O que assistir na 41ª Mostra de Cinema de São Paulo

Cássio Starling Carlos, Flavia Guerra e Fábio Andrade indicam e comentam filmes do festival, que começa hoje (19) em São Paulo

“The Square”, de Ruben Östlund

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo dá a largada para sua 41ª edição hoje (19). Neste ano, serão apresentados nada menos do que 394 filmes em 14 dias.

Além dos longas em competição — divididos nas categorias Perspectiva Internacional, Novos Diretores e Mostra Brasil — o festival apresenta retrospectivas dos cineastas Agnès Varda e Paul Vecchiali, que serão homenageados no evento, uma seleção de filmes suíços e sessões com a presença do artista chinês Ai Weiwei, que fez a arte do pôster da Mostra e apresenta o filme Human Flow — Não Existe Lar se Não Há para Onde Ir.

O longa de Weiwei abre o festival, que será encerrado no dia 1º de novembro com A Trama, do francês Laurent Cantent. Filmes premiados em festivais importantes serão exibidos ao longo da Mostra, como é o caso de The Square, do sueco Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano. Haverá ainda sessões gratuitas no vão livre do Masp e no Parque Ibirapuera, onde será projetado O Homem Mosca, clássico de 1923 com Harold Lloyd, que receberá trilha sonora ao vivo da Orquestra Jazz Sinfônica.

“Visages, Villages” de Agnès Varda e JR

Em meio a tantas opções para aproveitar em tão pouco tempo, a Bravo! ouviu três especialistas no assunto para saber o que é imperdível nesta edição da Mostra. Veja quem são eles:

  • Cássio Starling Carlos, crítico da Folha de S. Paulo, é pesquisador, curador e professor de história do audiovisual.
  • Flavia Guerra, do site TelaTela, é jornalista especializada em cinema. Colunista do canal Arte 1, cobre festivais dentro e fora do país.
  • Fábio Andrade, editor da revista Cinética, é crítico e cineasta. Cursa mestrado em Roteiro na Universidade Columbia, em Nova York.

Leia a seguir as indicações e os comentários enviados por eles. Para saber os horários e locais das sessões, clique no título dos filmes.

A série alemã “Babylon Berlin” / “Loveless”, de Andrey Zvyagintsev

Cássio Starling Carlos

Ana, Meu Amor, de Cãlin Peter Netzer

Novo trabalho do romeno, diretor do incômodo Instinto Materno, evoca, no título, o clássico moderno de Alain Resnais. A narrativa segue uma estrutura psicanalítica toda em lacunas e registra as ruínas de um relacionamento, que é tanto o de um homem e uma mulher como o da Romênia e seu passado comunista que nunca passa.

Animais, de Greg Zglinski

Destaque da Foco Suíço e dirigido por cineasta com formação polonesa, o filme acompanha um casal, que, em meio a uma viagem reparadora, mergulha numa espiral surrealista. A forma de thriller disparatado misturada ao estranhamento do mundo animal produz o efeito desconcertante que o público da Mostra adora.

Babylon Berlin, de Tom Tykwer, Achim von Borries e Henk Handloegten

A exibição da série de TV reafirma o fim das fronteiras entre os múltiplos campos do audiovisual. Esta superprodução alemã segue uma trama policial ambientada entre o fim da República de Weimar e a ascensão do nazismo, quando o caldo de transgressão e regressão que cozinhava em Berlim se parecia ameaçadoramente com o que vivemos agora.

Loveless, de Andrey Zvyagintsev

O consagrado diretor de Leviatã (2014) prossegue sua autópsia da Rússia putinesca com mais um drama de gelar os ossos. Um casal em ruptura e o filho deles, desaparecido durante uma de suas infindáveis disputas, funcionam como espelho de uma sociedade apática e corrupta, lançada num abismo moral. Com seu cinema suntuoso e amargo, Zvyagintsev prolonga a tradição russa do pessimismo revigorante.

Visages, Villages, de Agnès Varda e JR

A decana do cinema francês beira os 90 anos sem se fatigar. Ela e o fotógrafo e street artist JR caem juntos na estrada em busca das identidades sempre mutantes, sempre viajantes. Além desse novo trabalho, uma retrospectiva com dez longas da diretora, desde o proto-Nouvelle Vague La Pointe Courte (1955), apresenta seu olhar único, em que fotografia e cinema se conjugam para dar a ver o que é estar no mundo.
“Zama”, de Lucrecia Martel / “Gabriel e a Montanha”, de Fellipe Barbosa

Flavia Guerra

As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra

Fazer cinema de gênero é sempre um desafio. Quando se trata de fazer cinema de gênero no Brasil, o desafio é ainda maior. Mas Marco Dutra e Juliana Rojas vêm traçando uma bela trajetória, com longas como Trabalhar Cansa (que dirigiram em parceria), Quando Eu Era Vivo (de Marco) e Sinfonia da Necrópole (de Juliana). Em As Boas Maneiras, atingem a maturidade de seu cinema, que explora as frestas da personalidade humana e do nosso imaginário.
O longa, que foi premiado no Festival Locarno 2017 e levou cinco prêmios, incluindo o Redentor de Melhor Filme, no Festival do Rio 2017, conta a história de Ana (Marjorie Estiano, que também levou troféu de Melhor Atriz no Rio), uma mulher que contrata Clara (Isabél Zuaa), uma enfermeira que vive na periferia paulistana, para ser babá de seu filho que ainda não nasceu. Conforme a gravidez avança, Ana se torna cada vez mais estranha e Clara vê sua rotina completamente afetada. Uma fábula sombria com comentários contundentes sobre a sociedade moderna.

Gabriel e a Montanha, de Fellipe Barbosa

Único longa brasileiro selecionado para o Festival de Cannes 2017, Gabriel e a Montanha fez bonito na Semana da Crítica, prestigiada mostra paralela do festival. Dirigido por Fellipe Barbosa, o filme recria a viagem do carioca Gabriel Buchmann pela África em 2009, da qual ele nunca voltou.
O roteiro foi construído com base em e-mails de Gabriel para a namorada e a mãe, anotações e conversas com quem esteve com ele na jornada por vários países, até mesmo com os camponeses que o encontraram sem vida no Monte Mulanje, pico mais alto do Malawi, com mais de três mil metros de altitude.
João Pedro Zappa, que vive Gabriel, contracena com estes personagens reais que revivem as situações que passaram com o brasileiro. Fellipe costuma dizer que uma viagem só se completa quando se retorna dela. E é completar e pensar em seu significado que o diretor faz neste longa que mescla com talento o real e a ficção.

The Square, de Ruben Östlund

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017, The Square é um filme do nosso tempo. Conta a história de Christian, um curador de um museu de arte contemporânea importante da Suécia, que, depois de ter sua carteira e celular roubados, reage de uma forma inesperada. O incidente inicia uma sequência de pequenos-grandes desastres em sua vida pessoal e profissional.
É interessante observar como o diretor, Roben Östlund (de Força Maior, que levou o prêmio principal na mostra Un Certain Regard) não tem medo de arriscar, de ser tachado de chato e até de incomodar. Tudo para, ao final, contar uma história que tem um humor muito peculiar e coloca o dedo na ferida do nosso hábito de julgar (no mundo virtual e no real), de aparentar ser o que não se é. Mas, ao mesmo tempo, Östlund nos presenteia com um protagonista que tem suas fraquezas e seus egoísmos, mas é humano e tenta rever seus atos neste mundo atual e confuso.

Visages, Villages, de Agnès Varda e JR

Agnès Varda é uma cineasta singular. Aos 89 anos, é um dos grandes nomes do cinema francês, importante figura da Nouvelle Vague que nem sempre ganha o reconhecimento que merece. Pois nesta Mostra ela ganha uma oportuna retrospectiva com 11 longas que realizou. Um deles é seu filme mais atual: Visages Villages, que ela codirigiu com o fotógrafo e muralista JR.
A première mundial do filme em Cannes este ano foi uma das sessões mais emocionantes do festival. São 90 minutos de viagem com Agnès e JR por uma França de gente comum, mas com rostos muito especiais que os dois fotografam, imprimem e afixam em fachadas de casas, armazéns, contêineres. Um dispositivo simples, que revela tanto sobre sonhos e histórias de vida. Em Cannes, por muitos motivos, a plateia do imenso Grand Théâtre Lumière foi às lágrimas e a aplaudiu por mais de 10 minutos. Imperdível!

Zama, de Lucrecia Martel

Coprodução Argentina e Brasil (a cargo da Bananeira Filmes de Vânia Catani), Zama não só vem conquistando o público dos festivais por que passa como também é o candidato argentino ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A trama, dirigida pela mestra Lucrecia Martel (de O Pântano), é baseada no romance sobre Don Diego de Zama, de Antonio di Benedetto, e narra a saga de Zama (Daniel Gimenez Cacho), um oficial da Coroa Espanhola que nasceu na colônia sul-americana e não vê a hora de receber uma carta do rei que o autoriza a se mudar da pequena cidade em que vive e já não suporta mais.
Preso na armadilha da rotina burocrática e violenta da qual ele mesmo faz parte, Zama vê seus dias passarem enquanto também persegue um temido bandido local (vivido por Matheus Nachtergaele). Ironicamente, Lucrecia escolheu um colonizador e “amansador de índios” para narrar uma história que diz muito sobre a formação não só da Argentina mas de toda a América Latina — bruta, racista e escravocrata. Seu cinema é cirúrgico como seu olhar, sempre atento às nossas contradições.
“24 Frames”, de Abbas Kiarostami / “Sollers Point”, de Matthew Porterfield

Fábio Andrade

24 Frames, de Abbas Kiarostami

Filme póstumo de Abbas Kiarostami, um dos maiores cineastas de todos os tempos. Em uma mostra que traz filmes de mestres como Godard, Ruiz, Varda, Garrel, Joaquim Pedro e Vecchiali, e grandes nomes do cinema das últimas décadas, como Lucrecia Martel e Hong Sang-soo, é de Kiarostami o título que mais desejo assistir.

Ascensão e Queda de uma Pequena Produtora de Cinema, de Jean-Luc Godard

Um dos filmes menos conhecidos de Jean-Luc Godard, que circula apenas em cópias de baixa qualidade. Ver um Godard raro no cinema é oportunidade a não se perder.

Caniba, de Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel

Dos filmes aqui recomendados, é o único que já assisti. Realizado por Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel — dois grandes nomes do documentário etnográfico contemporâneo— Caniba é praticamente o oposto simétrico do filme anterior da dupla, Leviathan. Extremamente concentrado, o filme é um mergulho sufocante e visceralmente perturbador na psiquê e na pele de personagens fascinantes.

Outrage Coda, de Takeshi Kitano

Takeshi Kitano talvez não goze mais do prestígio que um dia tivera, mas essa relativa indiferença parece ter libertado o diretor para fazer filmes cada vez mais desafiadores. Outrage Coda fecha a excelente trilogia Outrage, que marcou o retorno do diretor aos filmes de gangster minimalistas que lhe fizeram célebre, mas com uma abordagem que beira o barroco.

Sollers Point, de Matthew Porterfield

I Used to Be Darker, filme anterior de Matthew Porterfield, foi uma das melhores revelações do cinema independente americano recente, trazendo o diretor de Putty Hill e Hamilton a um outro patamar de atenção. Porterfield costuma combinar uma aparente simplicidade narrativa com complexos jogos estruturais que rendem possibilidades muito criativas de encenação, injetando vida nas formas cansadas do cinema independente dos EUA.

41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

De 19/10 a 1º/11. Ingressos: R$ 20 (segundo a quinta) e R$ 24 (sexta, sábado e domingo). Podem ser adquiridos três dias antes de cada sessão.

Veja a programação completa no site da Mostra: www.41.mostra.org

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