Os mais memoráveis de 2017

Em clima de retrospectiva, relembre cinco dos livros resenhados para a Bravo! ao longo do ano

Don DeLillo em Nova York, 1990 (Foto: Dominique Nabokov para NY Books)

Com o ano chegando ao fim, é impossível, como crítico desta coluna, não fazer uma retrospectiva de fatos marcantes na literatura. A lista é extensa: perdemos o maior crítico literário brasileiro, Antonio Candido, e também o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, criador do conceito da “modernidade líquida”, que faz cada vez mais sentido.

Entre as honrarias, tivemos Maria Valéria Rezende levando pra casa o Prêmio São Paulo de Literatura com o romance Outros Cantos; João Paulo Cuenca ganhando o Prêmio Literário Biblioteca Nacional com Descobri que Estava Morto; a portuguesa Ana Teresa Pereira como a primeira mulher a vencer o Prêmio Oceanos com seu livro Karen; nosso aclamado Silviano Santiago premiado com o Jabuti com seu romance Machado; e o nipo-britânico Kazuo Ishiguro como vencedor do Nobel de Literatura. Por falar em reconhecimento, a Academia Brasileira de Letras ficou mais rica culturalmente, com a entrada de João Almino e de Antonio Cícero.

Nessa mesma retrospectiva, é impossível não citar a fabulosa edição da Flip que Josélia Aguiar fez como curadora, com forte presença de autores negros e de mulheres na programação. Não há dúvidas que a edição 2018, que mantém Josélia como curadora, já aumenta nossas expectativas, sobretudo porque — finalmente — terá Hilda Hilst como homenageada.

Como eu disse no início, a lista de destaques deste 2017 é longa e precisaria de um texto inteiro para concluí-la. No entanto, para encerrar o ano antes do recesso (em janeiro estamos de volta) me reservo o direito de indicar outros pontos altos, ao relembrar a seguir os cinco livros que mais me chamaram a atenção, entre todos os que foram resenhados por aqui ao longo do ano.

Silvia Federici, autora de “Calibã e a Bruxa”

Calibã e a Bruxa

A historiadora italiana Silvia Federici passou 30 anos estudando a origem do sistema por um ângulo feminista, e o resultado é um livro que revela o papel (muitas vezes oprimido pelos homens) da mulher na história. Ao contar pelo olhar feminino tudo que sempre foi relatado de outra forma nas escolas e livros didáticos, a autora planta uma semente e dela brotam as questões: “Por que nunca mostraram esse ponto de vista antes? Por que deixaram esses fatos passarem despercebidos?”. E uma vez questionado isso, não tem como voltar atrás. Releia a resenha aqui.

O Raul Que Me Contaram

Indo na contramão de outras biografias que apenas reciclam fatos já relatados, o jornalista Tiago Bittencourt inovou, ao conversar com pessoas comuns, que conviveram no dia a dia com Raul Seixas, como os funcionários do prédio onde ele morava, em São Paulo, e o médico Luciano Stancka, que o acompanhou até a morte. Momentos emocionantes são relatados pelas mulheres da vida de Raul. Já a fase de altos e baixos na carreira ocupa capítulos delicados. Depois de tantos projetos destacando o lado tresloucado do maluco beleza, esta nova biografia é um deleite para quem acredita que “o raulseixismo nunca vai morrer”. Releia a resenha aqui.

Laços

O novo livro de Domenico Starnone mostra um casal comum, junto há mais de 50 anos, que ao voltar de férias encontra seu apartamento revirado. Enquanto vasculha aquela bagunça pelo chão, Aldo se depara com fotografias, cadarços, envelopes com cartas. E cada vez que um desses objetos é aberto, surgem novas formas de sofrimento: ciúme, ansiedade, raiva, humilhação, mágoas. O livro é uma história sobre o que acontece quando os padrões — familiares, sociais e morais — são rompidos. E constata-se que os mesmos laços que conciliam uma família, também servem para sufocar e torturar seus integrantes pelo resto da vida. Releia a resenha aqui.

Domenico Starnone, autor de “Laços” (Foto: Alberto Conti)

Relatos de um Gato Viajante

A japonesa Hiro Arikawa conta a história de um jovem que salva um gato vira-lata machucado, dando início a uma bela amizade. Cinco anos depois, obrigados a se separar, eles fazem uma verdadeira jornada pelo Japão. Apesar de previsível, o livro não desaponta. Ao contrário: emociona ao falar de perdas, do desespero que acompanha toda separação, e do sentimento mais puro e recíproco que muitos podem sentir: o amor dedicado ao animal de estimação criado como um membro da família. De quebra, é uma ótima lição de lucidez sobre como encaramos um fato que é a única certeza que temos na vida. Releia a resenha aqui.

Zero K

Neste romance de Don DeLillo, acompanhamos a ida do jovem executivo Jeffrey Lockhart até um laboratório de criogenia, para se despedir de sua madrasta, que está morrendo e será congelada numa cápsula criogênica para ser “ressuscitada” no futuro. Com o passar das horas, Jeffrey precisa lidar com as memórias (na maioria das vezes, dolorosas) do relacionamento com o pai. Belo e arrebatador, este livro retrata a obsessão do homem pela passagem do tempo. Nos faz pensar sobre envelhecimento, e aí vem o “choque de identidade” que o ser humano tem de que não é eterno, fisicamente falando, e do que fará com seus dias daqui pra frente. Releia a resenha aqui.

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