Quem tem medo da música pop?

O disco "Letrux em noite de climão", de Letrux, é o pop na sua forma mais genuína

Capa de "Letrux em noite de climão", de Letrux, lançado pelo selo Joia Moderna

O pop é um dos gêneros mais ouvidos e também um dos menos levados a sério. Nas pistas, no rádio, nas cenas de novela, é sucesso nacional. Nas rodas de conversa, nas páginas dos livros e nas universidades, mencionar seu nome é quase uma afronta. Os argumentos para tal distinção são sempre os mesmos: baixa elaboração estética, produção com intuito meramente comercial, repetição de fórmulas, alienação barata etc. Porém, de vez em quando, surgem artistas que pegam o gênero e vão nas suas raízes para provar exatamente o contrário. Esse é o caso do disco Letrux em noite de climão, de Letrux, lançado nesta segunda-feira (10 de julho) em todas as plataformas de streaming e editado pelo selo Joia Moderna.

Na contra-mão do que pode pensar parte da intelligentsia, o pop pode, sim, ter um alto grau de elaboração estética. Contudo, sua apreciação deve extrapolar o próprio registro sonoro, pois as dimensões da performance e da imagem dão sentido ao gênero que nasceu no bojo da cultura midiática da década de 1980. Na era da visibilidade midiática das redes sociais, sob a alcunha de Letrux, Letícia Novaes (ex-vocalista do duo Letuce) veste diferentes máscaras com a total compreensão do que é artifício, isto é, do que é cinematograficamente construído na personalidade ocidental. O cômico, o trágico, a paranoia e o flerte são meros jogos de cena na noite de climão que se apresenta como o cenário ideal para as múltiplas personas que Letrux tira da cartola, versatilidade exposta já no videoclipe de estreia, feito para a canção “Coisa banho de mar”.

Ouvir Letrux é acompanhar a saga de um eu lírico pela banalidade do cotidiano — que a artista lapida para extrair o que realmente importa no fim do dia: “a vida não é caô, vou resumindo” (“Puro disfarce”). Das tatuagens dos ex-namorados (“Além de cavalos”) às confabulações acerca do amor às cinco da madrugada (“Noite estranha, geral sentiu”), Letrux faz graça e canção daquilo que nem se imaginaria poder ser assunto e surpreende com um olhar nada convencional sobre o banal. Não seria este um dos aspectos que fazem do pop um gênero popular e, principalmente, comercial: a identificação entre música e ouvinte através do que é comum a todos nós?

Embora muito do pop resida fora da canção em si, Letrux trabalha com o formato cancional mais genuíno do pop: o inventivo. Sem repetir fórmulas consagradas ou modas passageiras, Letrux cria para si uma linguagem sonora que privilegia a dramaticidade dos sintetizadores e as melodias prontas para grudar na cabeça, como nas exemplares “Flerte revival” e “Que estrago”. De certo modo, isso até mesmo pode levar muitos ouvintes — principalmente aqueles que têm medo de se lançar no que é novo e que, portanto, se apresenta como desconhecido — a tentar se ancorar em referências e comparações dentro e fora da música brasileira na tentativa de achar o conforto do reconhecimento e da classificação institucional, que aqui se tornam inúteis. Não que o rótulo pop, no caso, seja o caminho mais fácil para nomear aquilo que nos escapa à compreensão. É justamente da proposta estética do pop que se trata em Letrux.

Se há aqueles que consideram o pop algo efêmero, é só porque o tempo do pop é o eterno presente. Quando Madonna, lá em 1984, definiu sua música como “um reflexo do seu tempo”, é porque a exata definição do gênero está no agora. Nessa direção, Letrux em noite de climão é o exercício livre da fantasia e do humor — que hoje é quase um ato de resistência — no difícil e sombrio Brasil pós-crise democrática. “Bota na tua cabeça que isso aqui vai render” (“Vai render”).

O clipe de "Coisa banho de mar", dirigido por Arthur Braganti e Letícia Novaes:

O disco na íntegra: