O Rio de Janeiro de Melville

Lançado agora no Brasil, Jaqueta Branca é baseado na viagem do autor de Moby Dick a bordo de uma fragata de guerra. Entre os episódios narrados está a chegada à então capital do Brasil e um encontro com o Dom Pedro II

Rio de Janeiro (1844), pintura de Alessandro Cicarelli. Acervo da Pinacoteca de São Paulo

Ainda levaria anos para Moby Dick (1851) ser publicado, mas Herman Melville já acumulava milhas náuticas como marujo amador, caçando ficção na vida como ela é no mar. Três viagens entre 1939 e 1940, em um paquete e dois baleeiros, deram em três livros: Typee (1846), Omoo (1847) e Redburn (1849). A maior de todas as viagens veio em agosto de 1843, quando Melville embarcou na fragata da marinha americana USS United States para uma viagem de 14 meses entre Honolulu e Boston. O resultado foi o livro Jaqueta Branca (1850), publicado só agora no Brasil.

A mescla de ficção e autobiografia, que caracterizava o grosso da sua obra até então, se repete aqui. Identificado apenas pelo apelido que dá título ao livro, o narrador e sua bizarra jaqueta (branca, como Moby Dick…) são voz e emblema da dura vida em um navio de guerra, batizado aqui de Neversink. Na época em que foi publicado, a crítica fez cara feia — coisa, aliás, que se repetiria no ano seguinte, com Moby Dick.

A intenção de dar uma ideia da vida em um navio de guerra, com todo o detalhismo náutico que se veria também em Moby Dick, é reafirmada a todo momento. Mas Melville nem sempre cumprir a tal tarefa. Como quando ele, encantado, abre uma exceção para descrever, magistralmente, o Rio de Janeiro, onde a fragata aporta.

“Passamos várias semanas no Rio, munindo-nos demoradamente de provisões e preparando a viagem de volta. Mas ainda que o Rio seja uma das baías mais magníficas do mundo; ainda que a própria cidade contenha muitas coisas extraordinárias; e ainda que muita coisa possa ser dita do Pão de Açúcar e do morro dos Sinais; da pequena ilhota de Lúcia; da fortificada ilha das Cobras (embora as únicas víboras e serpentes encontradas hoje nos arsenais sejam grandes canhões e pistolas); o Nariz de Lorde Hood — uma protuberância elevada que, segundo os marujos, lembrava o nariz em forma de concha desse nobre senhor; a praia do Flamengo — uma praia sublime que recebeu esse nome por ter sido, no passado, recanto desse suntuoso pássaro; a charmosa enseada de Botafogo, que, apesar do nome, é tão atraente quanto Laranjeiras, o bairro vizinho; o verde morro da Glória, encimado pelos campanários da majestosa igreja de Nossa Senhora da Glória; o convento beneditino nas redondezas, cinza-escuro; o Passeio Público, um parque encantador; os arcos sobre arcos do Aqueduto da Carioca; o Palácio Imperial; os Jardins da Imperatriz; a encantadora igreja da Candelária; e o trono dourado sobre rodas, puxado por oito sedosas mulas com sinos de prata, no qual Sua Majestade Imperial é conduzida da cidade à vila mourisca de São Cristóvão — sim, ainda que muita coisa possa ser dita disso tudo, devo me conter, se me permitem, e me concentrar no devido assunto: o mundo em um navio de guerra.

Para os cariocas da gema que não localizaram todos os lugares mencionados, a edição brasileira explica: comum nos relatos de viagem da época, o Signal Hill era um morro que ficava à direita do Pão do Açúcar; Lúcia poderia ser uma ilhota perto do Forte Santa Cruz, onde também teria sido construído um forte; e Lord Hood’s Nose refere-se à Pedra da Gávea, semelhante (segundo os navegantes ingleses) ao narigão do almirante lorde Samuel Hood (1724–1816).

Não é a única descrição que ele faz do Rio — adiante, ele diz que “deveria passar pelo Rio sem maiores descrições”, mas não resiste. E se entusiasma:

“Não falo da Bay of All Saints — a Baía de Todos os Santos; pois, embora seja uma enseada gloriosa, o Rio é a Baía de Todos os Rios — Baía de Todos os Deleites — Baía de Todas as Belezas. Das encostas de morros circunjacentes, o verão incansável pende perpetuamente em terraços de vívido verdor; e incrustados por um musgo antigo, convento e castelo aninham-se nos vales e entremontes.

Adiante, uma surpresa: na época com 18 ou 19 anos, o imperador Dom Pedro II é recebido a bordo do Neversink-USS United States:

Usava uma casaca verde, com uma majestosa estrela-d’alva no peito, e pantalonas brancas. No chapéu havia uma única pena brilhante, em tons de dourado, de um tucano imperial, uma ave de rapina magnífica, onívora e de bico largo, nativa do Brasil.”

A corte que acompanhava o imperador era mais extravagante:

Você já viu cones de sal cristalizado? Do mesmo modo reluziam aqueles barões, marqueses, viscondes e condes portugueses. Não fosse por seus títulos, ou por serem vistos no séquito de seu senhor, poderíamos jurar que todos eram primogênitos de joalheiros, fugidos de casa com os estojos do pai pendurados nas costas.”

A marujada, claro, não perdoou os fidalgos. “Você aí, imperador, fruta verde de casaco verde, que não tem nem barba na cara ainda, veja que belo par de costeletas estou levando para casa nas bochechas! Dom Pedro, não é? Que nome é esse, afinal de contas, senão um mero Peter — nome ordinário no meu país.”

“Que contentamento é o meu”, teria exclamado Peter ao passar em revista a “ralé”. Um limpador de artilharia, resmungou: “Para vocês, homens nobres, uma maravilha de se ver; mas o que diriam se tivessem de limpar o convés com as próprias mãos, machucando os cotovelos de tanto polir esse maldito ferro-velho, e depois receber doze chicotadas no portaló se deixasse cair uma gota de gordura no piso do rancho? Sim, para vocês uma maravilha de se ver, para nós uma maravilha dos infernos!”

O mundo em um navio de guerra. Que, afinal, era o que mais interessava.

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Jaqueta Branca — Ou O Mundo em um Navio de Guerra, de Herman Melville. Tradução de Rogério Bettoni. Editora Carambaia, 464 págs., R$ 103,90.