Palmas e mais palmas

Aplaudir espetáculos de dança é uma forma de reconhecimento, mas está longe de ser uma manifestação de espontaneidade

Todos de pé!

Por Henrique Rochelle

Nós aplaudimos demais a dança. Que não se entenda com isso que essa arte e seus artistas não são dignos de aplauso: sabemos daquilo que, como audiência, recebemos na troca com os artistas em cena; mais que isso, sabemos da dificuldade de produzir arte, de viver de arte, de colocar arte em cena, continuamente, ao longo de pesquisas, e atravessando gestões e tantas situações de austeridade; também sabemos das especificidades de assistir às apresentações, dos deslocamentos, do tempo, do investimento pessoal e financeiro — mesmo quando recebemos de volta grandes retornos estéticos.

Existe de ambos os lados — artistas e públicos — um interesse notável e uma dedicação ainda maior pelo sucesso dos espetáculos. É através deles que deixamos de lado o cotidiano e, por um certo tempo, compartilhamos de um universo, construído e planejado com o objetivo de nos afetar. Compartilhamos espaço, ambientação e propostas que são tão específicos quanto as opções de obras e apresentações em oferta.

Frente a esse trabalho longo, dedicado e particular de cada espetáculo, como nos — público– reagimos? Ao final de um tempo (bastante padronizado), ficamos em pé, aplaudimos, e voltamos para o cotidiano.

O aplauso não é o pagamento do artista — que pode até viver para o aplauso, mas não conseguiria viver dele. O aplauso completa o ciclo da dádiva — do dar, receber e retribuir — observado tanto na teoria da hospitalidade quanto nas apresentações de artes da cena, e especificamente de dança por Isaira Oliveira em seu livro Recepção em Dança. Assim, o aplauso se liga à função fática da linguagem — aquela que trabalha o canal pelo qual uma mensagem é transmitida, estabelecendo, prolongando ou interrompendo a comunicação (e, portanto), o contato, entre o emissor e o receptor, entre artistas e plateias.

Patrice Pavis nos diz que, através do aplauso, o espectador diz aos artistas “eu os recebo e os aprecio”, “eu rompo a ilusão para dizer-lhes que vocês me dão prazer ao me dar ilusão”. Não se trata, então, nem de um pagamento, nem exatamente de um agradecimento, mas de uma forma de reconhecimento, que identifica que aquilo que foi oferecido nos afeta, nos provoca, dá prazer, encanta, perturba, enfim: nos tira do cotidiano e nos proporciona algo que não poderíamos obter sozinhos, e que está além das noções de serviço prestado, do valor do ingresso, e do cachê pago aos envolvidos.

O aplauso exerce, portanto, um papel importante no ciclo da recepção da obra: através dele o público pode se expressar, imediatamente, sobre aquilo que presenciou. Ele não é, no entanto, manifestação absoluta de espontaneidade, porque sempre foi, e continua sendo, manipulado. Desde a presença dos claques — pagos para reagir entusiasticamente às obras que serviram para moldar a percepção e criar uma certa apreciação onde ela não necessariamente está — até os rituais de longos e encenados agradecimentos pelos artistas no palco, podemos ver o aplauso escapando de seu ciclo de dádiva e adentrando um aspecto de especulação, no qual certos valores e percepções são intencionalmente inflacionados.

Coação e furor

Ainda que formado por indivíduos, o público e as plateias por vezes reagem em bloco, coletivamente. E basta desviar o olhar do palco durante os aplausos para ver, por exemplo, que há no público uma parcela daqueles que pulam de pé para aplaudir efusivamente — quase que arrancados de suas cadeiras pela apresentação e sua potência — , e uma outra parcela que parece se sentir obrigada, constrangida a se levantar. Para além disso, outras tantas estratégias criam rituais que mantêm o público aplaudindo enquanto os artistas agradecem, e, por sua vez, os artistas agradecendo enquanto o público aplaude, num ciclo que nem sempre corresponde à uma apreciação honesta.

Investigando diversos espetáculos, Isaira Oliveira pode observar que o aplauso na dança contemporânea frequentemente escapa à função fática, e parece ser de fato mais denotativo: é ele que, junto do agradecimento dos artistas, identifica que a obra finalizou. Nos casos que a pesquisadora investiga, também foram encontradas ocasiões em que aplausos aparecem durante o desenrolar das apresentações, “não indicando que aquele momento foi grandioso, digno de aplauso, mas indicando a ausência aparente de entendimento do espetáculo”.

Nesses casos, o efeito da coação do conjunto se aplica ainda mais intensamente: aplaudimos não porque gostamos do que foi apresentado, tampouco porque entendemos, mas porque os outros estão aplaudindo, e porque os artistas estão agradecendo. Em sua análise do público da dança, Oliveira observa que essa característica é quase homogênea: o público de dança, em geral, permanece no espetáculo até sua finalização, mesmo quando a obra não agrada, e, quando os artistas agradecem, aplaude de pé.

O que volta ao ponto: aplaudimos demais a dança. Esse efeito é negativo, nem tanto por uma questão da quantidade dos aplausos, mas por sua indistinção. “A indulgência com que o público aplaude simples esboços deveria (…) levar o artista a buscar a perfeição. Os elogios devem encorajar e não deslumbrar, a ponto de nos convencer de que tudo já está feito, de que atingimos o ponto máximo a que se pode chegar”. E, no entanto, o público “gosta de viver numa doce ilusão e persuadir-se de que o gosto e o talento de seu século é bem superior ao dos séculos anteriores. Aplaude, por conseguinte, com furor”.

Se continuamos sempre de pé, sempre efusivamente celebrando o que quer que seja apresentado, em certa medida não celebramos, de fato, coisa alguma.

Essas duas últimas citações, bem cabíveis às plateias de hoje, não são, no entanto, recentes: foram publicadas em 1760 por um dos primeiros reformadores do balé, Jean-Georges Noverre, que já observava o problema dos aplausos efusivos na dança, como um “bater de mãos aleatório, sem nenhum critério”. O que Noverre então notava era que o aplauso indistinto não permitia uma percepção do gosto e da apreciação do público.

Continuamos longe de solucionar esse problema. Patrice Pavis discute mais profundamente, e tendo em vista produções mais atuais, a questão da necessidade de entendimento das estruturas da linguagem teatral para a apreciação da encenação. A essa questão, somam-se certas particularidades da produção contemporânea de dança, nas quais Oliveira nota propostas “tão inovadoras” que por vezes o público nem mesmo é capaz de identificar que a obra terminou, ou de dizer o que aquilo lhe causa.

Não há, em si, problema nenhum em provocar, confundir e incomodar o público. Precisamos (e queremos) um tanto de incompreensão, que nos mostram, também, que estamos caminhando por novas propostas, e não apenas sobre construções edificadas e repetidas à exaustão. O problema é que, assim como propostas incompreendidas se desgastam, também se desgastam aplausos indiscriminados.

Se continuamos sempre de pé, sempre efusivamente celebrando o que quer que seja apresentado, em certa medida não celebramos, de fato, coisa alguma. Não estamos retribuindo algo que recebemos das obras, mas oferecendo os aplausos como se fossem um pagamento, já imputado ao valor do ingresso. E esse tipo de aplauso nada nos diz sobre as dinâmicas das relações palco-plateia, sobre aquilo que se passa entre espectador e artistas. Ambos, espectadores e artistas, merecemos mais que isso. Não apenas mais aplausos, mas aplausos mais carregados de sentido.

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Henrique Rochelle é crítico de Dança, membro da APCA, Doutor em Artes da Cena pela Unicamp, pós-doutorando pela USP, e editor dos sites Da Quarta Parede e Criticatividade

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