Sutura da arte no tecido social

Retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo faz balanço da produção de Rosana Paulino, artista que coloca a mulher negra como protagonista da crítica da formação social do país

“Musa Paradisíaca”, 2018

Rosana Paulino está no centro. Quando chego ao segundo andar da Pinacoteca de São Paulo para visitar a montagem da primeira retrospectiva de sua carreira, ela está em posição que lhe permite, ao olhar para a esquerda ou para a direita, enxergar a ocupação promovida pelas cerca de 140 obras produzidas entre 1993 e 2018. A Costura da Memória alinhava três salas contíguas do museu.

Vencedora do Prêmio Bravo! de Melhor Exposição Individual — por Paraíso Tropical, realizada no Centro Cultural São Paulo em 2017 — , a artista tem no centro de sua produção a mulher negra, protagonista de uma contundente crítica da formação social brasileira naquilo que ela apresenta de racista e misógina. Neste novo capítulo de seu reconhecimento, o espectador tem diante de si a trajetória estética de um dos principais nomes da arte contemporânea do país.

Mas a história de Rosana Paulino com a Pinacoteca não começa em 2018. Ela se inicia antes mesmo de 1994, quando participou de Os Herdeiros da Noite: Fragmentos do Imaginário Negro, exposição coletiva com curadoria de Emanoel Araújo, então diretor da instituição. Em 1982, quando tinha 15 anos, sua mãe a avisou de um curso livre de desenho no museu. Era só chegar. Ali, arriscou traços diante de um modelo vivo sob a supervisão de um professor. Mas aqueles tampouco eram os primeiros; a educação estética de Rosana Paulino começa na Zona Norte de São Paulo.

“Na infância, eu subia muito em pé de árvores, brincava na rua, e isso já levava a uma curiosidade, a uma criatividade. E minha mãe tinha uma coisa muito legal: ela achava que a gente tinha fazer nossos brinquedos”, me disse Paulino em seu ateliê, localizado na rua onde cresceu, na Freguesia do Ó. “Aqui atrás passava um braço do Tietê, então a terra aqui é muito plástica — terra perto de rio é muito maleável. Minha mãe fazia aquele barro, aquela argila, pra gente brincar. Era o dia inteiro fazendo tartaruguinha, boizinho. Depois punha no sol para secar e então pintava e punha perninha.”

Rosana e as três irmãs partiam então para a avaliação estética — “está feio”, “está bonito”, “se ficar dessa cor vai ficar melhor” —, sempre observadas pela mãe, que controlava o tempo de televisão, obrigava aos estudos e estimulava a leitura. “Minha mãe fazia muitos móveis para as bonecas da gente. A mesinha, a cadeirinha, pegava a caixa de sabão em pó, abre aqui, abri ali, encaixa uma roda. Tudo isso já vai formando uma curiosidade estética, um senso estético.”

Na dimensão do trabalho, as tarefas da mãe também chamavam a atenção. “Minha mãe foi bordadeira. Ela tinha uma máquina de costura e comprava pano para costurar pra gente”, conta. Paulino aprendeu a bordar, um conhecimento que mais tarde utilizaria como vetor crítico do seu trabalho. As linhas, afinal, atravessam toda a sua obra: da instalação Tecelãs, nas quais mulheres-taturanas têm o seu voo impedido por linhas brancas, aos desenhos de mulheres imobilizadas por volteios sem fim de traços a lápis.

No ateliê de Rosana Paulino (Vídeo: Henk Nieman)

Os anos de formação

Em 1991, Rosana Paulino entrou na Universidade de São Paulo, onde se bacharelou em gravura pela Escola de Comunicação e Artes, especialidade que desenvolveu a seguir na London Print Studio, na Inglaterra. Ainda na USP, doutorou-se em Artes Visuais com a tese Imagens de Sombras. Os anos de graduação despertaram sentimentos contraditórios. “Minha experiência universitária foi ótima, ao mesmo tempo em que eu não me via, obviamente, dentro do que se aprendia na universidade de artes.”

“Como é que você faz um curso inteiro de artes de costas para o país?”, se perguntava. Segundo Paulino, a grade escolar era montada segundo os critérios da história da arte hegemônica — ocidental, europeia, branca, masculina. Com poucas exceções, a arte negra ou indígena aparecia somente como folclore. Entre colegas e professores também não havia negros, o que ativou nela uma busca solitária por referências, algumas encontradas na biblioteca da ECA. “Eu fui me encontrar como negra no livro A Mão Afro-Brasileira, quando eu era estudante”, diz, referindo-se ao catálogo da pioneira exposição realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 1988.

“Por outro lado, também foi legal fazer USP, porque eu tive excelentes professores e havia os debates na lanchonete atrás da ECA”, lembra ela, antes do carro dos ovos interromper nossa conversa. Mas o mais importante, continuou ela, era o material disponível ali para experimentar. “Você entrava e podia usar as ferramentas de gravura do ateliê, recebia um tanto de filme analógico, um tanto de papel. Numa escola particular não tinha isso.”

No segundo ano, Paulino conseguiu um estágio no ateliê de conservação e restauro de papel do Museu de Arte Contemporânea, gerido pela universidade. “Eu ficava praticamente trancada dentro daquele cofre, que era a reserva técnica, fazendo o levantamento das obras — às vezes duas, três horas. Lógico que eu entrava e fazia o meu trabalho, mas também ficava babando na frente da série Minha Mãe Morrendo, do Flávio de Carvalho.” Segundo ela, o contato próximo e diário com esse acervo foi importante para sua formação. “Quando você vê um gravador como o [Oswaldo] Goeldi de pertinho — pega o papel e vê como está gravada essa imagem — você está aprendendo.”

Gravura da série “Jonas”, 1999

“Ela sempre me chamou a atenção pela qualidade do seu trabalho e por seu posicionamento sempre combativo dentro do departamento”, lembra Tadeu Chiarelli, que foi professor da artista na ECA. Em 1994, o crítico e curador a convidou para participar da coletiva A Fotografia Contaminada no Centro Cultural São Paulo. “Naquela mostra juntei pela primeira vez artistas que traziam questões que me interessavam bastante, dentro de um espectro grande da arte brasileira, que ia desde Militão Azevedo e Valério Vieira (da passagem do século 19 para o 20) até jovens artistas, estudantes ainda, como Rosana Paulino e Márcia Xavier”, conta. “Para mim, não foi propriamente um apoio, mas sim um reconhecimento da qualidade que o trabalho dela tinha na época.”

“Parede da Memória”, 1994–2005

A construção da memória

Apesar de se sentir só, Rosana Paulino reconhece que questões como as levantadas por ela começavam a aparecer com maior vigor em outras áreas. A ascensão do rap racional e da literatura periférica formava, naquele início dos anos 1990, um mesmo caldo cultural, alimentado, além de suas obras iniciais, pelos primeiros discos dos Racionais MC’s e pela continuidade da publicação dos Cadernos Negros. No livro Dramatização dos Corpos: Arte Contemporânea e Crítica Feminista no Brasil e na Argentina, a historiadora Luana Tvardovskas inclui ainda o Instituto Geledés, fundado em 1988 por Sueli Carneiro, neste panorama.

Nesta época, Paulino realiza a sua primeira grande obra. Milhares de pequenas almofadas costuradas como patuás, estampadas com fotografias da família da artista na face superior estão postas lado a lado na parede. Aqueles objetos frágeis traduzem uma força na medida em que ganham escala, fazendo do álbum de família uma multidão. O trabalho — que em sua feição original tem cerca de 1 500 peças, das quais 500 serão expostas na Pinacoteca — aponta, assim, para a superação do âmbito familiar para o social.

É com um comentário sobre Parede da Memória que Fabiana Lopes abre seu artigo sobre as “contranarrativas na produção de artistas afro-brasileiros contemporâneos”. Segundo a curadora, Paulino cria, com a obra, “um monumento, um memorial para o sujeito negro, e usa, num ato subversivo, operações estéticas para fechar as lacunas da memória nacional sobre esse sujeito.” Ela prossegue ao defender que “operações estéticas” como esta indicam “a relevância da subjetividade do artista como filtro, como elemento que se costura com preocupações propriamente formais e que traduz a complexidade do sujeito contemporâneo”.

Essa passagem importante na poética de Rosana Paulino tem como capítulo fundamental a série Bastidores. Quando estudava Assistência Social, uma de suas três irmãs estagiou em uma Delegacia da Mulher, lugar de onde voltava com histórias de violência e sofrimento que povoaram a imaginação da artista. A obra tomou corpo quando Rosana encontrou bastidores de costura vendidos na Rua 25 de Março e, em casa, abriu uma caixa com fotografias de mulheres. “Eu não tenho a questão da violência doméstica na minha família, mas eu tenho a questão das mulheres negras. Ela dá um outro viés de leitura. É o racismo institucional.”

Na Pinacoteca estarão expostas quatro peças da série, na qual linhas percorrem os bastidores de modo a cobrir parte do corpo das mulheres: olhos, garganta, boca, testa. Costurada com linha preta, a intervenção da artista no objeto doméstico e nas fotografias antigas, que no contexto original eram carregadas de nostalgia, é radical e subverte a delicadeza do hábito antiquíssimo de bordar para revelar a interdição histórica aos direitos da mulher negra.

Obra da série “Bastidores”, 1997

Estudar para rebater

Desde criança, Rosana Paulino sonhou em ser bióloga — tanto que foi aprovada no vestibular da Unicamp para estudar biologia no mesmo ano em que passou em Artes Visuais na USP. No cruzamento de seus interesses, os registros da Expedição Thayer, conduzida no Brasil em 1865 pela equipe do zoólogo franco-suíço Louis Agassiz, capturaram a sua atenção. Corpos negros eram registrados como em uma fotografia forense: frente, costas, lado. Examinados da mesma forma que os peixes da Amazônia, cujo interesse justificou a viagem do cientista ligado a Harvard, em um olhar que trazia embutido o racismo científico.

“Quando eu me deparo com aquelas imagens, eu falo: vou estudá-las porque elas me causam um incômodo profundo”, diz a artista, que as tornou parte central de diversos trabalhos, entre eles a série Assentamento. Começou com pequenas intervenções feitas sobre impressões dessas fotografias, algumas delas cortadas em algum ponto. Raízes surgiam dos pés daqueles homens e mulheres negros, que recebiam também órgãos. Eles logo se tornaram maiores: os experimentos passaram a folhas do tamanho de um cartolina e, enfim, para impressões em tamanho real.

Paulino recortou, então, aquelas fotos em mais de um ponto, costurando-as de volta naquilo que chama de “sutura”, que impõe uma deformação nos corpos, materialização do olhar violento que as registrou em primeiro lugar. Braços de plástico sobre esteira e tablets que reproduzem imagens e sons do mar completam o que se tornou uma instalação que reflete a experiência do navio negreiro.

Página de “¿História Natural?”, 2016

“Eu sou artista visual. Não sou da literatura, da história, da sociologia. Então trabalho isso através de imagens”, diz. “Para entender como esse país é assim, eu vou naquelas imagens, mas não basta ir até a imagem do Agassiz. Tenho que saber todo o contexto histórico. E a partir dele criar uma imagem que rebata essa narrativa que foi feita”, reflete a artista, que inclui — ao lado de Parede da Memória, Bastidores e Assentamento — uma quarta obra no rol de seus principais trabalhos. Em ¿História Natural?, o alvo das intervenções são os livros de cientista.

Em uma pesquisa que levou cinco anos e uma bateria de testes com impressoras, Paulino chegou em um volume de páginas encadernadas que, desfolhadas, apontam para o horror na história do país. Crânios e órgãos se misturam a imagens de índios e negros escravizados, alguns com o rosto recortado, além de azulejos portugueses e frases como “a salvação das almas” e “o amor pela ciência”.

Mais uma vez, a fatura delicada (trata-se de um livro de artista, com costuras e colagens minuciosas) não distrai o leitor da contundente formulação crítica. Em mostras como a da Pinacoteca, o livro é desmembrado, tendo suas pranchas exibidas separadamente. Expansão parecida faz a própria mostra, cuja curadoria — de Paulino com Valéria Piccoli e Pedro Nery — também se inspira nas antigas feiras científicas.

“Tecelãs”, 2003

A professora

Vestida com óculos de aros grossos, quase sempre com camisas claras de estampa discreta e calça jeans, Rosana Paulino é simpática com todos que a abordam, mas raramente é efusiva. Articula as palavras com cuidado, em uma fala pausada, cujo raciocínio é mais analítico que espontâneo. No seu caso, a amabilidade, alta para níveis paulistanos e para artistas, vem acompanhada de uma disposição incansável para debater. Principalmente se o assunto for política — saí das conversas com a artista convicto de que ela poderia assinar amanhã uma coluna de jornal, tal é a minúcia com que descreve (e critica) os debates políticos e econômicos do país.

A sua personalidade, ela mesma admite, é a de uma professora — e daquelas que atrai um enxame de alunos. Foi assim no encontro promovido no Instituto Tomie Ohtake em setembro deste ano, no contexto das Histórias Afro-Atlânticas. O evento era voltado para professores, o que estimulou Rosana a encontrar uma brecha na agenda apertada. O sol de rachar que fazia naquela manhã de sábado não impediu que o saguão do museu ficasse apinhado de professoras — não havia recorte de gênero, mas elas eram maioria — munidas de caderno e lápis, a anotar os comentários de Paulino sobre a própria obra e a respeito do diálogo desta com a formação social do país.

Era comovente ver o entusiasmo da artista e o engajamento das mulheres que, ao afinal da palestra, fizeram uma longa fila para agradecê-la individualmente. “É um privilégio ser sua contemporânea”, disse uma delas. A emoção tinha razão de ser. Muitas daquelas educadoras eram negras e percebiam, no reconhecimento de Rosana como artista e pensadora, uma vitória coletiva. Afinal, elas estavam ali juntas, ocupando uma das principais instituições brasileiras de arte. Além disso, Rosana Paulino tem na área educativa uma parte fundamental de seu trabalho, pensada desde a concepção das obras, fazendo do encontro mais do que uma “contrapartida social” improvisada.

Mestre entre os pares

“Atlântico Vermelho”, 2017

Com 25 anos de carreira, Rosana Paulino é hoje uma referência incontornável para a arte contemporânea brasileira. Mas entre aqueles mais impactados por ela estão os artistas negros da sua geração e das seguintes, com quais mantém uma relação de fraternidade. Para eles, seu ateliê sempre esteve aberto a visitas como a de Renata Felinto, que ouviu falar dela pela primeira vez durante uma aula no curso de artes visuais da Unesp, no início dos anos 2000. Ao vê-la manipular fotografias da família, um professor estimulou a aluna a telefonar para a artista. “Falar hoje parece simples, mas eu saí de Itaquera, no extremo da Zona Leste, para ir para a Freguesia do Ó, um bairro da Zona Norte que eu não conhecia”, conta Felinto, em memória que merece a citação por extenso:

“Rosana Paulino me recebeu muito bem e, lembro como se fosse semana passada, me serviu pão de queijo e chá. Mostrou-me o ateliê, que era ainda na casa de sua família, e seus trabalhos em desenvolvimento. Presenteou-me com materiais que possuía, sendo um deles um catálogo que tenho até hoje, com desenhos feitos a partir de uma boneca estilo Barbie que reencontrou em seus pertences. Nos desenhos, ela deforma a figura feminina da boneca, entendo que numa alusão à deformação da percepção de si que nós mulheres temos ao sermos moldadas pelo padrão de beleza que essas bonecas nos impõem ainda crianças. Foi importante conhecê-la. Até então, eu desconhecia mulheres negras artistas visuais.”

Distância ainda maior percorreu Dalton Paula para conhecer o ateliê. Durante a abertura da mostra Agora Somxs Todxs Negrxs?, coletiva que ocupou o Galpão Videobrasil no final de 2017, o artista goiano tornou público o momento de aprendizado. “Eu gostaria de agradecer aos mais velhos, aos que chegaram primeiro, essas portas que estão sendo abertas”, disse. “Em 2007, quando fico sabendo do trabalho da Rosana Paulino na universidade”, continua, “eu fiquei com os olhos brilhando, porque conhecia a referência eurocêntrica e não me sentia representado”. Paula então bateu à porta porta de Rosana. “Sou artista negro, aqui de Goiás e gosto muito do seu trabalho. Como é que eu faço para conhecer mais?”, perguntou a Rosana. “Até hoje não saí do pé dela.”

“A Rosana Paulino desenvolveu o início de sua carreira num hiato entre produções de mestres artistas que tratavam da temática da religiosidade afro-brasileira nas décadas de 70 e 80, como são os casos de Rubem Valentim e de Mestre Didi, e o surgimento de artistas dessa geração que tem muita visibilidade a partir de 2010, como Sidney Amaral, Jaime Lauriano, Janaina Barros e Priscila Rezende”, avalia Renata Felinto, que integra o segundo grupo. “Temos todas e todos um sentimento de muito respeito pelo seu trabalho, sua ética, seu profissionalismo e sua generosidade em relação ao compartilhamento do modus operandi do sistema da arte, que é muito complexo e hermético.”

Rosana Paulino concorda. Ainda que tenha sido influenciada pela produção anterior de artistas afro-brasileiros, ela diz que sentiu a necessidade de buscar um caminho apropriado para o seu contexto social. “Eu olhava para essa produção, que admiro, gosto e devo muito, mas não sou desse ambiente, pois não fui educada em terreiro e não tenho esse conhecimento”, diz ela. “Como é que eu vou me colocar? O que é ser mulher, negra, periférica, lá na Freguesia do Ó? O que é crescer ouvindo rap? O que é pegar não sei quantos ônibus para chegar na faculdade?”

“Eu sou a primeira, talvez, a trazer essas questões”, especula. “Como isso não estava sendo feito, eu acho que realmente as portas começaram a se abrir para esta geração que vem depois.” Bem pouco depois, aliás. Rosana Paulino se recorda quando conheceu Sidney Amaral, artista morto em 2017 e que compartilhava muitas das questões enunciadas por sua contemporânea. “Você é a Rosana Paulino, não é? Eu estudei o seu trabalho!”, disse então o artista paulistano, apenas seis anos mais novo que Rosana.

Obra da série “Paraíso Tropical”, 2017

Editor da revista especializada em arte afro-brasileira O Menelick 2º Ato, Nabor Jr. descreve Rosana Paulino como “já postulante ao ‘cargo’ de mais bem sucedida artista negra da história do país”, atestando a sua posição central na produção contemporânea. O que levanta uma questão: por que demorou tanto tempo para uma instituição brasileira de peso realizar uma individual de fôlego como esta da Pinacoteca? Um rápido passar de olhos pelo histórico de mostras de Nuno Ramos e Adriana Varejão, para ficar em apenas dois artistas nascidos nos anos 1960, revela que esse não foi um problema para todos os artistas de sua geração.

“Quando pensamos em artistas brasileiros afrodescendentes, na sua representação nas instituições de arte; quando refletimos sobre o quanto conhecemos de sua relevância e contribuição para a história de um modo geral e para a história da arte brasileira em particular, a ideia que vem logo à mente é a de um território silenciado”, responde Fabiana Lopes em artigo incluído no catálogo da exposição Territórios: Artistas Afrodescendentes no Acervo da Pinacoteca, realizada em 2015.

Obras da série “Geometria Brasileira”, 2018

Solidão criadora

Apesar de ser mover sob o olhar de muitos, e de levar em conta essa responsabilidade, Rosana Paulino precisa da solidão para criar. “Quando você é artista, você tem que andar sozinho”, diz. “O movimento atrapalha no sentido de que muitas vezes você deixa de olhar as suas questões. Pelo menos no meu caso, pareceria que estou ilustrando as ideias de uma outra pessoa.” Paulino diz que nunca pertenceu a coletivos e que tampouco consegue dividir ateliê. “Eu tenho que trabalhar sozinha. Eu falo sozinha o tempo todo, enquanto estou trabalhando. Eu canto, danço, reclamo, xingo, falo alto, converso com a obra.”

Dona de hábitos noturnos, a artista pode passar a madrugada realizando testes com impressoras e criando novas combinações para gravuras. Esse perfeccionismo, no entanto, jamais se confunde com um elogio do virtuosismo. “A técnica serve para discutir uma ideia”, diz ela, que se protege de qualquer formalismo ao seguir o critério da “coerência interna” das obras, nas quais “a técnica transmite exatamente o que eu quero”.

A discussão sobre a forma está no centro da série mais recente da artista, desenvolvida no início do ano durante residência na Universidade Colgate, em Nova York, e que ilustrou a capa da Bravo! impressa sobre Diversidade. Geometria Brasileira é uma sucessão de colagens nas quais pessoas negras e indígenas, além de figuras da fauna e da flora brasileira, são cobertos parcialmente por quadrados e retângulos coloridos. O desajuste entre as formas geométricas e (o que poderíamos chamar de) a matéria brasileira ganha contornos violentos, como quando as primeiras tapam os olhos dos retratados, em um apontamento crítico dos limites do modernismo no Brasil.

Por outro lado, a geometria não é capaz de cobrir por completo aquelas pessoas, animais e plantas de traços curvilíneos, que encontram um jeito de permanecerem visíveis apesar daquilo que as oprime. É também entre as brechas do sistema herdado por este horizonte estético que aparece a obra de Rosana Paulino e, de certo modo, também esta retrospectiva, que nos informa sobre o que a arte contemporânea brasileira pode ser, caso olhe para o que já é.


Rosana Paulino: A Costura da Memória. Abertura: 8/12, às 11h. Visitação: até 4/3, de quarta a segunda, das 10h às 17h30. Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Grátis aos sábados. Pinacoteca de São Paulo: Praça da Luz, 2 — Luz — São Paulo.