Obituário cultural

2018 foi um ano de grandes perdas. A seguir, um tributo aos ícones que faleceram e deixaram saudades

Philip Roth

Carlos Heitor Cony era pessimista assumido. “Considero o otimismo má informação. Só pode ser otimista o sujeito mal informado. Quanto mais informação você tem, mais você tende a ficar pessimista. Não vou dizer que eu não tenha sido feliz. Dentro da condição humana, procurei ser o mais humano possível. Mas não cheguei lá”, disse o jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Na sua coluna na Folha de São Paulo, ele escreveu exatamente um ano atrás: “Para valer, o Natal é uma festa de meditação e silêncio. ‘Dum medium silentium… Foi num grande silêncio que Jesus nasceu’. Esse silêncio só foi quebrado pelo coro dos anjos que cantavam a glória de Deus e a paz aos homens de boa vontade. (…) É um Natal triste. Temos prisões, investigações e a constatação de que estamos cercados de ladrões. É um Natal triste”.

Concordo com Cony. Geralmente esqueço tudo de ruim que aconteceu no ano, ou ao menos tento desapegar da carga negativa que as muitas calamidades trouxeram, a fim de passar o Natal (e me preparar para o próximo ciclo), com muita leveza. No entanto, este final de 2018 está mais difícil de cicatrizar do que o habitual. Tanto que, em vez da retrospectiva com livros e outras listas, resolvi usar o espaço da minha última coluna antes das férias para esboçar uma espécie de Obituário, lembrando alguns dos grandes ícones culturais que morreram nesse ano — como o próprio Cony já citado.

Dolores O’Riordan, vocalista do Cranberries, diagnosticada com transtorno bipolar, afirmava não ter controle sobre seus surtos de agressividade. “Há dois extremos na escala: você pode se sentir extremamente deprimida, e perder o interesse nas coisas que ama fazer, e logo se sentir super eufórica”, desabafou a cantora irlandesa numa das entrevistas mais emocionantes que deu nos últimos anos. “Mas você só fica nesses extremos por cerca de três meses, até que vai ao fundo do poço e cai na depressão. Quando você está transtornado, não dorme e se torna muito paranoico. E a depressão é uma das piores coisas que podem acontecer com você.” Dolores, como disseram seus colegas de banda, viverá eternamente na música. E nós, que ficamos aqui, ainda lutamos (ou não) contra os males do século.

Males que levaram também o DJ sueco Avicii, fenômeno jovem da música eletrônica. Mesmo se livrando do “trágico clube dos falecidos aos 27 anos” — onde foram incluídos nomes como Amy Winehouse, Kurt Cobain e Jim Morrison — , não se livrou da batalha exaustiva que acontece quando se trava uma guerra contra o próprio psicológico. Em conversa com o Hollywood Reporter, ele admitiu: “Os palcos não eram para mim. Mas não era pelos espetáculos nem a música, mas pelas coisas que sempre envolvem isso; não me sentia confortável. Sempre foi difícil para mim. Acho que acumulei muita energia negativa”. Para os familiares, o jovem lutou e refletiu sobre o significado da vida e da felicidade. Mas não podia mais. Queria encontrar a paz.

Anthony Bourdain

A mesma busca pela paz — em contradição com os ônus pesadíssimos que vêm junto com a fama mundial — que colocou fim à vida da estilista Kate Spade, após a exaustão causada pela pressão de sua grife famosa. Quando ela morreu, seguida em questão de dias pelo lendário chef-celebridade Anthony Bourdain, a mídia internacional começou a alertar para o crescimento (em menos de duas décadas) de 25% no número de suicídios.

Ao perder Bourdain, que utilizava sua crítica gastronômica para denunciar também a marginalização e as desigualdades sociais ao redor do mundo, “muitos dos que o assistiam sentiram também que perderam um amigo”, como bem disse o apresentador Anderson Cooper em seu programa na CNN.

Aliás, 2018 foi um ano de perdas que doem até hoje. Muitos de nós perdemos (ainda que nem todos tenham consciência disso) algum ícone que lutava por cada ser vivo. A exemplo de Marielle Franco, vereadora assassinada de maneira brutal junto ao motorista Anderson Gomes. Cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro, ela foi, sem dúvida, a maior perda que tivemos entre os defensores dos direitos humanos nesse ano. E a pergunta continua fazendo eco nas redes sociais: “Quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matar?”.

Se, no caso de Marielle e Anderson, as dúvidas aumentam a cada dia, com o Mestre Moa do Katendê a sordidez ganhou um episódio às claras: após declarar sua luta contra o fascismo, ele foi assassinado a sangue frio com 12 facadas (pelas costas!) por um eleitor de Jair Bolsonaro. Perdíamos, ali, um dos maiores mestres de capoeira de Angola da Bahia, que ajudou a formar a identidade musical afro-brasileira.

A imprensa (tanto a brasileira quanto a internacional) também sofreu suas quedas, como no falecimento de Otavio Frias Filho, diretor de redação do jornal Folha de São Paulo, responsável por implantar o “Projeto Folha” — tornando-se pioneiro do novo jornalismo brasileiro. Ainda que discordemos com frequência da postura da Folha em certos assuntos, não dá pra negar que Frias era, como disse a senadora Marta Suplicy, “uma pessoa que tinha uma autoridade, uma ousadia e uma coragem muito grandes, que, neste momento, num Brasil conturbado, vão fazer falta”.

Beatriz Segall

Lá fora, a lacuna na imprensa (ou, ao menos, em algum lugar da história da imprensa) foi deixada por Tom Wolfe, um dos fundadores do Novo Jornalismo que usava técnicas literárias para narrar fatos reais. Nesta mesma coluna da Bravo!, falamos sobre O Reino da Fala, que Wolfe lançou para desconstruir tudo que os linguistas levaram anos para construir à base de estudos. Debochado demais, superficial, cansativo, o livro não agradou. Mas ainda se tratava de Tom Wolfe.

O ano de 2018 foi de mortes que estamparam manchetes merecidíssimas (para alguns) e megalomaníacas (para outros). Com a morte de Philip Roth, os Estados Unidos perdem seu maior escritor, como disse a Folha: “A visão de Roth é menos benevolente e, no sentido kafkiano do termo, mais europeia: os seres humanos podem alimentar a ilusão de que são senhores do seu destino. Mas é a contingência que determina o que somos e, sobretudo, o que não somos. Por isso, os heróis de Roth assumem proporções essencialmente trágicas, na dimensão clássica da palavra: eles são exemplos de “hubris”, partilhando a arrogância ambiciosa de quem acredita na sua autossuficiência para enfrentar forças ou pulsões que não se controlam”.

Na dramaturgia, perdemos Beatriz Segall, a eterna Odete Roitman de Vale Tudo, que lamentava a situação dos palcos, como disse ao jornal O Globo: “O teatro está abandonado no Brasil. Não há apoio porque o teatro não dá lucro, dá apenas prestígio. Isto exigiria do Ministério da Cultura um olhar mais atento aos nossos problemas. Seria preciso rever a Lei Rouanet, para que ela oferecesse mais vantagens ao patrocínio teatral. O cinema tem a Lei do Audiovisual e o teatro não tem nada. Estamos absolutamente abandonados.”

Ainda nos palcos, o Brasil se despediu de Ângela Maria, a rainha do rádio, apelidada por Getúlio Vargas de “Sapoti”, pela cor e a voz doce. Também no topo do Monte Olimpo artístico, os fãs deram adeus à Aretha Franklin, símbolo do soul e da música negra, considerada a maior cantora de todos os tempos pela revista Rolling Stone; a Charles Aznavour, um dos mais populares e longevos cantores da França, autor de mais de mil canções; e à Montserrat Caballé, tida por alguns como a melhor soprano do século 20 e aclamada pelo encantador dueto com Freddie Mercury.

Avicii

Cada um deles — Aretha, nos Estados Unidos; Aznavour na França e Montserrat na Espanha — revolucionou sua época, em seus respectivos países. Não foi diferente entre os símbolos culturais que morreram aqui no Brasil. O escritor João W. Nery, primeiro homem transexual a realizar cirurgia de redesignação sexual no país, fará falta ao movimento que luta pelos direitos LGBT+. Zíbia Gasparetto, ainda que a obra se divida entre quem ama e quem odeia, foi divisora de águas entre os escritores da religião espírita. É inegável que a médium tornou-se, também, um nome da cultura brasileira, com seus mais de 50 livros em 60 anos de carreira.

Na adolescência, eu tinha uma camiseta com foto do Kurt Cobain e a pensata: “dê-me uma estrela, de preferência morta, que eu dou a você um mito”. Poderia ser uma frase de diálogo entre os heróis da Marvel, cujo criador, Stan Lee, faleceu em novembro passado, e será homenageado no filme Era Uma Vez Um Deadpool.

Se os ídolos, ao morrerem, viram mitos, precisamos falar sobre Bernardo Bertolucci. Um dos maiores cineastas da história, sua trajetória foi marcada também por episódios polêmicos, como a cena de estupro protagonizada por Marlon Brando e Maria Schneider no filme Último Tango em Paris. Quando foi anunciado o falecimento do italiano, vieram (ou melhor, voltaram) à tona as acusações de pessoas revoltadas com o que chamavam de “repercussão que a mídia deu a um estuprador”. Em artigo para o UOL, Caio Coletti questionou: “À luz de tudo isso, celebrar ou não a herança gigantesca de Bertolucci, um dos grandes cineastas italianos do século 20, é uma decisão tanto ética quanto artística. A dor que ele infligiu a Schneider esmaece diante de sua obra, ou é a obra que perde o sabor diante da consciência do que ele fez?”.

Eu não saberia responder com um texto pequeno. Nem quero. Este obituário coletivo, com alguns dos maiores ícones da cultura que faleceram este ano, já foi longe demais — e olhe que nem mencionei a também “morte” do Museu Nacional. O que posso afirmar é que esses nomes levaram consigo várias gerações, os tempos de ouro de suas respectivas áreas de atuação, e, arrisco cair no clichê fúnebre, devem ter ido para um cenário melhor que o nosso. Pois não sabemos o que será da cultura daqui pra frente. Não temos uma boa perspectiva de políticas culturais nesse novo governo. Vale lembrar que a cultura, enquanto DNA de um povo, precisa ser preservada para permanecer viva. Ou isso, ou ela pode ser protagonista do próximo obituário dessa coluna.

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*este colunista entra de férias e volta em fevereiro de 2019.