vinil de Cartola, Hermeto Pascoal e do mais fino samba brasileiro. Ele é Gard Nilssen, 35 anos, baterista de jazz que está no Brasil com a banda Acoustic Unity para promover, em uma série de shows, seu último lançamento, Live in Europe, disco triplo gravado ao vivo em diferentes lugares da Europa.

Esse power trio, completado com o saxofonista André Rolighete e o baixista Petter Eldh, passeia com segurança entre um som mais clássico e sessenteiro, ao mesmo tempo em que incorpora aspectos contemporâneos em seus números. Seu estilo por excelência é o free jazz no sentido mais puro: sem muita métrica ou diretrizes. Os shows não têm setlist — a banda seleciona algumas músicas e versa sobre aqueles temas. E, apesar de compor, Nilssen afirma não ter o ego da composição: ele se realiza mesmo é no palco, fazendo a música ao vivo.

“As pessoas não devem ter medo do free jazz ”, afirma. Ele acredita que quando se toca free music nem sempre tudo é bonito — tem as partes chatas que são necessárias, porque são elas que ressaltam as boas. É uma dinâmica. “Se você pensa em seu disco favorito, se não houvesse aquela balada chata no meio, aquela composição meio desinteressante, será que o conjunto daquela obra teria sido o mesmo sem aqueles elementos?", ele diz. "São esses pontos fracos em um álbum ou em uma música que desenham uma obra e criam a sua complexidade e singularidade."

Bateria familiar

Nilssen vem de uma família de bateristas em um país que valoriza muito o jazz, com vários festivais ao longo do ano. Ele acaba, aliás, de ser confirmado como residente na edição de 2019 do Molde International Jazz Festival, que, criado em, 1961, é o segundo festival do gênero mais antigo da Europa. Durante os seis dias agitados do festival na cidade de Molde acontecem aproximadamente 120 concertos , reunindo 500 artistas.

Com shows agendados para São Carlos (SP), São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília na última semana de agosto, Gard Nilssen espera garimpar mais álbuns de música brasileira nas cidades que visitar. Cartola ou o Clube da Esquina vão influenciar suas próximas composições?Não dá pra ter certeza, mas ele garante que em algum momento essa inspiração aparecerá onde tudo verdadeiramente acontece e importa no free jazz: no palco.

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Garden Nilssen Acoustic Unity Live. Shows em São Carlos: Café Sete, dia 29, às 20h, R$ 20 a R$ 40; São Paulo: JazznosFundos / CCMI, dia 30, às 21h30, R$ 25 a R$ 35; Rio de Janeiro, dia 31, às 20h, R$ 35 a R$ 70; Brasília: Cervejaria Criolina, dia 1, às 20h, R$ 20 a R$ 30 (venda na porta)

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