O mutismo esópico deu o que falar

“Fábulas, seguidas do Romance de Esopo” traz 75 minijoias do fabulista que inspirou toda uma linhagem de escritores

A Raposa e o Cacho de Uva”, fábula ilustrada por William Caxton

Por Carlos Castelo

“Um dia, um pobre maranhense andou muitas léguas e foi bater no Piauí. Caminhou mais muitas léguas e chegou ao Ceará. Atravessou muito mais léguas e foi dar na Paraíba. E aí, de noite, na habitação do compadre paraibano, uma choupana que lhe parecia um palácio, ele bebia feliz um chimarrão, quando, na outra margem do Tietê (1), uma lua cheia, cheiona, tomou conta do céu.

José Ribamar, o maranhense, ficou besta, arregalou os óio (2), abriu a boca e disse: — Cumpadre, que lua cê tem! Eu nunca vi uma lua anssim nim toda minha vida!

— É — falou o compadre — , tá bunita meismo essa! Mas lua é lua, sô! Tem cheia e tem vazia.

— Ah, eu já tinha inté uvido meu pai falá — disse o maranhense.

— Mas nu Maranhão num tem não. Adispois antão qui essa famia do fio do coroné meu tio foi guvernadô, lá cada vez mais só que só tem quartu minguante.

MORAL: O CÉU É DOS LUNÁTICOS.

(1) Esta fábula não é, decididamente, realista.

(2) Esta fábula não pretende Ter, claro, unidade de linguagem.”

Esta é O Luar dos Destituídos. À maneira dos…maranhenses, de Millôr Fernandes. Como bem diz o decano jornalista Raul Drewnick, não se deve proferir o nome do guru do Méier em vão. Mas abuso do uso porque é um belo exemplo da elasticidade e atualidade da fábula.

O gênero começou com os sumérios e foi aprimorado por um indivíduo assim descrito nos antigamente: pançudo, cabeçudo, de nariz achatado, corcunda, negro (sic), baixote, de braços curtos, manco, vesgo, beiçudo. Esta aberração manifesta chamava-se Esopo (século 7 a.C). Sim, o autor de O Cão e a Lebre, A Raposa e o Cacho de Uva, A Mosca e tantos outros textos que inspiraram de Millôr a Ambrose Bierce incluindo Monteiro Lobato, Bocage, seguidos de uma enorme fila .

O livro Fábulas, seguidas do Romance de Esopo (Editora 34) reúne o filé das histórias esópicas. São 75 minijoias — com ou sem animais — traduzidas por André Malta como se fossem pequenos poemas em prosa. O requinte não fica apenas no respeito aos ritmos, há ainda a parte inédita no Brasil, a biografia ficcional do fabulista, de autoria anônima, escrita por volta do século 2 d.C.

Nesta picaresca Vida de Esopo sabemos, entre outras, que ele foi escravo da lavoura na Ásia Menor. Depois acaba “promovido” a escravo doméstico de um filósofo, na Ilha de Samos. E, quando é afinal libertado, passa a fazer uso da palavra em auditórios e assembleias. Detalhe: até então era mudo e, por um dom da deusa Ísis, adquiriu a fala.

MORAL: Uma trajetória fabulosa assim — perdoem a inevitável paronomásia — não pode ficar longe de sua prateleira de livros.

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Fábulas, seguidas do Romance de Esopo. Editora 34, 277 págs., R$ 55

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