Quatro vezes Leonard Bernstein

Dois regentes, um crítico e um cientista político comentam o legado do maestro e compositor americano que faria 100 anos em 2018

Leonard Bernstein (Foto: Eugene Cook)

Para medir o impacto de Leonard Bernstein na cultura e na música americana do século 20, é preciso levar em conta ao menos quatro de suas facetas: o compositor, o educador musical de massas, o ativista político e, é claro, o maestro. A efeméride do seu centenário, celebrado amanhã (25), é uma boa ocasião para falar delas. Além, é claro, de ouvi-lo, como pode ser feito hoje e amanhã em concertos regidos por Roberto Minczuk no Theatro Municipal, em São Paulo, onde serão interpretadas peças sinfônicas e canções. Já a Osesp apresenta a abertura de Candide no início de outubro na Sala São Paulo, sob a regência de Marin Alsop.

Antes de se tornar uma estrela da música de concerto, Bernstein esteve associado a produções teatrais, como o balé Fancy Free e o espetáculo On the Town (ambos de 1944), o primeiro de uma série de musicais da Broadway. Alguns desses trabalhos foram adaptados para o cinema, sendo West Side Story (Amor, Sublime Amor, no Brasil) o mais conhecido.

Os arranjos feitos ao sabor da avenida mais conhecida da indústria cultural e o sucesso estrondoso das canções — entre elas, algumas se tornariam standards, como “Maria”, “Tonight” e “Some Other Time” — despistaram para a sofisticação daquelas composições. No caso de West Side Story, ela se faria sentir somente em 1985, quando Bernstein convoca José Carreras e Kiri Te Kanawa, cantores do universo operístico, para gravar o repertório do musical.

Na obras feitas propriamente para a sala de concerto, o compositor experimentou diferentes formas, como a ópera (Trouble in Tahiti), a dança sinfônica (como as baseadas em seus musicais), o ciclo de canções (Songfest) e a sinfonia (The Age of Anxiety). Em muitas delas, a influência popular se faz presente, seja no acento judaico (Kaddish) ou no jazz. Mas é em Mass que o seu ímpeto multicultural é testado até o limite. Essa espécie de missa hippie e politizada — cuja execução exige orquestra, coro e banda de rock — é até hoje objeto de debate entre os críticos, divididos entre os que a consideram um experimento ousado e aqueles para quem Mass denuncia um senso de auto-edição deficitário em Bernstein.

Se as suas composições dividiram opiniões, foi como maestro que Bernstein conquistou o mundo da música de concerto, vencendo críticas iniciais ao seu vigor sobre o pódio, logo transformado em uma de suas marcas. O regente tem gravações de referência de obras tão distintas como A Sagração da Primavera e Rhapsody in Blue, além de ciclos sinfônicos completos — o de Mahler, um de seus compositores preferidos, foi gravado duas vezes.

Bernstein se apresentou com quase todas as principais orquestras do mundo, mas foi com a Filarmônica de Nova York que ele deixou, além de gravações, um legado na educação musical. Através da série Young People’s Concerts (concertos para a juventude), televisionada para todo país, ele foi um dos principais agentes da popularização da música de concerto no pós-guerra. O programa consistia em concertos comentados por Bernstein, que introduzia o público infanto-juvenil ao funcionamento de uma orquestra e às características das obras apresentadas.

A política não esteve ausente das obras de Bernstein, desde as mais comerciais — basta ver os conflitos imigratórios e geracionais em West Side Story — até experimentos como Mass. De fato, ele foi uma personalidade que desafinou o conformismo americano do período da Guerra Fria, colocando-se em defesa dos direitos humanos e contra a Guerra do Vietnã. Atividades dessa natureza trouxeram problemas, como figurar em listas negras do governo, ser perseguido por Nixon e constar a seu respeito um extenso arquivo no FBI. Trouxe também críticas, muitas feitas na esteira de Radical Chic, reportagem de Tom Wolfe sobre o luxuoso jantar que Lenny e sua esposa deram em 1970 para arrecadar fundos para o Partido dos Panteras Negras.

Para compreender melhor as quatro facetas de Leonard Bernstein e dimensionar o seu legado, a Bravo! enviou perguntas a Marin Alsop, regente-titular da Osesp e ex-aluna do maestro; Gustavo Dudamel, diretor musical da Filarmônica de Los Angeles e da Orquestra Sinfônica Simón Bolivar; Anthony Tommasini, crítico-chefe de música clássica do New York Times; e Barry Seldes, cientista político e autor do livro Leonard Bernstein: A Intervenção Cívica de um Músico Americano, editado em Portugal. Leia a seguir o que eles disseram.

1. O maestro

Quais aspectos você destacaria no estilo de reger de Bernstein?

Marin Alsop: Ele era 100% engajado, comprometido e apaixonado. A sua principal preocupação era expressar a mensagem do compositor.

Anthony Tommasini: Bem, fica bem claro dos filmes e vídeos de televisão que temos de Bernstein no pódio que ele tinha um estilo cinético, galvanizador. Mas para mim ele nunca era chamativo. A sua teatralidade sempre tinha um propósito musical. E durante os ensaios ele era extremamente preciso, claro e exigente. Ele regeu as grandes obras sinfônicas e óperas como um colega do compositor, com o sentimento que um compositor tem de como a obra “funciona”, por assim dizer.

2. O compositor

No conjunto das obras compostas por Bernstein, parece haver uma “convivência pacífica” entre formas musicais populares e clássicas. Como você descreveria o estilo composicional dele?

MA: Eu concordo com esse argumento, mas acho que se trata mais de uma passagem fluida entre estilos musicais. Isso posto, atonalidade representava crise para Bernstein, enquanto tonalidade representava paz.

AT: Bernstein foi muito criticado em sua época, na maioria das vezes por críticos tradicionalistas, por incluir elementos de estilos populares — jazz, canção da Broadway, blues, pop, dança sul-americana, até raga indiano — nas suas obras para a sala de concerto. Mas na minha opinião ele estava muito à frente do seu tempo ao fazê-lo. Nos últimos 25 anos, compositores jovens e velhos têm misturado estilos musicais diversos e do mundo todo às obras “sérias” de música contemporânea de concerto. Hoje esses compositores são aclamados pela crítica e acolhidos pelo público pela ousadia e inventividade. Bernstein foi um pioneiro nisso.

3. O educador

Qual papel desempenhou Leonard Bernstein na popularização da música clássica nos Estados Unidos?

AT: Leonard Bernstein foi um notável jovem compositor de musicais da Broadway (On the Town, de 1944, e Wonderful Town, de 1953) antes mesmo de se tornar conhecido como o mais empolgante maestro e músico americano de sua geração. Então ele estava em uma posição única para dominar o emergente meio televisivo e usá-lo para se tornar, simplesmente, o mais efetivo, inspirador e bem-sucedido divulgador de música clássica que já existiu. No entanto, ele pensava — corretamente — em si mesmo como um educador musical. A série Young People’s Concerts, em particular, toda televisionada ao vivo, foi um marco de como tocar e falar sobre música de modo a informar o público geral, sobretudo crianças em idade escolar. Ele pegou assuntos complicados e os tornou compreensíveis, até mesmo empolgantes.

Barry Seldes: É seguro dizer que Bernstein teve um impacto muito importante, se não extraordinário, na cultura norte-americana, fundamentalmente por mesclar arte musical elevada e baixa, tornando-a acessível para o conjunto do público americano. De Fancy Free, em 1944, a West Side Story, e adiante, a sua música se tornou parte do vernáculo americano, além de digna de performances sérias em salas de concerto.

Como era o Bernstein professor?

MA: Ele era caloroso, carinhoso, exigente, brilhante… ele foi o meu herói em todos os níveis. Ele iniciou o conceito de aprendizagem e ensino interdisciplinares, aplicando essa filosofia à educação musical.

4. Política e legado

É possível descrever a orientação política de Bernstein?

BS: Bernstein foi um liberal de esquerda durante toda a vida, um social-democrata que promoveu incansavelmente as ideias fundamentais de igualdade universal de direitos humanos. Ele foi colocado na lista negra entre 1949 e 1953, e em seguida chegou ao topo como regente e compositor para a sala de concerto e para o teatro da Broadway, mas manteve o seu trabalho político na luta por direitos civis e na oposição à Guerra do Vietnã. Por esta última, ele foi alvo de retaliação pelo governo Nixon, mas foi salvo da repressão após o envolvimento do presidente no escândalo de Watergate.

Como a música, o modo de reger ou a visão de mundo de Leonard Bernstein te influenciaram?

Gustavo Dudamel: Bernstein me ensinou o poder que tem a música em unir, empoderar e transformar o mundo. Ele enxergava o que fazia como um trabalho, um chamado e uma responsabilidade grandes e eu espero carregar essa tradição adiante com meu trabalho.

E quanto à sua geração de regentes, em geral? Ela foi influenciada por Bernstein?

GD: Não se pode estar na música hoje e não ser influenciado por ele — mesmo que não se tenha consciência disso. Muitas coisas que vemos hoje como parte do panorama musical começaram como ideias na sua cabeça, e elas germinaram e cresceram a ponto de influenciar tudo, de musicais a música clássica, e até o rock. Mesmo quando não se está regendo sua música, as lições de Leonard Bernstein permanecem no nosso DNA, porque ele era a força motriz de toda uma geração de músicos.