O preço da autolibertação

“Deus Ajude Essa Criança”, de Toni Morrison, é uma fábula pós-moderna sobre o que acontece quando não superamos os terríveis erros do passado

É difícil escrever a resenha de um livro de Toni Morrison sem chover no molhado. Aclamada mundialmente, a vencedora do Nobel de Literatura e do Pulitzer tornou-se um dos principais nomes quando se fala em best-sellers escritos por intelectuais negras — não que hajam poucas, mas por ter sido uma das pioneiras a alcançar sucesso, tanto na literatura quanto no mundo acadêmico.

Conta uma reportagem do The New York Times que, certa vez, durante a gravação do audiobook de um dos seus livros, Toni (que dispensa o costumeiro uso de atores para as gravações) estava na cozinha anexa ao estúdio com uma equipe completa: um relações-públicas, o diretor do estúdio e seu sonoplasta, a editora literária e duas jovens da divisão de audiobooks da Random House. Mesmo no ritmo frenético que dominava o trabalho, bastava a escritora levantar um dedo, que todos paravam pra saber se podiam ajudá-la em algo.

Esse, certamente, é o efeito que ela causa por onde passa. O livro em questão era Deus Ajude Essa Criança, lançado agora no Brasil pela Companhia das Letras. Bride, a protagonista, é uma empresária de sucesso na indústria de beleza, acostumada a conviver com a elite de Nova York, uma daquelas pessoas tão metódicas e práticas que não parecem esconder nada. Ledo engano: no passado, ela, que nasceu Lula Ann Bridewell, foi rejeitada pelo pai ao nascer, e a mãe, abandonada pelo marido e inconformada com aquela criança “tão preta”, já decretou seu futuro desde novinha: “A cor dela é uma cruz que ela vai carregar pra sempre”.

Com o passar dos anos, Bride galgou cada degrau da sua carreira de sucesso, com a frieza adquirida pelos preconceitos vividos, com o uso esperto de sua beleza, e com o peso na memória de um segredo ainda pior que o racismo dos pais: uma mentira que ela contou quando era criança e que fez com que uma professora inocente fosse presa e excluída da sociedade.

O livro fala sobre a tal exclusão social de um modo muito peculiar, quase às avessas, que tira a discussão do foco em lugar de fala e privilégios, e coloca muito mais na tolerância com o que é diferente de nós e na honestidade. Ficam as perguntas: “uma mentira, quando contada em prol da busca desesperada pelo amor de alguém, vale ser perdoada?”. “O que se faz em nome do bem, apaga o mal que consequentemente pode causar?”. E “Até que ponto vai a capacidade humana de passar a perna em inocentes, mesmo partindo daqueles que parecem amigos fieis?”.

Uma das razões (senão a maior) que tiram os livros de Toni do óbvio é a forma como ela explora a negritude sem estagnar nos clichês que as pessoas esperam das personagens. Elas têm seu cotidiano, seus empregos, bem-sucedidos ou não, e têm seus erros e dilemas, do mesmo modo que pessoas brancas e demais raças. Ela os descreve como tem de ser: como um ser humano igual a qualquer outro. Não tem essa de criar personagens e ficar justificando seus atos, ela não precisa validar sua escrita para os leitores brancos.

Em seu livro Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, a filósofa Djamila Ribeiro fala sobre outro romance da autora, O Olho Mais Azul. “Foi graças a Morrison que percebi que, adoecida pelo racismo, eu precisava encontrar formas de me libertar para não amar de forma adoecida também. Entendi que o amor, por mais que me tivesse sido negado de várias formas, era um direito. E que viria a partir do momento em que eu tivesse coragem de olhar para dentro de mim com sinceridade para retirar o mal que fora colocado ali com tanto silenciamento”.

Deus Ajude Essa Criança é sobre essa dignidade de viver como todos vivem, e sobre a liberdade, não de prisões exteriores provocadas por outras pessoas, mas do aprisionamento que nós mesmos causamos ao cometer determinados atos em nossa jornada. Em outras palavras, o livro é uma fábula sobre uma executiva que carrega dentro de si a criança que não esquece a infância dolorosa. Uma obra típica e imprescindível de Toni Morrison.

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Deus Ajude Essa Criança, de Toni Morrison. Tradução de José Rubens Siqueira. Companhia das Letras, 168 págs., R$ 44,90.

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