Crítica: “Pessoas Brutas”

Os Satyros chegam à centésima montagem dissecando a solidão dos que buscam bengalas na multidão

Foto: André Stefano

Por João Luiz Vieira*

O teatro surgiu de um diálogo entre iguais. Um propôs uma reflexão, o outro acatou o desafio. O nascimento da necessidade de expressão de uma situação cotidiana que se deu entre dois, quase concomitantemente com a origem da nossa espécie, através desta arte quase tão antiga quanto o desenho, o homem encontrou um canal de comunicação que, consistentemente ou não, perdura hoje, 27 séculos depois.

O modelo de troca de informações começou com danças dramáticas para só depois, na Grécia, surgir o “ditirambo”, tipo de procissão informal que servia para homenagear o deus Dioniso. A seguir, criou-se um coro formado por coreutas e pelo corifeu, que cantavam, dançavam, contavam histórias e mitos relacionados aos deuses e, por fim, a consolidação da expressão cultural através da ação e os primeiros textos.

Esses dois parágrafos de resgate histórico são um recuo para o avanço: qual diálogo os artistas envolvidos com o teatro querem promover hoje em dia, e qual sua relevância efetiva diante de um mundo muito mais complexo que à época dos autores de Prometeu Acorrentado (Ésquilo), Édipo Rei (Sófocles) ou As Troianas (Eurípedes)? Por que propor uma discussão sobre x e não sobre y, ou será que a voz emudeceu nesse tipo de linguagem artística?

Pessoas Brutas, a centésima montagem do grupo Os Satyros, que existe há 28 anos e tem residência em São Paulo, é uma das mais interessantes propostas de diálogo em cartaz no momento na cidade. Nos últimos 12 meses foram oito trabalhos desta companhia, o que não é pouca coisa em época de retração econômica, mudanças sequenciais de dirigentes nas instituições culturais, do município a Brasília. Um trabalho de resistência que, me parece, tem como urgência essa necessidade de provocação. Os atores são muitos, o público, cativo, e a produção, regular.

Julia Bobrow, grande destaque do elenco/Foto: Andre Stefano

A grande virada foi em 2004, quando o grupo montou Transex, o primeiro espetáculo em que abordava a questão das travestis e transexuais na região da Praça Roosevelt, 13 anos antes de o assunto ser assunto em novela da TV Globo. Espetáculos como A Vida na Praça Roosevelt(2005), Hipóteses para o Amor e a Verdade(2009), entre outros, também tratavam das questões dos moradores do entorno da Praça Roosevelt, no centro da capital paulista, ou seja, minha aldeia, meu mundo, e da minha aldeia para o mundo, visto que a companhia tem considerável experiência no exterior.

Uma das dialéticas dessa última produção é que, completando a trilogia formada por Pessoas Perfeitas (2014) e Pessoas Sublimes (2016), Pessoas Brutas é uma peça quase que construída a partir de monólogos e solilóquios. Mesmo quando as personagens travam algum tipo de raciocínio, simulam representar um diálogo de surdos, onde o que se diz vale mais do que o que se escuta, como se os olhos alheios fossem apenas espelhos. A contemporaneidade, em seu sumo, resulta em bilhões de seres humanos em estado ensimesmado, em que a multidão revelou-se massa coesa de solitários.

Pessoas Perfeitas, que abordava questões familiares no âmbito dos solitários da cidade de São Paulo, levou prêmios de Melhor Espetáculo, da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), e Melhor Dramaturgia, do Shell. Pessoas Sublimes, espetáculo que retratava a solidão e a relação entre o mundo dos vivos e dos mortos, não teve trajetória tão destacada no círculo da crítica, mas também provocou reações positivas da plateia.

Pessoas Brutas é um salto. Realizado após pesquisa realizada sobre a dependência química e psíquica de moradores da maior cidade da América Latina, o trabalho expõe a pungência dos mortos-vivos, dos que estão sem serem mais. A trilogia de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez expõe essa incomunicabilidade usando bisturi na língua dos atores.

A crise de valores exige uma reinvenção da ética humanista, um ponto de ruptura em que o mergulho para dentro será um banho de reaquisições existenciais. As três peças, mas muito especialmente Pessoas Perfeitas e Pessoas Brutas, assim como o tempo de agora, não querem dialogar, querem exigir que nos repensemos através dos olhos dos atores, de nossos espelhos.

Ivam Cabral, outro grande destaque do elenco, também é coautor do texto/Foto: Andre Stefano

Serviço:

Pessoas Brutas

Texto: Ivam Cabral e Rodrigo García Vázquez

Direção: Rodolfo García Vázquez

Elenco: Ivam Cabral, Eduardo Chagas, Julia Bobrow, Henrique Mello, Robson Catalunha, Fabio Penna, Sabrina Denobile, Felipe Moretti, Lorena Garrido, Alex de Jesus e os atores convidados Gabriela Veiga e Junior Mazzine.

Cenários: Marcelo Maffei

Figurinos: Bia Pieratti e Carol Reissman

Perucas: Lenin Cattai

Iluminação: Flavio Duarte

Sonoplastia: Ivam Cabral

Fotografias: Andre Stefano

Produção Executiva: Silvio Eduardo

Coordenação de Produção: Daniela Machado

Operador de Som: Diego Ribeiro

Operador de Luz: Israel Silva

Local: Espaço dos Satyros Um (Praça Franklin Roosevelt, 214 — Consolação)

Temporada: Quartas, Quintas e Sextas, às 21h — até 28 de Julho de 2017

Duração: 110 minutos

Classificação: 14 anos

Ingressos: R$ 20,00 (inteira) / R$ 10,00 (meia-entrada)/ R$ 10,00 (moradores da Praça Roosevelt)

Reservas: 11 3258 6345 / 3255 0994

*João Luiz Vieira é jornalista, dramaturgo, roteirista e educador sexual, tendo sido de crítico teatral do Jornal do Commercio, do Recife, entre 1992 e 1998. Ele tem dois livros lançados como coordenador de texto: “Sexo com Todas as Letras” (e-galáxia, fora de catálogo) e “Kama Sutra Brasileiro” (Editora Planeta, 176 páginas), é sócio proprietário do site paupraqualquerobra.com.br e do canal sexo_sem_medo, no YouTube.