SP-Arte abre espaço à performance

Paul Setúbal e Karla Girotto estão entre os artistas que apresentam trabalhos simultâneos e ininterruptos

Andressa Cantergiani em “Psicografando Tunga”, performance apresentada no ano passado (Foto: Ênio Cesar)

Desde que se converteu em um festival, a SP-Arte apresenta uma série de atividades artísticas e educativas no Pavilhão da Bienal, além de uma programação paralela em galerias e espaços de arte da cidade. Com mercado ainda tímido, embora desperte cada vez mais interesse do público, a performance está integrada à feira desde 2015.

Esta é a primeira edição, no entanto, em que a linguagem terá um espaço exclusivo no Pavilhão. “Eu tinha uma ideia na cabeça que era colocar alguns projetos de performance juntos num único espaço, sem nenhuma separação entre os trabalhos”, diz Paula Garcia, responsável pela curadoria do setor.

Garcia selecionou cinco performances de longa duração, que serão apresentadas de modo simultâneo e ininterrupto ao longo dos cinco dias de feira. Os trabalhos são independentes — a maior parte deles solo — mas a interação entre os performers não está descartada, já que eles dividirão os 220 metros quadrados do segundo piso de hoje, quando a feira é aberta a convidados, até domingo.

Peso pesado

Na performance Compensação por Excesso, o artista goiano Paul Setúbal testa os próprios limites físicos ao segurar uma escultura original de Franz Weissmann com cerca de 200 quilos e 2 metros e meio de altura. Durante os cinco dias de feira, a obra não deve tocar o chão. “Para o Paul tinham duas coisas importantes: o peso físico da peça — que estará pendurada na diagonal da sala — e o peso histórico”, diz Paula Garcia. “Tinha que ser uma escultura que tivesse uma relevância histórica e, consequentemente, um valor alto”.

“Durante os 3 meses que antecedem a realização do trabalho houve uma sequência de negociações intermináveis”, conta Paul Setúbal. “Em um mesmo dia, o projeto era viável e inviável várias vezes”. O impulso do integrante do Grupo EmpreZa era, segundo diz, “lidar com os mecanismos da arte que legitimam os valores históricos e comerciais”.

“Fui tomado pela imagem de um corpo que pudesse sustentar com seu peso todo o valor histórico e comercial de uma obra de arte”, diz Setúbal. “É um corpo que perece à medida que sustenta o peso do objeto”.

Esboços do projeto “Compensação por Excesso”

Encontros

“Colocar realmente o corpo no embate, na ação”, segundo conta Garcia, é o que caracteriza a dupla Protovoulia, formada por Jéssica Goes e Rafael Abdalla, cuja performance Debris se inicia com a “ativação” de “disparadores”. “Eles sempre começam o trabalho com alguns elementos selecionados e que ativam ações e reações durante esse tempo de longa duração”, conta Garcia. Terra preta, cinzas, carvão vegetal amassado, água, argila branca e potes de cerâmica foram os elementos selecionados para a SP-Arte.

Em Dança Estranha, Karla Girotto propõe “um concurso de dança que descarta a participação de outros concorrentes”. Com histórico de trabalho no mundo da moda — no qual já testava práticas performativas — a artista paulistana terá à sua disposição uma série de roupas e acessórios. Estimulada por música, que escuta com fones de ouvido, dança e transforma sua imagem.

“Eu dançarei durante todo o tempo em que a feira permanecer aberta à visitação — dançar como qualquer pessoa pode dançar, sem envolver técnicas específicas ou outras tecnologias do corpo”. Um dos objetivos, segundo ela, é “a instauração de mundos sutis e moleculares”, capazes de “esgarçar o limiar das representações”, o que não deixa de envolver riscos. “Este encontro pode ser uma colisão, um sopro, um abraço, um carinho, um soco no estômago. Não é possível antecipar a natureza do encontro”, diz.

Na sexta-feira, Girotto terá como convidado um grupo de 15 senhores que fazem aulas de dança na Casa do Povo, e que serão vestidos pela artista para em seguida bailarem com ela.

Usina

Combinando gastronomia e performance, Gabriel Vidolin leva ao espaço expositivo diversos alimentos e especiarias. Paula Garcia conta que, “dependendo da energia que ele sentir da pessoa”, o artista-chef vai preparar “uma experiência para comer”. Uva, castanhas, temperos e óleos essenciais são alguns dos ingredientes.

Completa o conjunto a ação do coletivo Brechó Replay, que entra para destoar das outras performances, marcadas pelo tempo interno. “Eu precisava trazer um projeto para criar uma liga entre tudo isso, pra dar uma desestabilizada nesse espaço e trazer uma energia nova”, diz Garcia.

A cada dia os integrantes vestirão uma cor, tratarão de um tema específico (como as questões racial e de gênero) e terão o auxílio de um colaborador externo. Segundo Garcia, são “pessoas que estão nessa rede de trabalho deles, pessoas que trabalham na noite, travestis, pessoas que fazem trança de raiz, fotógrafos, stylists”.

Garcia não economiza elogios para o grupo de jovens. “Uma coisa muito interessante do Brechó é que são pessoas que estão vindo mais das bordas de São Paulo, são pessoas menos privilegiadas no sentido econômico, que tem realmente lutado para continuar produzindo como artistas”, diz. “Eu sinto que eles estão o tempo inteiro com esse corpo ativo. O Brechó é essa usina de energia que está o tempo inteiro produzindo ideias — e o resultado do trabalho performático e estético é muito sofisticado”.

“Dança Estranha”, de Karla Girotto

Outras vidas

Ainda que sejam apresentadas em uma feira de negócios de arte, Garcia conta que não foi discutido se as performances estarão à venda — apenas Paul Setúbal é representando por uma galeria. “A venda de performance é uma coisa que depende muito do artista e de como ele cria os protocolos de venda do trabalho”, diz. “Tem artistas que não vendem performances, que vendem só documentos de performance, como foto e vídeo, por exemplo”.

O mercado da performance ainda não se consolidou, mas está em crescimento, o que obriga espaços de arte a se adaptarem a um meio que a princípio parece contrariar a lógica mercantil. “Você está trabalhando com a matéria humana, tem demandas, tem coisas que às vezes as próprias instituições, as feiras, as galerias, os museus, todo mundo está aprendendo a lidar com esse tipo de produção”, diz Garcia, que compara com o período de transição por que passou a videoarte até ser assimilada.

Além da oportunidades de negócios, o espaço dedicado à performance na SP-Arte promove a aproximação do público com a linguagem, cujas potencialidades são defendidas por Karla Girotto. “Eu penso que a performance instaura, promove, intensifica modos de existir outros, diferentes e que atravessam o emaranho-ímã-aqui-agora”, diz a artista. “Nestas experiências, percepções são deslocadas, transformadas e outras possibilidades de vidas e mundos podem emergir”.


SP-Arte. De hoje (só para convidados) a 15/4. Aberto ao público de quinta a sábado, das 13h às 21h, e no domingo, das 11h às 19h. Ingressos: R$ 20 a R$ 45. Pavilhão da Bienal: Av. Pedro Álvares Cabral, s/n — Parque do Ibirapuera (portão 3) — São Paulo.

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