Projeto Mov_oLA estreia espetáculo “Devolve 2 Horas da Minha Vida”

Foto: Clarissa Lambert

Em vez de “por favor, desliguem os celulares”, a plateia deverá deixar os aparelhos funcionando e utilizar um aplicativo no meio do espetáculo. Haverá três pausas. Para selfies. No fim, algumas pessoas poderão assistir à última cena da dança por um óculos de realidade aumentada. Essa é a proposta de Devolve 2 Horas da Minha Vida, espetáculo que estreia neste fim de semana no Centro Cultural São Paulo.

Criado pelo coreógrafo Alex Soares, o projeto Mov_oLA propõe experimentações em busca de integrar dança ao cinema, ao teatro, às artes visuais e a plataformas digitais. O novo espetáculo do grupo, no entanto, quer criar uma contradição. Ao mesmo tempo em que propõe uma imersão digital — a ponto de ter desenvolvido um app próprio do projeto — as cenas mais provocadoras aparecem justamente nas horas de uso do celular. Na primeira pausa para selfies, por exemplo, dois dançarinos (que são gêmeos) fazem um movimento fanfarrão: um segura o “celular”, que é o seu dedo do meio estendido para a plateia, e o outro, no seu colo, posa para as fotos. As caras são conhecidas pelo nosso imaginário de redes sociais: poses de jogadores de futebol, funkeiros e funkeiras, atrizes, marrentos, namorados, traficantes, snapchatters, etc.

Foto: Clarissa Lambert

Uma das inspirações de Soares é Janela Indiscreta, de Hitchcock. No filme, o fotógrafo (vivido por James Stewart) quebra a perna e precisa ficar em casa imobilizado com um gesso, se recuperando. Ele passa a acompanhar a rotina do prédio da frente do seu, e se entretém com as histórias, até presenciar o que pensa ser um assassinato. “O trabalho atualiza essas janelas de Hitchcock. Eu peguei essa ideia de que as pessoas não se conhecem, estão isoladas nos seus apartamentos, e do voyeur, o fotógrafo. As janelas pra mim são essas janelas virtuais do celular. Hoje você sabe mais de alguém pelo que você vê nas redes sociais dela do que conversando com a pessoa.” A música do espetáculo varia como se estivéssemos zapeando entre as “janelas” — do celular ou dos vizinhos — e vai de Gogol Bordello a composições clássicas de Arvo Pärt e Hildur Gudnadottir.

A série de TV britânica Black Mirror também foi uma inspiração para o trabalho, conta Soares. Um dos episódios retrata uma espécie competição musical do futuro em que um dos personagens se destaca e vira um hit ao tentar se matar durante a transmissão — roteiro parecido, também, com o do clássico filme americano Rede de Intrigas. Em outro capítulo perturbador de Black Mirror, todas as pessoas utilizam uma lente através da qual podem rebobinar, dar zoom e ctrl + F (ou seja, buscar) em todos os momentos das suas vidas. Esse é, claro, um pano de fundo para a trama, que trata de um namorado paranoico. Alex diz que o que o impressionou em Black Mirror é que ela trata de um horizonte muito próximo: “Você vê o que está acontecendo no seriado e pensa que isso pode acontecer daqui a um ano, sabe? Não é uma coisa tão do futuro. Está impossível a gente achar um equilíbrio nesse uso da tecnologia e eu não sei pra onde isso vai.”

A ideia do diretor é a de que não haja nem agradecimentos: enquanto o público se entretém com os óculos de realidade aumentada do fim do espetáculo, os dançarinos saem, e é o fim. Mas, para quem quiser aplaudir, haverá uma funcionalidade do app para avaliar com estrelinhas, como no Uber, e um áudio com som de palmas.

Foto: Clarissa Lambert

Devolve duas horas da minha vida — com Projeto Mov_oLA
De 30/9 a 6/11 — sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h
Grátis, com retirada de ingressos a partir das 14h do dia do evento

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