Pepetela, passado e futuro

Jorge Nogueira/Divulgação

Pouco conhecido no Brasil até pouco tempo atrás, o angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos — ou simplesmente Pepetela — será nada menos que um dos escritores da África mais lidos no país até o fim deste ano. A razão é a inclusão do seu romance Mayombe na lista de leituras obrigatórias da Fuvest. Não é pouca coisa: trata-se da primeira obra africana a figurar na relação. Publicado em 1980, o livro se baseia na experiência do autor na guerra de independência de seu país nos anos 70, nas fileiras do MPLA — Movimento Popular para a Libertação de Angola.

Nesta sexta-feira, às 19h, vestibulandos e não-vestibulando ainda podem conferir ao vivo o que o escritor tem a dizer sobre o papel das questões políticas e sociais na criação literária, na 8a edição da Tarrafa Literária — Festival Internacional de Literatura (www.tarrafaliteraria.com.br), em Santos (SP). A mesa, intitulada Dois Países, Uma Língua, conta também com a participação do brasileiro Julián Fuks, autor de A Resistência.

Em entrevista a Bravo!, Pepetela fala sobre o tema do engajamento, suas expectativas em relação à leitura de Mayombe pelos estudantes brasileiros e de seu romance mais recente, Se o Passado não Tivesse Asas.

Como tem sido a recepção de Se o Passado não Tivesse Asas?

O livro foi publicado este ano em Angola e em Portugal e teve boa recepção, embora vá havendo cada vez menos recensões críticas, como se a literatura estivesse passando de moda. Trata de um episódio chocante originado pela guerra civil, felizmente ultrapassado, onde havia muitas crianças perdidas pelas ruas de Luanda, vivendo sem lar. Por outro lado, episódios mais recentes da sociedade de classe alta da capital, “os filhos do regime”, como alguns chamam. Essas duas estórias se encontram e completam. Deve ser publicado no Brasil — espero que este ano — mas não me indicaram ainda a data.

O que você espera — ou imagina — da leitura dos estudantes brasileiros a Mayombe, incluído na lista da Fuvest?

Sem dúvida que é um desafio interessante de seguir. O livro foi pela primeira vez publicado cá no princípio dos anos 80 do século passado. Livro de fora, numa língua parecida, mas não exatamente igual, tratando de uma guerra estranha… deve causar um pouco de confusão nos jovens leitores brasileiros e por isso estou curioso para ver se eles conseguem se deixar levar por essa experiência e apreciarem o que tentei dizer… Espero sobretudo que essa leitura os faça se interessar por outros mundos de língua portuguesa, sobretudo africanos.

Qual importância de um escritor africano ter entrado, pela primeira vez, nessa lista?

Em primeiro lugar devo dizer que isso marca uma nova compreensão do Brasil em relação aos povos africanos que tanto contribuíram para a formação da nação brasileira, verdade invocada em muitos discursos, mas por vezes esquecida na prática. Portanto, me parece — independentemente de quem fosse o autor — que é uma marca de mudança e isso é importante, pois tem reflexos na maneira como é vista e aceite sem reservas a parte da população brasileira que tem antepassados africanos. E é o Brasil reconhecendo suas raízes múltiplas.

Como está o processo de consolidação na democracia em Angola?

O processo ainda está no começo e com uma grande lentidão. Há eleições (e estão marcadas novas para o próximo ano), mas as eleições são um fator apenas da democracia. Falta ainda muita coisa para dizermos que de fato temos plena liberdade de associação, de expressão do pensamento e instituições a criarem uma igualdade de oportunidades para todos.

Como você vê o engajamento político na literatura?

Alguns acham que uma literatura com engajamento político é pobre, tropeçante. Outros, pelo contrário, só consideram a literatura quando ela tem um engajamento assumido. É claro que quando se escreve se quer dizer alguma coisa, isto é, se quer transmitir uma ideologia. Mas pode não ser o mais importante e o determinante para definir uma literatura ou um escritor. Acho que qualquer literatura vai mudando conforme se vai transformando a sociedade que a originou e a vai influenciando. Já Camões dizia: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Eu acrescentaria: a literatura também.

Que autores de língua portuguesa influenciaram na sua formação?

Angola era uma colônia de Portugal e portanto a escola era portuguesa. Nesse contexto, líamos e estudávamos a literatura desse país, mas só até Eça de Queirós (este quase excluído). No meu tempo parava aí. Nunca entendi muito bem por que isso prejudicava a ditadura existente. Mas significou para mim que não li os escritores portugueses depois de Eça. E sobretudo desconheci muitos do século 20 que só muito mais tarde vim a ler. Ficaram aliás alguns de fora, sobretudo da escola neo-realista, importante movimento literário. Aconteceu o mesmo para muitos escritores angolanos dos séculos 19 e 20, meus mais-velhos, que só vim a conhecer posteriormente. Quer dizer que, se fui influenciado, terá sido pelos portugueses do século 19 e por angolanos e brasileiros do seguinte, sobretudo Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, mais tarde Guimarães Rosa… Como muitos outros da minha geração.

E quais, entre os contemporâneos, você lê?

Hoje o contexto é diferente e já é possível conhecer os escritores de todos os países que escrevem em português, embora muitos sejam menos conhecidos porque há dificuldades econômicas que reduzem a edição. São muitos escritores para mencionar. No entanto, vou seguindo, na medida do possível, o que se produz nos nossos países.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.