Ponto de observação

Crítica: com seus planos fixos, “Temporada”, de André Novais Oliveira, revela a realidade na periferia de Contagem seguindo os passos de uma agente de endemias

Cena de “Temporada” (Foto: Divulgação)

A fabulação chegou ao novo realismo mineiro. Depois que Affonso Uchoa migrou da observação demorada de personagens da periferia de Belo Horizonte para um épico operário na passagem de A Vizinhança do Tigre (2016) para Arábia (2017), André Novais Oliveira opera mudança semelhante entre seu longa de estreia, Ela Volta na Quinta (2015), e Temporada, aclamado no Festival de Brasília de 2018 com quatro prêmios, incluindo os de melhor filme e de melhor atriz, entregue a Grace Passô.

Enquanto Ela Volta na Quinta era doméstico, protagonizado pelo próprio diretor e por membros da sua família, Temporada cede terreno a uma personagem construída de modo convencional, ainda que cercada por dados de realidade que alimentam o interesse pelo filme. Na trama, acompanhamos Juliana (Passô) na sua adaptação à cidade de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde foi aprovada em um concurso para trabalhar como agente de endemias. Sem o marido, que ficou em Itaúna com a promessa de se mudar logo, ela tem de se virar sozinha, contando apenas com a ajuda da prima para alugar uma casa.

Nos primeiros dias, Juliana passa boa parte do tempo a sós com o celular: coloca-o dentro de um balde para ouvir música mais alto, envia mensagens de áudio à procura do marido e move o dedo pela tela enquanto vê memes em redes sociais. Em um deles, a imagem de um gato de óculos lendo jornal é acompanhada pela legenda: “Aí você chega em casa, faz um café, senta na poltrona e não tem ninguém pra conversar. Você quem decide se isso é solidão ou liberdade.” Aos poucos, o isolamento de Juliana é mitigado pela camaradagem dos colegas de trabalho, como o bem-humorado Russão (Russo Apr), e por alguns dos moradores em cujas casas entra à procura de focos do mosquito da dengue.

André Novais Oliveira e parte do elenco já trabalharam — ou ainda trabalham — como agente de endemias em Contagem, fato que empresta uma aura de
autenticidade às cenas. Mais do que um dado sociológico, porém, a escolha de
narrar a história a partir do ponto de vista de uma trabalhadora andarilha sobressai no plano propriamente cinematográfico.

Supondo que os criadores de Temporada tiveram a intenção de mostrar a realidade da periferia para além do registro documental, a escolha de uma agente de endemias como protagonista se justifica pelo seu constante movimento: de casa em casa, conhecemos particularidades de moradores e suas famílias sem jamais abandonar a ficção — reforçada pelo distanciamento imposto pelo clarinete de Maria Beraldo e pela música de Pedro Salles Santiago. No conjunto das andanças, porém, compõe-se um pequeno mosaico social.

Exemplo maior desse exercício de observação social incorporado à narrativa é a cena em que Juliana supera o medo de altura, derivado da labirintite, para subir na laje da casa de um morador. Lá do alto, vê as casas que visita multiplicadas em visão panorâmica, saltando aos olhos — dela e dos espectadores — a dimensão coletiva daquela realidade. Na ocasião, Juliana também é apresentada às mudanças pelas quais passou a região em anos recentes: o número de moradores aumentou e o comércio local, antes inexistente, desabrochou. Vencida a tarefa de inspecionar a laje, parte para a próxima casa mais informada sobre o lugar onde pisa.

A mobilidade inerente à profissão de Juliana não é apresentada na forma que lhe seria correspondente, com a câmera na mão perseguindo seus passos. A opção de Oliveira é quase sempre pelo plano fixo, que favorece o cinema de observação. Auxiliada pela montagem desapressada e pela intermitência dos diálogos (cujo efeito é naturalista), a câmera estática permite ao espectador perscrutar os personagens nos seus gestos, respiros e pausas — tanto mais do que naquilo que dizem.

Quem assiste ao filme é mesmo convidado a sentar-se na ponta da cadeira, a
aproximar-se do que vê para escutar o que aqueles corpos dizem, pois, para além dos recursos técnicos de filmagem e edição, a própria construção da personagem de Juliana erige uma mulher silenciosa e discreta, que fala somente quando necessário. Além disso, ela é nova no lugar e na profissão, o que a coloca duplamente na condição de ouvinte interessada em conhecer o outro e o seu espaço, que somente aos poucos torna-se também dela.

Trailer de “Temporada”

Precisão de gestos

Para quem já viu Grace Passô nos palcos, impressiona vê-la reduzindo os gestos e interiorizando a interpretação em Temporada. Se no teatro a sua atuação é uma combinação explosiva de expressionismo gestual com dramaturgia fragmentária e poética (como no monólogo Vaga Carne, escrito por ela), aqui a sua interpretação vai ao rés do chão para equalizar com a dicção cotidiana daqueles com os quais contracena.

O olhar atento, porém, registra o poder expressivo que a atriz encontra no mínimo. Na cena de maior teor dramático, quando ela conta à prima o episódio que abalou o seu relacionamento com o marido, a dimensão do sofrimento de Juliana aparece menos na sua fala, eivada de interrupções e elipses, e mais no silêncio que antecede a chegada do trauma à palavra, no gole lento de cachaça, no olhar à procura de empatia. Quando termina de falar e come um salgadinho, é como se engolisse em seco a própria dor.

Essa precisão nos gestos também contribui na sequência que embaralha o real e o fictício de forma mais comovente. Ao terminar a inspeção da casa de uma senhora, esta insiste para que Juliana fique para um café e um bolo. À essa altura da narrativa, já sabemos que ela perdera a mãe, o que os seus olhos d’água insistem em lembrar ao percorrer as fotografias de família pregadas na parede enquanto aguarda os mimos. A figura acolhedora é interpretada por Maria José Novais Oliveira, mãe de André e a quem o filme é dedicado. Em uma sequência adiante, Juliana guarda o retrato antigo de outra mulher negra que encontrou num armário usado. Inventa uma nova filiação, tornando outra história parte da sua, em um fragmento que fala ao todo de Temporada.

Filmes como os de André Novaes Oliveira, Affonso Uchoa, Juliana Antunes e
Adirley Queiroz podem ser lidos como uma resposta tardia do cinema brasileiro contemporâneo à demanda por representação direta nas artes e na política. Afinal, os favela movies da Retomada eram pares falsos do rap nacional que eclodiu nos anos 90. Enquanto grupos como os Racionais MC’s representaram a chegada de uma visão original do país recém-redemocratizado desde a periferia, títulos como Cidade de Deus alimentaram estereótipos e glamourizaram a miséria através das lentes de diretores de classes abastadas. Por outro lado, Temporada foi lançado no momento em que as mudanças sociais que impulsionaram a sua produção — e em grande medida aqueles representados na tela — se encontram ameaçadas.

Durante um passeio com os colegas de trabalho para uma cachoeira, já com os cabelos soltos e bem adaptada à vida em Contagem, Juliana conta a história de quando era criança e parou de falar, sem razão aparente. Só voltou quando viu subir fumaça da casa da senhora que a tentava ajudar. Diante do perigo, gritou. Será que esta passagem da solidão para o exercício de uma liberdade possível, da qual dão prova o filme e a sua protagonista, vai durar só uma temporada?