Redescobrindo Villa-Lobos

Um músico e um sociólogo comentam a obra e o tempo de Villa-Lobos, que é homenageado no festival Viva Villa!, em São Paulo

Ainda que seja celebrado como o grande compositor nacional, Villa-Lobos estampa mais fachadas de prédios de luxo e shopping centers do que programas de concerto. Algo que não vale de hoje a domingo (25), quando a Osesp promove o festival Viva Villa! com entrada gratuita. São apresentadas, além de trechos de sinfonias, obras para violão, piano e orquestra com coro, com a regência de Isaac Karabtchevsky. A modernista Uirapuru, o monumental Choros nº 10 (Rasga Coração) e os cinco prelúdios para violão, interpretados por Fábio Zanon, são alguns dos destaques.

O festival comemora o lançamento de box com todas as sinfonias do compositor, sempre com regência de Karabtchevsky. Iniciado em 2011, o projeto passou pela pesquisa e a revisão das partituras envolvidas, e contou com o auxílio do Centro de Documentação Musical da Osesp, coordenado por Antonio Carlos Neves.​

Outra iniciativas recentes, de gravações a festivais, lutam por uma reavaliação da obra de Villa-Lobos. No ano passado, em uma iniciativa do Selo Sesc, chegou às praças uma gravação da integral dos quartetos de cordas de Villa-Lobos, empreitada a cargo dos quartetos Bressler-Reis e Amazônia.

Esses lançamentos lançam luz sobre obras pouco gravadas e executadas em concerto, e permitem o contato com as tentativas de Villa-Lobos de escrever em formas dadas pela tradição (quarteto de cordas e sinfonia).

Lendas

O nome de Villa-Lobos é envolto em lendas, prestígio e uma irresistível combinação entre as músicas popular e erudita do século 20 — algo como se a Semana de Arte Moderna tivesse como certo o destino de acabar numa roda de choro em um boteco perto do Theatro Municipal de São Paulo, tendo Villa como elo entre os dois mundos.

De fato, são muito os entraves para que a obra de Villa-Lobos circule para além de uma ou duas Bachianas, a começar pelo ar de mito que recobre sua figura. As muitas histórias envolvendo longas viagens por rios amazônicos, encontros com indígenas e outras peripécias (poucas delas comprovadas, ainda que enunciadas pelo próprio compositor) emprestaram-lhe um carisma e folclore que não raras vezes fica à frente de sua música.

Primeiro disco com as sinfonias de Villa-Lobos

Para saber mais sobre Villa-Lobos, a relação de sua obra com o seu tempo e o peso do mito envolvendo seu nome, a Bravo! conversou com o violonista Fábio Zanon, que gravou as obras completas do compositor para violão e escreveu o livro Villa-Lobos (Publifolha, 2009), e Leopoldo Waizbort, professor de Sociologia da USP e autor de um dos capítulos do livro Villa-Lobos, um Compêndio: Novos Desafios Interpretativos. A entrevista que se segue está dividida em três partes.

1. Do mito à obra

A obra de Villa-Lobos é extensa e diversa, mas se fosse possível delinear as principais linhas de força que operam dentro dela, quais seriam?

Fábio Zanon: Acho que seriam: a) simetria, especialmente nos desenhos melódicos; b) ambientação, a capacidade de criar uma superposição de informações musicais que ilustram uma cena imaginária; c) a forma fluida, que se submete a um fluxo contínuo de ideias musicais aparentemente desconexas.

Leopoldo Waizbort: Você mesmo já apontou um elemento-chave, que é a diversidade. Isso lhe permite um acesso a públicos ouvintes variados, dos que preferem obras mais “radicais” aos que preferem obras mais “fáceis”; sinfônicas, camerísticas ou solistas; e assim por diante. Essa diversidade também abriu espaço para interpretações variadas, que enfatizaram ora o seu “folclorismo”, ora a sua “originalidade composicional”, ora o “nacional”, ora o “universal”.

Em que medida os mitos que circundam a vida e a obra de Villa-Lobos impedem que pesemos melhor a sua contribuição?

FZ: Acho que a mistificação faz com que o ideário que ele representa importe mais que a obra em si. Tem sido difícil avaliar a obra de Villa-Lobos exclusivamente pelo seu conteúdo musical, para bem ou para mal. Tudo que parece inusitado e pessoal na obra dele sempre é colocado na conta de um conceito eufórico de brasilidade. Para um espectro de ouvintes, isso é irritantemente irrelevante; para o outro, é o único aspecto de interesse, e a música perde interesse quando se ignora essa “ profusão amazônica”.

LW: O maior empecilho para uma avaliação ponderada da obra de Villa-Lobos é o fato de que sua obra ainda não se encontra bem catalogada e publicada, o que impede tanto a execução dos músicos, como o estudo dos musicólogos e demais interessados. Esse é um grande entrave e enquanto não for sanado, uma avaliação permanecerá parcial e truncada. Uma edição crítica das partituras é o primeiro passo para qualquer juízo acerca da obra, e isso ainda está por ser feito. Em segundo lugar, faltam pesquisas aprofundadas em busca de documentação, seja sobre a vida do compositor — sobre a qual há muita lorota, achismo e mitologia, e pouco trabalho assentado em documentação primária confiável — , seja sobre a gênese das obras. Por essas razões, Villa-Lobos ainda é um compositor em geral mal-compreendido, embora haja, cada vez mais, trabalhos bons ou muito bons sobre sua obra, seja de divulgação, seja de análise aprofundada.

Passada a era dos nacionalismos (ao menos como os vistos no século 20), a obra de Villa-Lobos persiste. A que você reputa esse longevo interesse?

FZ: Antes de mais nada, a sua imaginação prodigiosa. A música de Villa raramente é modelar, e frequentemente é sobrecarregada na textura e mal acabada na forma, mas paradoxalmente ela é interessante e surpreendente quase o tempo todo, ao contrário de compositores mais canônicos que frequentemente soam meio acabrunhados e repetitivos. Ele tem a capacidade de sair de situações insolúveis com uma espécie de passe de mágica, usando ideias novas para arrematar seções que se aproximam de becos sem saída. Essa maneira de evitar a recorrência guarda um interesse enorme para a composição contemporânea e deveria ser mais estudada. Suas ideias são vibrantes, fortes, têm uma identidade muito marcante.

LW: Villa-Lobos persiste por duas grandes razões: porque compôs música de alta qualidade e porque foi beneficiado por um mecenato privado e, depois, de estado, que inicialmente lhe permitiu situar-se no contexto composicional da música internacional e a seguir o transformaram em compositor nacional oficial, o que o colocou em uma posição que lhe garantiu e continua a garantir um papel de destaque no mundo musical nacional e mesmo internacional.

2. Tocando Villa-Lobos

Você [Fábio Zanon] gravou a integral das obras de Villa-Lobos para violão e, no festival da Osesp, tocará todos os prelúdios. O que caracteriza as composições do Villa para este instrumento?

Fábio Zanon: A ousadia. O violão estava ainda muito apegado a um sotaque espanholado e exótico de final do Romantismo. Cada uma de suas obras contesta essa tradição e cria uma outra fisionomia para o violão. Ele parte de sua experiência como violonista para criar uma linguagem que, ao mesmo tempo, toma a relação física com o instrumento como ponto de partida e gera uma linguagem alinhada ao modernismo internacional de sua época. Os prelúdios, apesar de soarem menos arrojados que suas obras anteriores, são obras extraordinárias pelo seu carisma. Basta ouvir cinco notas de cada um deles para se sentir transportado. São ideias melódicas incrivelmente persuasivas e evocativas. Villa foi um dos grandes melodistas do século 20.

Preparar-se para tocar Villa-Lobos difere muito do que para interpretar outros compositores? O influxo de música popular presente nas peças exige uma outra abordagem de quem as interpreta?

Em algumas obras é difícil encontrar a medida certa. De uma certa forma, o equívoco que mais se encontra nas interpretações de Villa-Lobos é a “interpretatite”, é tentar achar nuances e curvas a qualquer custo. Mas acho que a integridade da melodia, a clareza da textura e, acima de tudo, a firmeza do ritmo não podem ser comprometidas. É bem difícil tocar uma obra como o Choros nº 1 ou o Prelúdio nº 2 com o tom coloquial da música popular, mas sem parecer que se está parodiando. É preciso manter a pose!

3. Compositor nacional

Como a identidade nacional se articula na obra de Villa-Lobos? Quer dizer, ela está apenas no conteúdo ou manifesta-se também na forma?

Leopoldo Waizbort: Essa distinção de conteúdo e forma me parece difícil de operacionalizar com rendimento analítico compensador. Evidentemente, elementos “nacionais” são muito presentes na obra de Villa-Lobos, basta lembrar as cantigas de roda nas Cirandas etc. Mas essa pretensa “identidade nacional” apresenta-se de maneiras muito variadas e muito elaboradas. Por vezes, reconhecemos uma cantiga infantil ou uma melodia que parece um “chorinho” ou uma “seresta”. Mas por outras, isso ocorre de modo complexo, no meio de uma trama construtiva composicional, que somente a análise permite vislumbrar. Como quer que seja, essa ideia de “identidade nacional” é uma construção interessada e procura definir como “nacional” elementos que não o são, que muitas vezes são “regionais” e “locais”, por exemplo. O movimento de vincular a composição de Villa-Lobos com o “nacional” já foi analisado com brilhantismo por José Miguel Wisnik em seu texto capital sobre o compositor, “Getúlio da Paixão Cearense (Villa-Lobos e o Estado Novo)”. Por outro lado, Paulo de Tarso Salles, em seu livro Villa-Lobos: Processos composicionais, demonstra como os modos como Villa-Lobos compõe independem de elementos “nacionais”, pois são compartilhados por muitos e em diferentes contextos podem ser objeto de atribuições semânticas variadas. Em suma, o “nacional” está mais no ouvido de quem ouve do que na “obra” musical em sentido estrito. Para dar um exemplo bem simples: um ouvinte que conhece “O cravo brigou com a rosa”, ou “Cai, cai, balão” reconhece a melodia em uma “Ciranda” ou outra obra em que Villa-Lobos as tenha porventura mencionado; mas quem não os conhece, não reconhece. Outro: um ouvinte que conhece o som do cavaquinho, ouve o violino do Settimino [nome do Choros nº 7] e ouve ali um cavaquinho; mas quem não conhece o cavaquinho, ouve o violino e não “entende” que aquela sonoridade “evoca” o cavaquinho.

O processo social vivido pelo compositor no Brasil do século 20 imprimiu uma marca na forma artística de suas composições?

Pode ser respondido em diversos níveis. Por exemplo o biográfico; mas para poder fazer isso com consistência, falta pesquisa biográfica aprofundada e para além da mitologia ainda existente e reproduzida. Por exemplo: foi o compositor oficial do Estado Novo e composições da época exploram uma linguagem musical condizente. Mas, como a obra é diversa e o compositor inteligente, essa redução não satisfaz. Lembremos que, no universo da música de concerto, muito internacionalizado, o “processo social” precisaria ser pensado em registro internacional; assim, para dar apenas um exemplo, a atividade composicional e de regente de Villa-Lobos no pós-guerra, [que se deu] sobretudo na França e nos EUA. No registro mais elementar, basta lembrar que Villa-Lobos compôs dentro do cânone dos gêneros musicais: quis compor sinfonias, quartetos, obras de câmara, solo, canções etc. Essas formas são formas compartilhadas e dadas pela “tradição” da música de concerto.


Festival Viva Villa!

De hoje a domingo (25) com entrada gratuita, que deve ser reservada online. Concertos de segunda a sábado, às 19h30. No domingo, às 11h. Veja a programação aqui.