Por uma solidariedade flexível

Socióloga Patricia Hill Collins fala sobre as visões de democracia em jogo nos EUA e Brasil e importância da arte

Foto: Evelson de Freitas

Autora do já clássico Black Feminist Thought, livro que deve ganhar tradução em breve no país, e de Black Sexual Politics: African Americans, Gender and the New Racism, a socióloga norte-americana Patricia Hill Collins, uma das principais vozes dos estudos sobre o feminismo negro, esteve em São Paulo na última semana para o encontro Nós Tantas Outras, realizado pelo Sesc. Na sua fala, na abertura do evento, lembrou da importância de movimentos — como o feminista — fazerem uma atualização e reavaliação constante, atentos aos momentos históricos. Mais recentemente, por exemplo, ela tem defendido a ideia uma solidariedade “flexível” [“flexible solidarity”], em uma versão mais maleável da “solidariedade negra” ou “solidariedade racial”, conceito chave do seu livro mais famoso. A Bravo! encontrou Hill Collins para uma conversa sobre feminismo, o uso da memória e como isso pode ser, também, associado à arte na luta por uma sociedade mais justa.


Você poderia falar um pouco mais sobre o conceito de solidariedade flexível?
A noção de solidariedade flexível, na forma como estou usando, diz que a solidariedade não precisa ser uma uniformidade, que sempre concordamos em tudo, que temos uma agenda comum, um programa comum. A visão regular da solidariedade diz que há uma ideologia ou pontos de vista e para ser solidário é preciso concordar. Eu estou olhando para algo um pouco diferente em termos de como você constrói a solidariedade. E o processo de solidariedade envolve ser flexível. O que isso pode significar é que, em algumas questões, você concorda; com outras questões, não concorda. E essas estratégias devem corresponder à situação. Eu uso o exemplo das mulheres negras. Mulheres negras que estão em aliança com homens negros em lutas contra o racismo vão compartilhar um compromisso com o anti-racismo. Mas eles terão uma perspectiva diferente sobre o significado dessa luta. Portanto, a luta contra o racismo não pode ser eficaz se apenas os homens estiverem decidindo como ela será. Se apenas os homens decidirem que a luta contra o racismo tem que lidar com suas experiências como negros e não escutarem o fato de que as mulheres negras têm experiências distintas com o racismo, então você obtém uma forma menor ou menos efetiva de solidariedade política. Mas se ambos os grupos forem flexíveis e encontrarem formas de se ouvirem uns aos outros e apoiar as experiências do programa anti-racista do outro, pode-se obter um programa anti-racista mais forte, que reflita essas diferenças. Então, às vezes, para as mulheres negras, isso pode significar trabalhar em solidariedade com os homens negros, e outras vezes, pode significar estar em conflito com eles, em torno de certas questões. Então ambos os lados têm de ser mais flexíveis, em vez de decidir que há apenas um jeito certo de fazer as coisas.

Em seu trabalho, você traz de volta algumas teorias de outras mulheres negras feministas da história. É um processo de recuperação que é muito interessante, como se houvesse uma memória coletiva compartilhada. Qual é a importância de se fazer isso? Penso em outros movimentos na arte que também o fazem, como os samples no rap, por exemplo, trazendo de volta a memória da black music.
Bem, a importância da memória é, antes de mais nada, a de nos fazer permanecermos conectados ao que aconteceu no passado e fazer frente contra o mundo contemporâneo, que tenta nos convencer que tudo é novo e todas as ideias de agora são ideias novas. A lembrança, a volta, a redescoberta é quase um retorno a uma experiência coletiva [re-membering]. Desmontando e juntando as ideias do passado para que elas possam abordar as realidades contemporâneas, você está em um terreno muito mais firme. Você não está apenas copiando o que as pessoas fizeram no passado, mas está criativamente pensando em novas maneiras de refletir sobre essas ideias no presente. E esse tipo de memória e lembrança pode ser realmente importante para as pessoas em um mundo onde não parecem haver mais âncoras que nos mantêm fixos. Bairros, comunidades, famílias, esse tipo de coisas. Vivemos em um mundo de rápidas mudanças sociais. Então, para descobrir uma maneira de incomodar, lembre-se, trabalhe com o passado sem fingir que o passado é uma coisa morta, mas ainda uma coisa viva com a gente hoje. É assim que eu me aproximo dessa ideia. Isso é certamente importante para as mulheres negras, mas eu acho que é ainda mais importante para as pessoas cujas formas de vida tradicionais e culturas tradicionais foram interrompidas por muitos tipos de sistemas de poder.

Você acompanhou o processo eleitoral aqui no Brasil?
Sim. Eu estive aqui durante a campanha, na semana seguinte ao primeiro turno. Foi uma coisa e tanto.

Como vê os resultados, especialmente em comparação ao processo nos Estados Unidos?
Em cada situação, parece que é um fenômeno novo, mas é apenas a face disso que é nova. Trump e Bolsonaro são dois líderes que se assemelham de muitas maneiras, mas acho que, se realmente olharmos para o que eles representam em cada país, essa não é uma nova agenda. Penso que são duas visões concorrentes da democracia. Duas visões concorrentes da identidade nacional. De um lado, temos uma visão que defende a inclusão e a participação, uma visão de baixo para cima. Do outro lado, uma que é criada a partir da noção de uma família forte, heterossexual, onde há um pai forte que consegue resolver problemas porque assume o controle. E essa visão não está particularmente comprometida com a inclusão ou a igualdade. Na verdade, ela tende a apoiar algo que eu chamo de “cidadania desigual” ["unequal citizenship"]. Penso que há uma diferença significativa entre os Estados Unidos e o Brasil em termos de situação constitucional em ambos os lugares. E, mesmo que essa seja uma luta antiga [entre essas duas visões], isso não significa que não haja muitas pessoas que sintam que uma forma melhor de governo é uma forma de governo de cima para baixo. Com um homem forte, que é muito modelado após o pai forte, que governa sua família e seus filhos e sua esposa e sua propriedade. O modelo de propriedade escravocrata. Assim, em diferentes pontos da história, esse ponto de vista sobre a democracia americana e a identidade nacional esteve no poder. E houve momentos em que não esteve no poder. Então, olhar para a história dos Estados Unidos como uma luta contínua entre essas duas visões sobre o que é a identidade nacional americana coloca esse momento numa perspectiva histórica mais ampla. Meu sentimento é que o Brasil tem um conjunto similar de questões em termos de identidade nacional e tem uma história semelhante, mas não a mesma história. O que é interessante é como esses dois momentos históricos se aproximam uns dos outros, junto com outros países que também parecem estar fazendo escolhas semelhantes. Então, esse é mais o contexto. Mas o que estou realmente pensando é que é realmente importante dar um passo para trás e ver o quadro geral. E percebo que há algumas grandes ideias sendo discutidas. Esta não é uma simples eleição.

Você acha que a arte pode ser um instrumento nessa luta pela democracia e pela justiça?
Eu acho que os artistas estão sempre à frente do resto de nós. As pessoas que realmente são artistas, e não simplesmente fazendo arte comercial. Quem está pensando muito profundamente e sentindo profundamente sobre as sociedades em que vivem e, de certa forma, deixando entrar em suas próprias vidas a beleza e a dor da existência humana. Para mim é isso que os artistas fazem. E eles usam qualquer talento especial deles — seja artístico, musical, da dança ou da literatura — para dizer coisas que não podem ser ditas e para mostrar coisas que são difíceis de mostrar de outras maneiras. Mas principalmente, a arte move as pessoas. É uma forma de contornar os pensamentos estabelecidos e fazer com que uma pessoa sinta algo diferente, experimente algo diferente, se emocione com algo diferente. E aquilo pode levá-la para outro lugar, como um resultado da experiência. Por essa razão, a arte é muito perigosa e as sociedades que têm medo de novas idéias ou temem as críticas tendem a ter medo dos artistas. Muitas sociedades não suportam esse tipo de arte de que estou falando. Eles querem arte que seja segura, contida e tenha uma etiqueta com preço associado a ela. Não vêem necessariamente o potencial da imaginação dos artistas. A arte também pode dizer coisas de maneira codificada. E se você não tem a chave para entender o que está vendo ou ouvindo, pode pensar que é apenas algo rabiscado na parede, por exemplo, no caso de um grafite ou uma arte urbana. Mas há algo mais acontecendo lá. Então eu acho que a arte é bem poderosa.

Algo que sempre aconteceu na arte — e continua acontecendo com artistas contemporâneos — é: fazer um trabalho que tem um caráter revolucionário e emancipatório, mas que acaba sendo tragado pelo processo de comercialização e de comoditização. Na cultura do hip hop, dominante hoje em dia nos Estados Unidos, essa questão talvez seja uma das principais reflexões nas músicas de muitos rappers, como Kendrick Lamar, por exemplo. Como você vê essa questão, sobretudo na arte produzida por pessoas negras?
Há sempre uma tensão entre a liberdade de ser um artista e dizer o que você quer dizer e saber que, em uma cultura capitalista, onde tudo é para ser comprado e vendido, a arte acaba se tornando uma mercadoria. E como nós protegemos essa arte da mercantilização? Muitos artistas estão cientes disso. E eles estão caminhando nessa linha entre saber que eles têm de usar todo o tipo de mecanismos que estão aí para alcançar muitas pessoas, mas ao mesmo tempo entender os riscos desse tipo de arte. Mas gostaria de pensar nisso mais longe das pessoas muito famosas e olhar para as pessoas comuns que fazem arte. Por exemplo, todas as crianças e jovens que apenas começam a fazer rap, simplesmente porque querem rimar, porque percebem essa é uma forma de expressão bastante pessoal, além de política. E eles podem pegar um pouco do hip hop padrão e reconfigurá-lo e usá-lo do seu jeito. E fruem de uma maneira diferente do que, talvez, um garoto rico que está baixando um disco do Kendrick Lamar para colocar para tocar na sua BMW. Então a própria arte negra sempre teve essa tensão. Você vê isso no blues, você vê no jazz, no R&B. E quando eles vêem que aquilo passa a servir um propósito que não é mais de arte, quando vêem que se tornou uma mercadoria, os artistas tendem a seguir em frente e criar algo novo. Nos Estados Unidos há essa corrente de clubes chamada The House of Blues, e se você for lá, todas as pessoas da House of Blues são pessoas brancas, e os músicos de blues não são músicos de blues negros. O mesmo acontece com o jazz. Mas eu não me preocupo tanto com os artistas. Eles reconhecem isso e sabem quando sua arte não está mais produzindo o efeito o que eles imaginavam. Minha preocupação com os artistas é basicamente com como eles vão se sustentar. Como eles vão comer, onde eles vão dormir, esse tipo de coisa. Questões de "bread and butter" são realmente importantes para verdadeiros artistas. Porque eles são freqüentemente renegados, não cabem em uma caixa confortável. E é isso que eu diria sobre essa tensão na arte negra, que tem no hip hop a manifestação mais recente. Quando o hip hop deixa de ser emancipatório, as pessoas continuarão a realizá-lo, mas não será necessariamente mais arte. Vai ser outra coisa. É isso que a indústria ocidental está sempre tentando perseguir nos jovens negros: o que vem a seguir. Você também pode olhar através da mesma lente das visões da democracia, como um longo arco histórico. Há sempre a tensão entre a tendência de mercantilizar e transformar em entretenimento ou moda e o desejo de parte deles em apenas falar com uma voz honesta, através de meios artísticos.

O que você acha que aconteceu com o jazz?
Muitas coisas. Uma é como, nos Estados Unidos, o jazz agora se tornou um pouco histórico, e os principais músicos de jazz invocam de certa forma o passado. Mas eu estou pensando sobre o fato de que as escolas de música começaram a ensinar os “jazz studies” e ele passa a se tornar mais padronizado. Por causa de questões como: quem poderia entrar nas escolas de “jazz studies”? O que são “jazz studies”? Isso se desconectou da criatividade do gênero. Um componente fundamental do jazz é a improvisação. Então, uma das coisas mais difíceis para muitos estudantes de música que estão fazendo jazz é improvisar. Porque eles não vêm sabendo improvisar. E a improvisação é uma espécie de resposta rápida a tudo ao seu redor e às pessoas ao seu redor. Eram coisas criadas no momento, ao vivo. Isso é o que foi. E é isso que é, entre as pessoas que ainda estão fazendo isso daquela maneira. Jazz, R&B, hip hop também se tornam culturas paralelas e vão se modificando com o tempo. Por exemplo: eu danço sapateado. Há muitas coisas que as pessoas não sabem sobre mim (risos). Eu sou uma dançarina, estou realmente pensando em ter aulas novamente. Me lembrei agora de uma aula em que a professora nos trouxe uma música de hip hop francês, ela tinha influências do norte da África, algo da música indiana, era cantada em francês e em rimas de rap. E nós estávamos sapateando e tentando manter o ritmo a partir daquilo. Então, isso é uma fusão e experiência, porque este rap foi inspirado por outras formas de música e criava algo novo. Ele estava realmente misturando gêneros. Eu aprecio o fato de que você está me fazendo perguntas sobre arte, porque eu realmente acho que isso é crucial.