Quatro perguntas para Emicida

Rapper lança nesta terça (8) "AmarElo — É Tudo Pra Ontem", documentário que celebra cultura negra no Brasil

Paula Carvalho
Dec 8, 2020 · 7 min read
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Foto: Jef Delgado/Netflix

Quando Emicida lançou o álbum AmarElo, com show de estreia no Teatro Municipal de São Paulo em novembro de 2019, mal saberíamos que passaríamos a maior parte de 2020 em casa. Desde então, o rapper embarcou numa série de discussões sobre saúde mental e bem estar — que pautam também boa parte das músicas do disco. Rapper tem de ter aquela "cara de mau" e eu não quero essa imagem, dizia ele. Agora, o projeto ganha uma nova dimensão: com um documentário AmarElo — É Tudo Pra Ontem, que estreia nesta terça-feira (8) no Netflix, a discussão do disco passa do âmbito pessoal para a história da nossa sociedade, a partir do Teatro Municipal. O filme parte da construção de São Paulo como uma metrópole e sua representação na arte — com, por exemplo, a Semana de 22 — para lembrar também de outros momentos em que o teatro foi palco de movimentos importantes para o país: a fundação do Movimento Negro Unificado em 78, por exemplo. Na esteira de outras produções que têm resgatado a memória do hip-hop nos Estados Unidos, como a série americana Hip-hop Evolution, o Brasil começa a consolidar os registros do seu hip-hop para um público mais amplo.

Leia abaixo uma conversa com Emicida.

O filme pauta uma discussão que vamos aprofundar bastante nos próximos anos — o centenário do modernismo, aqui no Brasil marcado pela semana de 22, e como esse movimento é visto no país hoje. No filme vocês lembram das pinturas do Heitor dos Prazeres, falam da ida do Pixinguinha e dos Oito Batutas para Paris, das invenções do samba com o surdo e o tamborim. Esse grupo normalmente não é visto entre os modernos ou modernistas. Como vamos pensar esses 100 anos de modernismo no país? O que é esse modernismo?
Você pegou um ponto muito importante, Paula. Para a gente, durante a elaboração do roteiro, era muito importante que a gente colocasse o samba como o eixo gravitacional de toda a história que a gente estava contando. A gente tem uma reverência e uma admiração muito grande pelo modernismo, como exemplificamos ali sobretudo com a figura do Mário de Andrade. Mas a gente gostaria muito de gerar essa provocação porque no mesmo ano em que o modernismo consegue ascender e alcançar o palco do Teatro Municipal, Pixinguinha e os Oito Batutas vão para a França. Um movimento é reverenciado por uma parte da burguesia do nosso país, que se provoca a produzir alguma coisa diferente do que consumia — embora isso também não seja um consenso entre a própria burguesia, porque a semana seguinte à semana de 22 foi um fracasso. Mas o que eu acho mais intenso de 22 é a provocação de que o Brasil podia pensar o Brasil a partir da arte. Sem ficar refém do parnasianismo ou da reprodução de algum movimento estético do exterior. Talvez o Mário se transforme na figura central porque ele é quem mais profundamente mergulha nesse ambiente, o ambiente da cultura popular. Cruzar essas duas informações, semana de 22 e o samba, para a gente é uma forma de dizer: existe um movimento muito bonito acontecendo que foi percebido pela sociedade, mas existia um outro movimento que não só já vinha sendo produzido como também já estava dando consequências inclusive reverenciadas por essa vanguarda cultural parisiense, que era referência para muitos modernistas como o ápice da evolução criativa do ser humano. A gente está às vésperas de 2022 e tem dois centenários para lembrarmos: a semana de 1922 marca o centenário da independência do Brasil. E agora para 2022 eu sinto que a gente tem uma sociedade em ebulição, com suas consequências positivas e negativas, mas uma grande indicação de que o povo deve ser o centro. Como isso vai se comportar nos próximos anos, eu não sei te dizer. Sei que hoje a gente tem material para fazer uma análise mais justa do que foi a semana de 1922.

A gente tem uma lei que foi aprovada e promulgada em 2003 que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas. Até onde se sabe essa lei não pegou, não funciona de fato. Fiquei pensando, assistindo ao filme, em como a gente aprende muito mais sobre a verdadeira cultura brasileira com a arte do que na escola — isso é uma coisa que também está na sua música, em "Ubuntu" por exemplo. Queria te pedir para comentar um pouco sobre isso e também sobre a importância de ter uma estrutura independente para contar essa história.
Você pegou um ponto valioso — muitas pessoas quando vão tratar do documentário em si, vão olhar para essa história e dizer: "Aqui a gente tem de alguma forma uma referência do que é a história negra no Brasil". É uma forma de se entender isso. Mas a verdade é que de acordo com o que você falou — que também é o que eu penso — aquilo não é simplesmente um substrato da história. Aquilo é um fragmento da história que foi roubado da história oficial. E isso é significativo porque se nós tivéssemos ao longo da nossa formação sido conectados com a grandeza daquelas coisas, hoje nossa concepção a respeito do que é o país seria completamente diferente. Eu acho que essa discussão sobre a lei 10.639 é muito interessante porque podemos traçar um paralelo com a lei da abolição da escravatura. É um ótimo exemplo para a gente entender que quando o Brasil não quer, ele não transforma uma lei em realidade. A gente tem uma abolição da escravatura, mas a pergunta é: a gente tem uma sociedade que justifique isso? Se a gente não produz uma sociedade que justifique essa lei, a gente vai ficar olhando esses dois extremos e sempre vai ficar em choque com as faíscas que saem dessa relação. O que a gente está fazendo no documentário — e também é fruto da construção que fazemos há mais de uma década — é conseguir produzir esse material sem ter o filtro da indústria tradicional do audiovisual, para quem essa história não seria interessante. A gente está lançando esse filme por uma plataforma internacional, assim como o primeiro palco grande em que subimos foi o Coachella. Quanto tempo o Brasil demora para se perceber? Para olhar o que está do lado da sua casa? Estou muito feliz com o que a gente conseguiu produzir, a gente vai conseguir alcançar 190 países, para o Brasil o filme é essencial nesse momento, porque nos provoca a pensar que a gente pode ser mais. E para o mundo ele é igualmente importante porque estamos num momento em que o Brasil está se transformando num párea. Oscila entre uma piada e uma triste figura, digna de pena. É uma oportunidade de se conectar com a grandiosidade do Brasil. E internamente isso provoca a gente: por que a gente não dá continuidade a essa grandiosidade?

O filme ajuda a expandir um pouco também o que os Racionais MC's fazem no extra do DVD 1000 Trutas, 1000 Tretas, e alguns registros do rap como o filme Nos Tempos Da São Bento. Você acha que a história do rap e do hip-hop brasileiro está sendo bem documentada?
Eu acho que a gente ainda precisa de mais produção. Temos muitas histórias incríveis. A história dos bailes que o Racionais revisita no extra do DVD é fundamental, e até nisso o Racionais é uma aula para nós — é o primeiro exercício de "história" não-empírica dos Racionais. Eles se ocupam de contar sobre como eles surgiram, já que são consequência direta da geração dos bailes. Para a minha geração, que veio depois, inclusive, eles são meio que a mesma. Enquanto o Racionais estava aparecendo, a geração dos bailes ainda estava lá, eles chegaram a tocar nos últimos bailes, enfim. Para a geração que veio depois de mim, nem os bailes fazem sentido mais, já é outra coisa. Mas acho que a gente ainda está aquém do que podemos produzir. Espero muito que as pessoas se organizem e consigam se profissionalizar de maneira a se conectar com essas várias possibilidades de streaming, para que possam produzir materiais bacanas. Tem muita história bonita para contar a respeito do hip-hop no Brasil. Essa especificidade é muito importante: a música rap nos Estados Unidos é uma coisa, na França é outra, no Japão é outra, aqui também. A força política que a música rap tem no Brasil é absurda. É uma força política que a música rap só teve nos Estados Unidos entre o meio dos anos 80 e meio dos 90. Hoje a música rap lá é uma característica mais da indústria do que da cultura, muitas vezes. Saca? Aqui, a gente tem as duas coisas: temos uma ascensão da música rap enquanto indústria mas a gente tem uma atmosfera política, que não é um demérito do gênero — é algo que nos deixa até lisonjeado — porque realmente a nossa música tem um significado maior do que mero entretenimento.

É uma das grandes forças dos movimentos negros no Brasil hoje, não?
Na verdade, a minha teoria é a seguinte — minha e de outras pessoas — a música rap no Brasil é o primeiro interlocutor entre essa intelectualidade preta, que já vinha se desenvolvendo há mais de um século, e as classes operárias. Essa é a argamassa que dá essa força para que a esquerda, que também era burguesa, entrasse nas quebradas. Entra ali uma perspectiva que não era da academia, não era simplesmente uma análise baseada num pensador que nasceu do outro lado do mundo. Tinha ali também uma vivência de pessoas que crescera numa realidade próxima.

AmarElo — É Tudo Pra Ontem ()
Direção: Fred Ouro Preto
Produção: Evandro Fióti
Roteiro: Toni C
Produção executiva: Evandro Fióti, Raissa Fumagalli e Joelma Oliveira Gonzaga
Pesquisa: Felipe Oliveira Campos (Choco)

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