Rampas de acesso para a arte

Artistas e instituições promovem iniciativas de acessibilidade cultural para pessoas com deficiência, mas ainda falta investimento

Cena de “Indefinidamente Indivisível”, da Pulsar Cia. de Dança

O que significa ir a uma exposição sem poder ver as obras exibidas? Ou ir a um show sem ser capaz de ouvir a música interpretada? E assistir a uma peça de teatro sem poder ouvir ou enxergar os atores?

No mundo todo, o número de pessoas que possuem alguma deficiência— visual, auditiva, motora ou cognitiva— cresce. No Brasil, já são 45,6 milhões (23,9% da população) os que declaram possuir alguma deficiência, segundo o Censo 2010. Nos Estados Unidos, somam 56,7 milhões (19%) de pessoas. E já não parece razoável esperar que elas se adaptem à sociedade tal como ela foi desenhada. Pelo contrário, é cada vez maior a consciência de que oportunidades, estruturas acessíveis, serviços, enfim, as garantias fundamentais ao exercício da cidadania precisam ser oferecidas para esta população. Entre essas garantias, o acesso à cultura tem um papel crucial.

Aos poucos, perguntas como as feitas de início começam a perder o contorno, quando surgem iniciativas que promovem o acesso de pessoas com deficiência aos bens culturais. Bárbara Barros, de 21 anos, por exemplo, gosta de ir ao teatro. O fato de a estudante de jornalismo possuir amaurose congênita de Leber, uma doença degenerativa da retina que implica na perda de parte da visão, não a impede de frequentar seu programa cultural preferido. Isto é possível com o recurso da audiodescrição, cujo uso é cada vez mais frequente em salas de teatro de São Paulo.

“É bom deixar claro o significado de deficiência: é quando uma pessoa não tem condições de fazer alguma atividade e por isso é privada”, diz Bárbara. “Quando tem audiodescrição, eu tenho acesso auditivamente a tudo que meus olhos não podem me oferecer— com isso, eu não sou mais deficiente. Esse recurso me permite compreender e interpretar um espetáculo por conta própria, sem depender do auxílio de outras pessoas, apenas de um profissional treinado que está sendo remunerado para isso”, completa.

Bárbara recebe por e-mail avisos de sessões especiais do Ver Com Palavras, iniciativa criada pela audiodescritora Livia Motta, profissional que narra o que acontece no palco aos espectadores em tempo real. A experiência brasileira segue a de outros países. No Reino Unido, uma pesquisa sobre hábitos culturais calculou que entre 2012 e 2015 foram vendidos em média 500 ingressos por mês para peças que ofereciam audiodescrição. A pesquisa ainda apontou um crescimento de 5% para 7%, durante o período estudado, no número de pessoas com deficiência em plateias.

No cinema, recursos de acessibilidade visual e auditiva já são regulamentados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) desde o ano passado, quando se passou a exigir uma adequação gradual das salas. Exemplos dessas ações podem ser vistos em algumas sessões do Cinesesc, em São Paulo.

Desde 2010 a sala exibe o Festival Sesc Melhores Filmes, no primeiro semestre, integralmente acessível a pessoas com deficiência auditiva e visual. Os filmes são exibidos com legenda de tipo closed caption, que apresenta não só o que é dito pelos atores, mas descreve tudo que se ouve, como a trilha sonora e barulhos. Já os espectadores de visão reduzida ou cegos podem retirar um equipamento eletrônico antes da sessão para ouvir a descrição simultânea das cenas.

O mesmo recurso também pode ser aplicado em exposições. Na Ocupação Conceição Evaristo, em cartaz até domingo (19), no Itaú Cultural, por exemplo, o visitante tem acesso a fones de ouvido que descrevem as colchas elaboradas por artistas com base em escritos da autora mineira.

Fruir e produzir

A acessibilidade na arte não passa somente pelo acesso aos bens culturais do ponto de vista de quem os consome, mas também pela possibilidade de produzi-los. Uma tentativa de integração dessa natureza pode ser vista em cena em Indefinidamente Indivisível, da Pulsar Companhia de Dança. O espetáculo coloca lado a lado bailarinas e bailarinos cadeirantes e não-cadeirantes. Com o uso de bolas infláveis que passam entre eles — e que a diretora Teresa Taquechel utiliza como uma metáfora da imprevisibilidade do movimento— a cena relativiza suas diferenças ao mesmo em que realça suas individualidades. Revelam-se, assim, como “corpos ímpares”, como defende o grupo.

Em artigo de 2015, o curador britânico Jonathan Meth, que integra o Disability Research Centre da Universidade de Londres, escreveu no jornal The Guardian que artistas com deficiência têm conquistado espaços nas instituições culturais e universidades. Mas nota que ainda há pouco investimento, sempre ameaçado pelas crises econômicas— além da tendência de se marginalizar os artistas com deficiência, cujos trabalhos passam a circular apenas nos espaços exclusivamente destinados a eles. “Eu quero que os artistas com deficiência possam fazer trabalhos que importem para eles e que se conectem com o público, não importa como este seja definido”, diz Meth.

No Brasil, uma voz que se levanta é a da artista paulistana Estela Lapponi, que combina performance com artes visuais, dança e vídeo. Seu objetivo não é apenas o de sensibilizar as plateias para sua condição— a artista sofreu um acidente vascular cerebral que a deixou com pouco controle motor no lado esquerdo do corpo— mas também problematizar o lugar que é relegado aos artistas com deficiência.

“O corpo com deficiência possui estigmas que estão relacionados à infantilização, à impessoalidade e, embora politicamente tenha mudado, para a área da saúde, ainda é visto socialmente como um corpo doente”, argumenta.

Essa visão equivocada provoca algumas distorções, como as encontradas por Estela no mundo da chamada Dança Inclusiva, cujos limites são por vezes rígidos e artificiais. “Me deparei com certas dificuldades de inserção no mercado por não ser ‘tão deficiente’ para os deficientes e ser ‘muito deficiente’ para os não-deficientes”, diz a artista.

É desta posição limiar que ela elaborou o seu Manifesto Anti-Inclusão. No texto, lido em performances, ela chama a atenção para os efeitos contraditórios da inclusão de artistas com deficiência: ao serem isolados em um nicho, acabam excluídos da cultura em geral.

No mesmo espírito, Estela propõe uma posição crítica para os artistas com deficiência, capaz de se contrapor a essa marginalização. “Defendo, enquanto postura e atitude, que o artista com deficiência declare-se como corpo intruso no mercado cultural para ter a possibilidade de provocar uma mudança no status quo artístico, rechaçando a nomenclatura inclusiva, que nada mais é do que excludente, uma vez que limita nossas possibilidades de atuação”.

Artistas e curadores que não possuem deficiência também têm dobrado a atenção quanto à acessibilidade. Quando fez a curadoria da mostra Diálogos Ausentes no Itaú Cultural, em 2016, a artista visual e pesquisadora Rosana Paulino, em parceria com Diane Lima, conseguiu com que artistas permitissem a manipulação de suas obras. “O Sidney Amaral cedeu uma das suas esculturas para que pudesse ser tocada, o que foi muito útil no caso das pessoas com deficiência visual”, conta. “Dalton Paula concordou que fizéssemos um pequeno ‘jardim’ com plantas ligadas à obra Unguento para que pudessem ser tocadas e para que esse público sentisse o aroma”.

Para Rosana, existe um distinção entre o trabalho da artista e da curadora no que diz respeito à acessibilidade. Durante o processo criativo, foca-se “nas resoluções técnicas, formais e conceituais que envolvem a construção da obra”. Com a obra pronta para ser exposta, novas questões emergem. “Temos então um outro tipo de trabalho criativo, que é o de pensar as formas de expor os trabalhos considerando a acessibilidade a estes espaços.”

Instalação “Solos”, de Estela Lapponi

Os estados da arte

Em reportagem ao New York Times, Tanya Mohn elenca algumas iniciativas que tentam responder a um cenário de crescimento no número de pessoas com deficiência nos Estados Unidos. Algumas são muito simples, como a do instituto Smithsonian, em Washington, que passou a abrir mais cedo para receber famílias com crianças com algum grau de autismo. Durante este tempo exclusivo, elas recebem um material especial e podem se habituar com a arquitetura do espaço. Já outras iniciativas são mais engenhosas, como a do Instituto de Arte de Chicago, que planeja imprimir cópias tridimensionais de obras de arte, possibilitando ao visitante um contato sensorial com a textura e escala de peças feitas inicialmente para serem vistas à distância.

Bruno Favoretto, editor da revista Viagem e Turismo, cita como seu museu preferido o Palácio Topkapi, em Istambul. “Impressiona muito: fica no alto de uma colina e há rampas, ainda que improvisadas, que possibilitam a gente ver de tudo da história do Maomé”, comenta o jornalista, que é cadeirante. Para ele, os museus brasileiros não estão muito atrás dos estrangeiros na questão da acessibilidade — havendo bons e maus exemplos dentro e fora do país. Entre os bons, ele cita o Museu de Arte de São Paulo.

“Não é uma coisa que o mundo todo está fazendo e nós não”, diz Patrícia Dorneles, que trabalha com políticas públicas de cultura e é coordenadora do curso de especialização em acessibilidade cultural da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para ela, faltam iniciativas tanto lá como cá. A diferença é que em lugares como a Europa, quando existe essa preocupação com acessibilidade, o investimento é melhor e mais qualificado.

No entanto, boas práticas podem ser vistas por aqui. Patrícia dá o exemplo do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que conta com mediadores que são pessoas com deficiência e participam tanto da elaboração das ações educativas como da mediação corpo a corpo durante as exposições. A “ação permanente de acessibilidade cultural para pessoas com deficiência” é a régua que Patrícia utiliza para destacar outras instituições, como a do Museu do Futebol e da Pinacoteca, ambos de São Paulo, e do Museu do Doce da Universidade Federal de Pelotas. No exterior, ela cita os portugueses Museu Nacional do Azulejo e o Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, que, segundo ela, foi “uma das primeiras iniciativas de referência qualificada em acessibilidade”.

Dentro e fora dos museus

Mas os desafios enfrentados para o acesso às obras de arte por pessoas com deficiência não se restringe ao interior de museus, teatros e centros culturais. Simone Yunes, gerente adjunta do Cinesesc, diz que o entorno da sala, localizada na Rua Augusta, apresenta obstáculos para as pessoas com deficiência. Para garantir o “mínimo para a cidadania ativa” desse público, ela aposta na sensibilização dos funcionários, mas também espera por melhorias urbanas. “Às vezes o espaço pode ter acessibilidade arquitetônica, mas o problemático está no chegar até lá”, diz Estela Lapponi, que faz coro a essa demanda por uma acessibilidade urbana casada com a cultural. Ela cita a adaptação dos meios de transporte e das calçadas como fundamental para o acesso integral.

Bruno Favoretto concorda. “De forma geral, os museus e centros culturais são as atrações mais adaptadas que a gente pode conseguir mundo afora — juntamente com shoppings, que particularmente não gosto de frequentar”, diz. “Mas o problema é chegar até eles”, completa.

Em texto no Paratodos, seu blog sobre viagens e acessibilidade, Bruno elege as calçadas como “o maior desafio para quem viaja de cadeira de rodas” e elenca alguns perrengues pelos quais já passou. Cita também bons exemplos, como o do Chile e o programa Santiago Caminhável, que a partir da capital chilena espalhou por quase 50 municípios um projeto de planificação de calçadas.

Bárbara Barros lembra que “os pequenos detalhes fazem toda diferença”. A estudante defende que “ter fácil acesso de transporte público, principalmente metrô, pessoas treinadas para o atendimento de pessoas com deficiência, audiodescrição, informativos com letra ampliada, não só em Braille, e o fator humano” são fundamentais.

“O primeiro passo de um centro cultural pra se tornar acessível é buscar capacitação”, diz Patrícia Dorneles. Para ela, o desafio está em capacitar a equipe com especialistas na área para que os serviços de acessibilidade sejam garantidos. O segundo passo seria a criação de programas e projetos culturais que os tornem permanentes. Patrícia defende ainda “que esses serviços sejam não só acessíveis no sentido dos recursos de mediação cultural, mas também nos seus valores de preço” e devem ser oferecidos, sempre que possível, de forma gratuita.

Arte e acesso

A discussão sobre acessibilidade cultural também ganha visibilidade em ações promovidas em centros culturais locais. Desde 2014, o Itaú Cultural promove o ||Entre||Arte e Acesso, que aborda de maneira ampla e multidisciplinar a questão da acessibilidade cultural. Em sua terceira edição, realizada no ano passado, o evento contou com três dias de palestras, debates, oficinas, performances e espetáculos de artistas nacionais e internacionais.

Entre os destaques estavam as performances do americano Antoine Hunter— coreógrafo surdo, fundador e diretor da Urban Jazz Dance Company— e de Estela Lapponi, cuja instalação Solos serviu de palco para as apresentações. Uma quarta edição já está confirmada para 2018.

“É dever dos espaços públicos e privados oferecer recursos de acessibilidade e quebrar barreiras estruturais ou de comunicação para que pessoas com ou sem deficiência se sintam acolhidas e tenham condições de acessar e fruir das programações culturais”, diz Tayná Menezes, membro do Comitê de Acessibilidade do Itaú Cultural— que também conta com funcionários com deficiência. Além do evento, o centro cultural dispõe ainda de interpretação em Libras em toda a sua programação e transmissões ao vivo, além de recursos variados de acessibilidade em exposições. “Temos uma dívida histórica com o público com deficiência e estamos longe do ideal, mas este é um caminho sem volta e que nos mobiliza a aprofundar o conhecimento e buscar novas opções”, defende Menezes.

Teoria e prática

Um importante marco da crescente preocupação com acessibilidade cultural foi a aprovação da Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, em 2007. O documento reconhece “o direito das pessoas com deficiência a participar na vida cultural em base de igualdade com as demais pessoas”.

Os países que subscrevem a convenção, como o Brasil desde 2009, se comprometem a “tomar todas as medidas apropriadas para que as pessoas com deficiência possam usufruir o acesso a materiais, atividades e serviços culturais”.

Neste mesmo sentido, em 2010, foi sancionado o Plano Nacional de Cultura, instituído pelo Ministério da Cultura. Entre as metas propostas, previstas para até 2020, estava a de que “100% de bibliotecas públicas, museus, cinemas, teatros, arquivos públicos e centros culturais” desenvolvam ações de acessibilidade.

“A legislação já está posta, mas ainda falta muito conhecimento e capacitação pra que a gente possa implementar as políticas de acessibilidade nos espaços culturais”, afirma Patrícia Dorneles. Ir da lei à prática passaria, segundo ela, por um pesado investimento em capacitação — tanto de quem trabalha nos equipamentos culturais quanto de suas instalações físicas. “Infelizmente a questão dos recursos, das tecnologias ou das mediações tem um preço ainda alto e os serviços ainda são caros”, ela diz. Mas defende que “é importante ter um real investimento nisso” — para que um direito já assegurado por lei, como é o caso da acessibilidade cultural, se torne realidade.


*Este texto foi desenvolvido pela Bravo! para o Itáu Cultural