Outra história do cinema

A crítica Andrea Ormond diz que seu grande desafio é oferecer um olhar renovado sobre os filmes brasileiros para as novas gerações

Odete Lara em “Noite Vazia” (1964), de Walter Hugo Khouri

Por Rafael Spaca

Autora do blog de cinema Estranho Encontro, a pesquisadora, curadora e crítica Andrea Ormond está lançando o segundo volume da série Ensaios de Cinema Brasileiro, uma trilogia editada pela Editora Estronho. São textos sobre filmes célebres ou obscuros, sempre a partir de uma perspectiva original, às vezes polêmica, sobre a cultura brasileira. “Veja o caso do Walter Hugo Khouri, um diretor genial que apanhou de certa crítica ideológica. É um trabalho hercúleo corrigir tudo o que foi dito de errado e injusto, durante décadas, sobre a obra do Khouri e de tantos diretores brasileiros.” A nova edição (Os Anos 1980 e 1990), se segue a Dos Filmes Silenciosos à Pornochanchada (2016). O último volume será dedicado à produção mais recentes, do século 21.

Por que o interesse pelo cinema nacional?

Além do amor pelos filmes de qualquer nacionalidade, sempre achei que o cinema é um elemento muito subestimado na cultura brasileira. Através do cinema podemos traçar um panorama do que foi e continua sendo o país e os costumes da nossa gente. É possível pegar um filme dos anos 1980, por exemplo, e fazer várias pontes com outros acontecimentos da época: a música, a moda, a política. Então meu interesse sobrevive acompanhado de um fascínio maior, pela cultura brasileira, e passou a servir de poderoso instrumental na compreensão e no resgate dessa cultura.

Andrea Ormond

Você mantém desde 2005 o blog Estranho Encontro, exclusivamente sobre cinema brasileiro. Por que o público vai até o seu blog acompanhar as entrevistas e críticas que publica neste espaço?

O Estranho Encontro é um pouco diferente da crítica e da pesquisa tradicional: nunca falo apenas sobre cinema. Os filmes são o eixo de uma narrativa e de uma análise mais ampla sobre várias questões que me parecem importantes. Além disso, nas entrevistas com diretores, atores e técnicos também busco desvendar o lado humano e saboroso das personagens do cinema brasileiro. Acredito que as pessoas entram há 12 anos no blog principalmente por se surpreenderem. Tenho a questão da surpresa em mente desde 2005: contar uma outra história do cinema brasileiro, de uma forma que ninguém tenha contado antes.

A trilogia Ensaios de Cinema Brasileiro é uma compilação dos textos ali publicados ou tem também material inédito?

Tem muito material inédito. E quase todos os textos não-inéditos foram reescritos e ampliados para os livros. Passei os últimos seis anos conversando com quem participou dos filmes, pesquisando novas informações. Consegui depoimentos importantes, como a história por trás do Menino do Rio, revelada pelo Antonio Calmon. Os textos do blog são como uma primeira aproximação dos filmes. O que está nos livros é a conclusão daquelas ideias.

Existe uma cultura cinematográfica no público ou o que ele gosta mesmo é de ir ao cinema ver blockbusters?

A construção de uma cultura cinematográfica nasce da diversidade dos filmes a que assistimos. Então acredito que existe, sim, uma cultura cinematográfica em grande parte do público. Mas precisa ser encorajada, e aí entra o enorme papel do crítico. Blockbusters são uma facilidade. Porém, esse mesmo consumidor de blockbusters é capaz de se sentir atraído por um repertório mais sofisticado com o estímulo de um bom texto, de uma recomendação embasada. Incentivar que as pessoas tenham acesso ao maior número de filmes possíveis é o primeiro passo para que cada um crie seu próprio imaginário particular de referências, muito além dos blockbusters.

Você tem algum crítico como referência para o seu trabalho?

O crítico que mais admiro é o falecido Antônio Moniz Vianna. Além de ser uma referência, é para mim um eterno aprendizado pelo rigor, estilo e comprometimento com os filmes. A ideia de que cada obra demanda uma análise singular percebi lendo o Moniz Vianna. Também li bastante outros críticos, a maioria já falecidos: Salvyano Cavalcanti de Paiva, José Lino Grünewald, André Setaro, Rubem Biáfora. Dos vivos e atuantes, gosto do João Carlos Rodrigues, Eduardo Valente, Daniel Caetano, Inácio Araújo, nomes de gerações diversas. Tanto que convidei o João Carlos e o Valente para escreverem as apresentações dos meus livros.

Para que serve a crítica?

O cinema é um fenômeno muito amplo. São milhares de filmes, diretores, atores e histórias. A crítica serve para guiar o espectador dentro desse universo. Por isso que o crítico tem que ser, antes de qualquer coisa, um grande especialista e estudioso no assunto. Existe uma impressão errada de que a crítica serve para dizer se um filme é bom ou ruim. O crítico, na verdade, é uma pessoa que utiliza seu conhecimento para descortinar aspectos interessantes da obra cinematográfica. Não importa se o filme é bom ou ruim, isso quem decide é o espectador. Cabe à crítica oferecer informações minuciosas, provocar debates, atiçar curiosidade e imaginação. E tem que escrever sempre visando ao leitor comum. O sujeito que assistiu ao filme e quer prolongar o prazer de uma boa experiência. Ou a dona de casa, o casal de namorados, que estão na dúvida sobre a que filme assistir e necessitam de uma opinião, de uma dica especializada.

Acredita que a crítica pode impulsionar ou sepultar um filme? Ela tem esse poder?

Não, até porque o espectador leva outros fatores em consideração além da crítica. Inclusive boas campanhas de marketing. O que acontece, na maioria das vezes, é que os anos passam e o senso comum sobre determinados filmes pode acabar moldado, aos poucos, por críticas positivas ou negativas. Não é sempre que esse fenômeno ocorre, existem filmes que sobrevivem na memória afetiva das pessoas e que foram execrados pela crítica especializada. O problema é que durante 20, 30 anos, se constrói uma fortuna crítica desfavorável a um diretor ou uma obra. Aí o jovem que nasceu no ano em que o filme foi produzido vai ter toda aquela leitura a influenciar seu ponto de vista. Veja o caso do Walter Hugo Khouri, um diretor genial que apanhou de certa crítica ideológica. É um trabalho hercúleo corrigir tudo o que foi dito de errado e injusto, durante décadas, sobre a obra do Khouri e de tantos diretores brasileiros.

Você escreve também para revistas Filme Cultura, Cinética, Rolling Stone, Teorema, entre outras. Há uma carência de críticos que analisem seriamente o cinema nacional?

Se eu não achasse que essa lacuna existe, não teria começado a escrever. Temos uma carência não só de críticos que conheçam o cinema brasileiro de modo profundo, como também de bons escritores sobre o tema. O cinema brasileiro já rendeu e rende textos riquíssimos, mas é preciso saber fazer. A maioria dos críticos parece ter perdido o gosto pela escrita. E não é um fenômeno muito recente. A partir dos anos 1980, a qualidade do texto crítico de arte decaiu vertiginosamente. Outra coisa que reparo é que as pessoas começam a pensar sobre cinema sem possuir um repertório extenso de filmes, sem um pré-conhecimento do tema. Como você pode analisar cinema brasileiro se não conhece Salvá, Khouri, Xavier de Oliveira, Jean Garrett, Christensen, tutti quanti? Aí fica sempre a impressão de que a roda está sendo reinventada.

Há mais concordância ou discordância da sua visão do cinema nacional?

Quando comecei a publicar, em 2005, praticamente só havia discordância. Imagina, você falar que Eu Matei Lúcio Flávio é inesquecível! Havia um quase consenso de que muitos dos cineastas sobre os quais me debrucei eram medíocres e ultrapassados, quando na verdade o cânone estabelecido é que precisava se modificar. Além disso, eu sou mulher, criada na Zona Sul do Rio de Janeiro, formada na PUC. Falar de cinema paulista e pornochanchadas era fugir de um papel social pré-estabelecido. Apanhei bastante, embora vários críticos bem antes de mim já enxergassem qualidades nesses filmes, como o Rubem Biáfora e o próprio Salvyano Cavalcanti. E mesmo grandes pesquisadores, como o Adilson Marcelino, nunca tivessem feito distinção entre medalhões e excluídos. Se alguns torceram o nariz, aos poucos veio uma receptividade e uma compreensão ao que eu estava construindo. As pessoas começaram a acompanhar e torcer. Por isso que acho fundamental criar pontes dos trabalhos com o período em que foram feitos e com outros elementos da cultura. Assim você elimina parte do ranço preconceituoso e oferece às novas gerações um olhar renovado.

A série Ensaios de Cinema Brasileiro — Dos Filmes Silenciosos ao Século XXI é uma trilogia de livros, através da qual você conta desde o nascimento do cinema brasileiro até os dias atuais. Numa perspectiva histórica, o que se pode falar resumidamente do cinema nacional?

O que eu percebo é que as pessoas não enxergam o cinema como algo relevante. O mesmo sujeito que louva a qualidade da música, que se ufana do país, fala mal dos filmes sem conhecê-los. Existe uma intermediação artificial das elites, ditas intelectuais, operadoras do batido discurso masoquista sobre o fracasso de nossa produção fílmica. A verdade é que o povo brasileiro ama seu cinema, mas perdeu acesso a ele e continua a perder cada vez mais, ao não questionar esse paradigma estúpido que é impingido através dos tempos. O cinema brasileiro não é um fracasso ou um sucesso, ele apenas faz parte daquilo que somos e deve ser entendido. Meu resumo é que guardamos uma história que precisa ser melhor contada.

Há uma ideia que nossa história é feita de ciclos: Chanchadas, Vera Cruz, Cinema Novo, Boca do Lixo, etc. Isso é uma identidade ou falta dela?

São várias identidades, que explicam um todo. Errado é criarmos uma hierarquia entre esses ciclos, acreditando que um ou outro foi ápice ou degeneração. São todos fenômenos da nossa cinematografia. Como eu disse, a serem estudados.

Qual foi ciclo mais fecundo do cinema nacional?

Não é possível escolhermos um ciclo sem cair em certa paixão, ou leviandade. É provável que a Boca do Lixo paulistana, em retrospectiva, tenha sido o ciclo mais potente e diverso, por consequência o grande marginalizado pela história oficial. Prefiro dizer que o ciclo da Boca é o que ainda guarda mais segredos e descobertas.

A Argentina tem uma ideia de cinema muito mais sólida do que a nossa. Por que isso acontece e nós não conseguimos?

O cinema argentino é ótimo, teve diretores excepcionais e até hoje igualmente subestimados como o David José Kohon e o Manuel Antín, repetindo o fenômeno brasileiro de uma fortuna crítica a ser renovada. Porém, nos últimos 20 anos, alguns filmes argentinos conseguiram grande visibilidade e reconhecimento internacional, deixando a impressão de que precisamos imitá-los. Acho o etnocentrismo invertido em relação aos argentinos uma bobagem. Nosso maior trunfo é justamente a complexidade da produção brasileira atual, com sotaques e ideias diversas. Mas o Brasil não é para principiantes e se faz necessária uma política de valorização cultural, para que o cinema tenha o lugar que lhe cabe em nosso imaginário.

É importante que tenhamos uma política de cinema. Dá para implantar uma indústria cinematográfica no país?

O cinema brasileiro emprega milhares de pessoas. Essa indústria já existe. Temos que lutar para que se amplie cada vez mais. O que o Estado perde com renúncia fiscal, que é o grande mimimi de certos setores da opinião pública, retorna multiplicado para a economia. Só um exemplo: observe a movimentação financeira gerada por uma produção de cinema, seja a realização de um filme ou mostra. Centenas de pessoas se locomovendo, hospedando-se em hotéis, almoçando em restaurantes. Tem que ser muito burro para não perceber isso. A gente falou sobre a Boca do Lixo. Trabalhei muitos anos no centro de São Paulo e não entendo como aquela região, que já abrigou um dos maiores polos cinematográficos do mundo, não é revitalizada ao menos como ponto turístico. Poderiam colocar placas indicativas, criar uma calçada da fama, trocar os nomes de algumas ruas para homenagear cineastas. Existem muitas coisas a serem feitas para capitalizar o cinema, de hoje e de ontem. Falta boa vontade, ou inteligência.

A comédia é o nosso grande gênero ou a nossa grande vocação?

Eu acho que a nossa grande vocação a ser explorada é o cinema de crimes, pois somos um dos países mais violentos do mundo. Além disso, a crônica policial brasileira é riquíssima. Dá para fazer um filme sensacional de cada livro do Valério Meinel, para citar só um autor, e ninguém faz. Poderíamos ter dezenas de Tarantinos e Paul Schraders. O que acontece é que as comédias sempre foram bem utilizadas para um retrato mais imediato da sociedade brasileira, veja o caso agora das moneychanchadas, ou mesmo desses filmes sobre emancipação feminina, como De Pernas pro Ar. Criou-se a tradição da comédia nos legar os melhores registros das épocas e a tradição permanece.

Você analisa filmes célebres e filmes obscuros. Sua escolha parte de qual perspectiva para selecionar um filme a ser avaliado?

Minhas escolhas seguem um método. Ao tentar dar conta de um “todo”, no caso o cinema brasileiro, você tem que fazer escolhas. Logo, se eu já falei bastante de um diretor ou período histórico no blog, é hora de falar de outros. No caso dos filmes recentes, escrevo muita coisa e deixo inédita, para sair futuramente em livro. O que publico do panorama atual na Revista Cinética é o que acredito necessitar de um olhar mais urgente. Não levo em consideração a fama desse ou daquele título. É a partir da minha visão particular do todo que procuro elaborar as análises.

Um filme deve ser avaliado além da película? É preciso ver o contexto histórico em que está inserido?

Sim, claro. O filme não surge do etéreo. Todo um contexto pessoal, social e histórico precisa ser analisado. Como disse o Eduardo Valente, no texto que escreveu no primeiro volume dos Ensaios, chego às raias da obsessão quanto a esse aspecto de contextualização. Não me sentiria à vontade de escrever sobre um filme sem fazer um extenso trabalho de pesquisa.

O público sempre reclamava dos áudios dos filmes, dizendo que muitos diálogos eram inaudíveis e a crítica sempre se queixava, principalmente, dos roteiros. Isso mudou?

Lembrei da história de Cinema Falado, do Caetano Veloso. A grande reclamação dos espectadores era que, em um filme de discursos e conversas, não se ouvia nada (risos). Nesse mesmo filme, o Caetano faz uma crítica inteligente à forma literária de alguns roteiros nacionais, principalmente do Cinema Novo. Até na pornochanchada você tinha esse fenômeno, a Monique Lafond sofre para se explicar em Giselle (risos). Nem todo mundo possuía o talento coloquial do Nelson Rodrigues, do Antonio Calmon ou do Leopoldo Serran. Melhorou bastante nos filmes atuais, mas vejam Como Nossos Pais, da Laís Bodanzsky. Tem situações dignas de Giselle.

Hoje quais são as maiores reclamações e os maiores elogios?

Persiste um certo cacoete do discurso, do palavrório. A palavra mal fluida substituindo a imagem. Também incomoda o bom mocismo excessivo, o politicamente correto. Mas isso virou praga mundial, os cineastas brasileiros não têm culpa sozinhos. Por outro lado, o padrão técnico das produções melhorou bastante. Outra velha frase do passado era “cinema brasileiro é tosco, malfeito”. Hoje existem novas implicâncias, mas essa passou. Em compensação, perdemos parte da ousadia do passado.

O que foi pior: a criação da Embrafilme ou o fim dela?

Olha, nós estamos mais perto do que imaginamos de acontecer outra tragédia ao cinema brasileiro, semelhante à da Lei 8.029/90, do fim da Embrafilme. Basta que algum maluco vença a eleição para presidente no ano que vem, não vamos citar nomes. A Embrafilme podia ter defeitos, desperdício de dinheiro, alucinações e compadrios. Mas o resultado final do seu legado corresponde a uma era de ouro para a nossa produção. Circunstâncias políticas e econômicas passam. Os filmes permanecem.

Quais foram os nomes mais importantes do cinema nacional no século passado e os que podem se tornar os grandes nomes neste século?

Para mim o maior cineasta brasileiro de todos os tempos foi Walter Hugo Khouri. Sua obra é imensa, repleta de segredos e significados. Nelson Pereira, Carlos Hugo Christensen, Carlos Reichenbach não ficam muito atrás. Humberto Mauro, Lima Barreto. Dos nomes surgidos nos últimos anos gosto principalmente do trabalho do Marco Dutra e da Juliana Rojas. Anna Muylaert, Kleber Mendonça Filho e Selton Mello também caminham para estar entre os grandes. Espero que surjam outros, e outros. Estarei aqui para escrever sobre eles.

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