Resistindo à crise, festival É Tudo Verdade exibe documentários sobre família e política

“No Intenso Agora”, de João Moreira Salles, é o principal destaque do festival (Foto: Divulgação)

Resistindo à crise, o festival internacional de documentários É Tudo Verdade chega a sua 22ª edição com o mesmo porte do ano passado. Serão exibidos 82 filmes de 30 países, divididos entre as competições nacional, internacional e latino-americana (inédita), além de sessões especiais. O festival acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo de 19 a 30 de abril com sessões gratuitas.

No Rio, a abertura fica por conta de Eu, Meu Pai e os Cariocas, produção de Lúcia Veríssimo sobre o conjunto vocal da bossa nova do qual seu pai, Severino Filho, fez parte até o ano passado, quando faleceu. Amir Labaki, diretor artístico do festival, o apontou como um exemplo da tendência contemporânea ao “documentário de família”, em que realizadores fazem “um balanço da experiência pessoal por meio da investigação da sua história familiar”. Já a abertura paulista terá a exibição do americano Cidade de Fantasmas, em que a Matthew Heineman acompanha a atividade do grupo Raqqa is Being Slaughtered Silently (Raqqa Está Sendo Silenciosamente Massacrada), formado por jornalistas e ativistas que arriscam a vida para cobrir as ações do Estado Islâmico na Síria. Segundo Labaki, o filme traz “imagens de truculência e barbárie” ao mesmo tempo em que “afirma a importância do jornalismo”.

O principal destaque do festival é No Intenso Agora, novo filme de João Moreira Salles, que terá sua estreia nacional após passagens na Berlinale e no Cinéma du Réel, onde foi premiado. Labaki classificou o documentário como o “o filme do ano no Brasil e um dos filmes do ano no mundo”. Construído como um filme-ensaio, No Intenso Agora recupera filmagens dos anos 1960 (em particular do ano de 1968) na China maoísta, nas ruas tomadas de estudantes em Paris, na França, e no Brasil sob a ditadura para investigar a natureza da imagem e suas consequências políticas. O impulso inicial do filme foi a descoberta por Moreira Salles, enquanto finalizava Santiago (2007), de material gravado por sua mãe durante a Revolução Cultural chinesa.

Competições

Essa relação estreita entre família e política também está presente em filmes da competição internacional, como o argentino Perón, Meu Pai e Eu — em que o diretor Blas Eloy Martinez recupera as gravações de uma entrevista que seu pai fez com o ex-presidente Juan Domingo Perón — e o mexicano No Exílio: Um Filme de Família, que revela o México do presidente de esquerda Lázaro Cárdenas, responsável por conceder asilo aos sobreviventes da Guerra Civil Espanhola — entre eles, os pais e avós do cineasta Juan Francisco Urrusti. Ou ainda no longa Relações Próximas, que compõe um mosaico de opiniões da Ucrânia pós-crise de 2013 através de conversas de Vitaly Mansky com parentes seus espalhados pelo país.

Entre os filmes da competição nacional, estão retratos de personalidades da cultura brasileira, como Maria — Não Esqueça que Eu Venho dos Trópicos, sobre a artista plástica Maria Martins (1894–1973) e sua relação com as vanguardas europeias, e Tudo é Irrelevante, sobre o cientista político Hélio Jaguaribe. Outros destaques são o longa A Terceira Margem, de Fabian Remy, que mostra a história de João Kramura, um jovem branco que foi tirado dos pais e criado numa tribo Caiapó, e Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas, uma série de depoimentos de vítimas de abuso sexual — como a farmacêutica Maria da Penha e a nadadora Joanna Maranhão — reunidos pela cineasta Sandra Werneck.

O americano “Cidade de Fantasmas” abre o festival em São Paulo (Foto: Divulgação)

Especiais

As sessões especiais do festival contam, além de No Intenso Agora, com a estreia de Laerte-se, produção da Netflix dirigida por Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum que traça um perfil da cartunista Laerte desde que decidiu viver como mulher, e do americano 78/52, de Alexandre O. Philippe, que investiga em detalhe a cena clássica do assassinato no chuveiro de Psicose (1960), de Alfred Hitchcock. Haverá ainda homenagens a Andrea Tonacci, que terá seu último filme (Já Visto Jamais Visto) exibido, e ao centenário do cineasta e etnólogo francês Jean Rouch, com a projeção de Eu, Um Negro (1958). O poeta Ferreira Gullar também será celebrado com a exibição da trilogia de filmes que o diretor Zelito Viana lhe dedicou — O Canto e a Fúria (1994), Ferreira Gullar: A Necessidade da Arte (2005) e A Arte Existe Porque a Vida Não Basta (2016).

Retrospectivas

A retrospectiva nacional desta edição recupera a obra de Sérgio Muniz, cineasta e poeta que participou da Caravana Farkas nos anos 1970 e produziu documentários de resistência ao regime militar, como Você Também Pode Dar um Presunto Legal (1970), que ficou inédito por quase 40 anos. No dia 27, ele conversa com o documentarista Aurélio Michilis no Centro Cultural São Paulo. A retrospectiva internacional toma o centenário da Revolução Russa como oportunidade para revisitar o documentário soviético em seus diversos momentos, num arco que vai de Avante, Soviete! (1926), de Dziga Vertov, ainda sob o calor revolucionário, até a Elegia Soviética (1989), de Aleksandr Sokurov, feito no ocaso do regime. O pôster da 22ª edição do festival também homenageia Vertov e é feito a partir de uma fotografia da sala de cinema que ele programava — acima da tela estão os retratos de Lenin e Marx.


É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários

É Tudo Verdade acontece de 19 a 30 de abril no Rio de Janeiro e em São Paulo com sessões gratuitas. Depois, os filmes premiados e que se destacaram seguem para Porto Alegre e Brasília. Veja a programação completa: etudoverdade.com.br.