Quem tem medo de Djamila Ribeiro?

Novo livro da filósofa é obra essencial para entender o histórico de lutas, conquistas e opressões do feminismo negro

Djamila Ribeiro (Foto: Marlos Bakker)

Em 2016, tive um breve contato com Djamila Ribeiro, quando, convidado pra dirigir um projeto de série para TV, indiquei-a para ser uma das participantes. Grande admirador do seu trabalho, fiquei frustrado quando, por um imprevisto, ela não pôde participar. Mas até hoje não esqueço da nossa reunião em seu gabinete na Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo.

De lá pra cá, a filósofa e acadêmica conquistou uma legião de seguidores (anônimos e famosos) em busca dos seus ensinamentos sobre feminismo — sobretudo no que diz respeito ao feminismo negro. Uma das vozes mais fortes do movimento, Djamila concilia uma elegância que transmite serenidade, com a forma certeira de emitir opiniões que, dependendo da carapuça, descascam a ferida do ouvinte.

Curiosamente, por mais que eu seja fã de toda a sua trajetória, confesso que tremi na base quando decidi fazer este texto. Foi a mesma sensação que tive ao ler muitos dos artigos e entrevistas de Djamila nos últimos anos. Apesar de ter quase uma década de carreira no jornalismo escrevendo sobre direitos humanos, ativismo e questões de gênero e etnia em revistas femininas que antes não falavam sobre isso, e me orgulhar de ter conquistado certa credibilidade, ainda assim o contato com a obra de Djamila me fazia sentir um mero leigo, um eterno aprendiz. Não teve uma leitura que não me despertasse pra algo que eu precisasse evoluir.

Nós, homens brancos, que historicamente crescemos cercados de privilégios, na maioria das vezes não temos noção de todos eles, até conhecer o ponto de vista de alguém como ela, que consegue prender nossa atenção muito mais do que os absurdos crimes de racismo que passam (ou não) na TV todos os dias. Aliás, por que acontece isso? Que diabo de bolha é essa que ainda teimamos em nos fechar? E por que o feminismo, principalmente o negro, ainda incomoda tanto?

São essas algumas das questões presentes em Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, novo livro de Djamila, com uma coletânea de artigos publicados no blog da revista Carta Capital (abro esse parêntese para destacar também o fabuloso manifesto escrito em parceria com a feminista Stephanie Ribeiro e publicado na Folha de São Paulo). Para quem quer conhecer melhor a história da autora, um ensaio autobiográfico vem na frente.

Ficamos sabendo, por exemplo, sobre parte do que ela sofreu na infância e adolescência por ser negra, tanto por meio dos colegas e demais indivíduos racistas, quanto pela sensação infindável de não pertencimento. Imagine a cena descrita, quando o pai não queria que ela usasse chapinha, e a mãe alisava os cabelos dela e da irmã em casa. “Era um ritual de tortura, no qual ela acendia uma boca do fogão, deixava o pente de ferro ali até ficar pelando e passava nos fios. Aquilo era comum, mas inúmeras vezes o cabelo queimava: você sentia o cheiro e via os fios se desfazendo. Podia-se até queimar o couro cabeludo nos piores casos. A vontade de ser aceita nesse mundo de padrões eurocêntricos é tanta que você literalmente se machuca para não ser a neguinha do cabelo duro que ninguém quer”.

Enquanto hoje em dia há críticas contra o slacktivism (sim, o famoso ativismo de sofá), no caso de Djamila, assim como acontece com boa parte das feministas negras, tudo foi sentido na pele. No ensaio introdutório, ela conta sobre um emprego de auxiliar de serviços gerais numa empresa onde uma amiga da mãe era gerente, e disse ter dado a oportunidade para lhe “ajudar”, sendo que, posteriormente, se recusou a promovê-la para uma vaga melhor, com a desculpa de que o café dela era gostoso. Antes ainda teve o emprego numa barraca de pastel. E tem os casos em que, na escola, nem os meninos negros queriam ser alvos de piadinhas sobre namorico com ela.

Djamila teve que aprender com as desventuras da vida a não baixar a cabeça. A morte da mãe a libertou de algumas questões — e do tal emprego onde não era reconhecida. A gravidez, aos 24 anos, a despertou para a transição e aceitação capilar. E foi nas obras de diversas autoras negras (Chimamanda Ngozi Adichie, Alice Walker, bell hooks, entre outras) que ela encontrou conforto. “Só então compreendi por que muitas vezes eu não me identificava com um feminismo dito universal: porque as especificidades das mulheres negras não eram consideradas”, diz num dos trechos.

É provável que o leitor, após o ensaio introdutório, sinta um incômodo ao tomar conhecimento do pouco que a autora conta sobre as sensações que teve durante sua jornada. Nesse momento, surge a reflexão: se nós sentimos isso, imagine o que ela passou? Imagine o que outros negros passam, todo santo dia, neste país que insiste em massacrá-los de forma desumana sem dar-lhes uma oportunidade de vida decente!

Veja bem: eu não falo isso com a propriedade de quem vive a situação, e sim como um apelo para que outras pessoas privilegiadas como eu, desçam do seu pedestal e se proponham a aprender com quem sabe. Não tenho noção do que essas pessoas sentem na pele. Além disso, não sou um “especialista em opinião” — como descreve um dos artigos sobre colunistas que insistem em falar com convicção de assuntos sobre os quais eles não tem a menor vivência — e, claro, não sou um “especialista em opinião” em feminismo negro. Mas, se tem duas coisas que eu aprendi com Djamila, foi sobre lugar de fala e de escuta, e sobre o papel colaborativo do homem nesse movimento.

Quando eu ainda cursava o ensino médio, tinha uma colega que, apesar de ser uma das garotas mais incríveis daquela turma, era a menina negra no meio dos brancos filhinhos de papai. Conheci Deborah na segunda série, ficamos amigos e estudamos juntos até a adolescência. Presenciei todas as “brincadeiras” racistas que ela passou e que, obviamente, exercem uma influência horrível na cabeça de uma garota inocente. Não sei se colaborei para uma dessas piadas de mau gosto, mas posso ter dado risada em alguma ocasião. Tal remorso me acompanha até hoje. É esse tipo de memória que os textos de Djamila despertam em quem está de fora do feminismo negro. Foi por isso que fiquei tão ansioso quando a encontrei naquela reunião em 2016.

“Quem tem medo de Djamila Ribeiro?”, trocadilho com o título original, é apropriado se considerarmos a quantidade de pessoas incomodadas com a projeção das mulheres negras. No livro, vemos uma variedade dessas situações. Para os “sem noção”, tem até um manual do que é racismo.

Pensei bem antes de fazer este texto, pelo receio de escrever sobre uma temática que, apesar de ser parte da minha carreira, não é pauta do meu lugar de fala, mas de uma das maiores experts contemporâneas no assunto. É muita responsabilidade fazer a resenha de um livro dela, ao sentir que nunca vou estar à altura.

Quem dera todas as pessoas, principalmente as da branquitude, encarassem o desafio de ler o novo livro de Djamila Ribeiro com coração e mente abertos sobre seus próprios preconceitos enraizados. Melhor ainda seria se conseguissem entender o que ela explica no fim do ensaio: “ao perder o medo do feminismo negro, as pessoas privilegiadas perceberão que nossa luta é essencial e urgente, pois enquanto nós, mulheres negras, seguirmos sendo alvo de constantes ataques, a humanidade toda corre perigo”.

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Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, de Djamila Ribeiro. Companhia das Letras, 152 págs., R$ 29,90.