Sobre o amor verdadeiro

Em “Relatos de um Gato Viajante”, um astucioso bichano e seu dono fazem uma jornada com emoção e aprendizado pelo Japão

Na última quinta-feira, dia 5, eu terminava a leitura do livro desta resenha quando a Academia Sueca anunciou o nipo-britânico Kazuo Ishiguro como vencedor do Nobel de Literatura de 2017. Pensava, por coincidência, em como autores japoneses vinham ganhando destaque nos últimos anos.

Banana Yoshimoto ganhou leitores brasileiros com seus livros sobre tragédias pessoais de pessoas comuns. O próprio Ishiguro, com histórias bem amarradas sobre memórias e passagem do tempo, consegue surpreender quando não envereda pela literatura fantástica ou ficção científica. E não dá pra deixar fora da lista Haruki Murakami, com quem eu e a maioria dos críticos mantemos uma relação de amor e ódio, que varia cada vez que lemos seus imprevisíveis enredos. Agora, outra escritora entra para esse time. Pouco conhecida no Brasil, Hiro Arikawa, de 45 anos, é autora de vários best-sellers no Japão, entre eles, o que acaba de ser lançado em português, Relatos de um Gato Viajante, que vendeu mais de 400 mil exemplares no país de origem.

À primeira vista, hesitei quanto ao livro por dois motivos: primeiro, não simpatizo com histórias sobre relacionamentos entre humanos e animais de estimação, pois são sempre a mesma coisa. Os protagonistas se conhecem sem grandes expectativas, criam uma amizade inabalável, cuidam um do outro e, no final, um dos dois morre, deixando uma angústia que perdura por dias naqueles leitores que (como eu) têm forte laço com seus mascotes. O outro ponto foi a linguagem, que inicialmente supus ser adolescente demais. Mesmo assim, a exceção foi aberta.

A história, como já mencionei, não difere de outras: o jovem Satoru resgata um gato vira-lata machucado e lhe dá o nome de Nana, que significa “sete” em japonês, devido ao rabo no formato deste número. Aos poucos, o bichano, acostumado à independência e solidão da vida nas ruas, vai cedendo e os dois criam um vínculo que se torna cada vez mais forte. Cinco anos depois, Satoru não pode mais cuidar de Nana e precisa encontrar alguém que o adote, o que faz com que procure velhos amigos. Assim, a dupla começa uma verdadeira jornada pelo Japão, com revelações sobre o passado de Satoru e o que lhe levou até aquele estágio da sua vida.

Um dos pontos fortes do livro, sem dúvida, é a narrativa feita por três vozes distintas: a de Satoru, sujeito pacato, extremamente dedicado ao seu bichano e melancólico por ter que encontrar-lhe outro lar; a de Nana, o mais divertido dos personagens, com todas aquelas características que conhecemos dos gatos e algumas quebras de clichês, mas sobretudo, com o sarcasmo, temperamento forte e inteligência que todo “gateiro” garante que os felinos possuem — é irresistível dar boas risadas ao se identificar com alguns aspectos da comunicação entre ele e seu dono. Aliás, nessa relação, não se sabe quem é dono de quem, e todos que possuem um esperto animal de estimação em casa sabem o que isso significa. E a terceira voz, não menos importante, é dos personagens que fizeram parte da vida de Satoru e agora voltam à tona, candidatos a “novos anfitriões” de Nana, mesmo que desconheçam os motivos da separação entre os dois.

Anteriormente, foi falado aqui sobre o dom que alguns autores têm de nos transportar para seus cenários. Acontece algo semelhante no livro de Arikawa. Conforme a viagem vai se prolongando, o leitor tem a oportunidade de conhecer particularidades da cultura japonesa: modos de agir em determinadas situações, intimidade dos relacionamentos afetivos, o jeito de encarar a vida e suas tragédias pessoais. Além da rota por diferentes paisagens do país, pela perspectiva delicada e poética de Nana: “Os campos onde tremulam as plantações de arroz. O mar, assustador com seu rugido estrondoso. O monte Fuji, que parece vir para cima da gente. As terras vastas e planas de Hokkaido, estendendo-se até onde a vista alcança. E as flores lilases e amarelas que crescem vigorosas ao longo da estrada”.

O que mais chama atenção é que, desde o início, sabemos que algo de ruim vai acontecer. Não é um livro com fatos surpreendentes. Oposta ao estilo de alguns dos seus conterrâneos, Arikawa escreveu algo relativamente previsível, já que aos poucos o leitor suspeita do que está por vir no final. Apesar disso, a leitura não desaponta.

É impossível segurar as lágrimas. É impossível ler sem querer, de imediato, abraçar muito forte o seu próprio bichinho de estimação. Mas a narrativa, tão fluida e sutil devido ao modo como os protagonistas a conduzem, garante que o enredo não caia na melancolia que geralmente cerca os dramalhões sobre humanos e animais. Se fosse por esse viés, justificaria minha frustração com histórias do gênero, como falei no início, e essa resenha teria tomado outro rumo, desaprovando o título de estreia de Arikawa no Brasil. Felizmente, neste livro tudo é balanceado na medida certa e meu pré-julgamento foi devidamente desconstruído.

Por um lado, Relatos de um Gato Viajante emociona ao falar de amizade, de perdas, do desespero que acompanha toda separação, e do sentimento mais puro, recíproco e verdadeiro que muitos podem ter: o amor dedicado ao animal de estimação criado como um membro da família. Por outro lado, a autora, em um golpe de mestre, dá a entonação que mais equivale a um felino que se preze e mostra como eles são criaturas mais espertas do que nós. Nana é responsável pelo final mais leve possível, tão lúcido como poucos humanos conseguem ao confrontar o inevitável, e sua fala fica gravada na mente: “Isso não é triste, de jeito nenhum. Vamos partir para a próxima jornada, relembrando todas as memórias que colhemos na nossa viagem. Pensando em quem partiu antes de nós e em quem virá depois”. Assim é a vida. Só falta a gente aprender a aceitá-la com tanto pragmatismo e serenidade quanto o gato de Hiro Arikawa.

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Relatos de um Gato Viajante, de Hiro Arikawa. Tradução de Rita Kohl. Alfaguara, 232 págs. R$ 44,90.

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