‘Super Violão Mashup’ amplifica as possibilidades dos violões brasileiros

Lucas Santanna + Kassin Fotos: Divulgação

Começa hoje no Rio o festival Super Violão Mashup, que acontece sempre às sextas e sábados, até primeiro de abril no Oi Futuro Ipanema. Influenciado pelas diferentes formas de processar o som do violão apresentadas no Sem Nostalgia, álbum de 2009 de Lucas Santtana, o festival toma emprestado o título de uma das músicas do disco para colocar frente a frente seis duplas formadas por um músico e um produtor, que, juntos, vão transformar ao vivo o som do violão.

O violão está no centro da música brasileira desde sempre. De Villa-Lobos a João Gilberto, de Jorge Benjor a Yamandu Costa, o Brasil produz não apenas ótimos músicos, mas imprime diferente maneiras de tirar som das cordas de aço ou nylon. Ampliar a exploração do instrumento aos moldes do que foi feito em Sem Nostalgia amplifica em muito as possibilidades do instrumento.

“Eu sempre trabalhei nos meus discos essa mistura entre eletrônico e acústico. Com os programas novos de hoje, essa fronteira está cada vez mais embaralhada. Têm discos meus em que as pessoas pensam que eu gravei um quarteto de cordas, mas na verdade é eletrônica, e em outras horas acham que é sintetizado quando na verdade é um quarteto ou um sample de um instrumento”, conta Lucas Santanna, que se diz ao mesmo tempo feliz com a homenagem e desafiado a trabalhar com Kassin. “Vou tocar as minhas músicas e o Kassin vai processar, interferir, colocar elementos. Também vou ter um violão ligado numa pedaleira”, diz Santtana, que está finalizando mais um projeto, desta vez um álbum conceitual escrito em parceria com J.P. Cuenca, Modo Avião.

Sobre o novo trabalho, adianta: “É uma narrativa, escrevi o argumento, a história e o Cuenca trabalhou a partir daí. Me trouxe de volta e coloquei algumas frases influenciadas por autores que estava lendo. Cuenca gostou de umas, mexeu em outras. Foi um trabalho em parceira. São cenas, como num filme para ver sem imagem. Vamos ver se as pessoas conseguem ter essa atenção.”

A preocupação é legítima, como encarar um filme sonoro de quarenta e poucos minutos se até um notório consumidor de música nova como Santtana diz ter mudado seus hábitos nos últimos anos? “Fiquei dois anos sem ouvir música. Agora voltei ouvindo a playlist de descobertas do Spotify. Separo as músicas que gosto em outras playlists, se é mais calma ou mais pra dançar, mas não ouço mais o disco todo. É aprender um jeito novo de ouvir música.”

Voltando ao violão, ou aos violões brasileiros, como enfatiza, as maiores influências de Santtana que entram no palco hoje são Gil e Caetano, com quem tocou, e Jorge Ben, “o maior de todos”.

Além da série de seis shows, o Super Violão Mashup também vai virar um EP reunindo seis canções em gravações inéditas, feitas pelas seis duplas de artistas, que será lançado junto com um livro de perfis e entrevistas, escrito pelo crítico Carlos Albuquerque. “Os show e o processo do EP também serão documentados pelo diretor Vitor Souza Lima para dois minidocs”, diz Julianna Sá, que concebeu e fez a curadoria do projeto.

A Bravo! ouviu os seis músicos da dupla para dar uma dimensão do que vai acontecer no palco a partir de hoje.

Lucas Santtana

Qual a influência do violão brasileiro no seu trabalho?

Olha, acho que para quem ainda compõe no violão, como eu, a influência de todos que vieram antes é meio que natural. Até porque na música ocidental há um limite de notas e acordes, então não tem muito para onde fugir.

Como foi o trabalho em parceria com Kassin?

Kassin foi baixista da primeira banda que tive, em 1998. De lá pra cá não fizemos mais nada juntos. Então esse projeto foi um presente. Já fizemos um ensaio mais técnico, de escolha do repertório e de samplear o violão, etc. e essa semana vamos basicamente só ficar tocando e encontrando os caminhos que acharmos interessantes. A única coisa que combinamos foi de não fazer um show de violão tipo MPB. De resto o que vier é bem vindo.

Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?

Primeiro a vontade de tocar junto com o Kassin depois de tantos anos. Depois, a vontade de encontrarmos juntos caminhos interessantes para esse show, que já vem com uma limitação criativa, a mesma que me impus quando fiz o disco Sem Nostalgia, de onde vem o nome do projeto inclusive. E por fim, dividir essas experiências com o público.

Iara Rennó

Iara Rennó + CIbelle

Qual a influência do violão brasileiro no seu trabalho?

Primeiramente, vale dizer que ‘o violão brasileiro’ são muitos, né?! Eu comecei na música tocando violão na adolescência de olhar, ouvir, porque minha mãe e meus tios todos tocavam. Minha mãe (Alzira E) no início dos anos 80 fazia duetos com Almir Sater, ele na viola e ela no violão de 12 cordas, uma parada bem sofisticada, com aquele tempero ‘fronteiriço’ natural das coisas ali do Mato Grosso do Sul. Da mesma região, algumas gerações anteriores, outra mulher de personalidade única no violão e seu rasqueado foi Helena Meirelles. Já meu tio Sérgio (Espíndola) tocava o violão da escola da bossa nova. Essa linhagem que veio de Garoto, Baden, Rosinha de Valença, João Gilberto e desemboca em Gilberto Gil, João Bosco, entre outros mestres. Na tradição do choro e daí para o samba, os incríveis fraseados do violão 7 cordas. Tem ainda aqueles artistas que expandiram o instrumento além-gênero, como Egberto Gismonti e o Duofel, de Luiz Bueno e Fernando Melo. A popularidade imensa que o violão — esse descendente do alaúde português — alcançou no Brasil é de fato uma coisa curiosa, e como eu ouvi de tudo isso um pouco, acredito que essas influências estejam de alguma forma presentes no meu trabalho, ainda que diluídas e antropofagizadas. Atualmente eu toco muito mais guitarra. Na DonaZica (minha primeira banda) eu tocava mais violão, e achei muito interessante o convite pro Super Violão Mashup, que me faz voltar a explorar o instrumento.

Como foi o trabalho em parceria?

Cibelle eu eu já tínhamos trabalhado juntas no projeto de marchinhas autorais, o coletivo A.B.R.A. Pré-Ca (junto com Rubinho Jacobina e o Do Amor), uma coisa aqui outra ali, mas é inédito fazermos um show todo assim, só nós duas. Ainda mais dentro de uma proposta como essa. Eu acho que o interessante do projeto é que cada dupla vai fazer um show totalmente distinto e único. A maneira como Cibelle vê o modo de processar o violão é também muito pessoal, assim como minha forma de tocar. A gente construiu o repertório de uma forma bem sensitiva, fui jogando umas músicas de diferentes épocas do meu repertório, que ela foi curtindo, e sugerindo também outras.

Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?

Já sabemos que nossas vozes timbram muito bem, mas realmente montar esse show é um desafio pra nós. A expectativa é de que o público curta tanto o quanto a gente!

Qinho

Quinho + BadSista

Qual a influência do violão brasileiro no seu trabalho?
É total! Comecei a me tornar pesquisador musical aos 16 anos por causa do Tábua de Esmeraldas, do Jorge Ben. Na época não existia todo esse acesso de hoje em dia e tive que começar a comprar vinis pra poder ouvir os álbuns dele da década de 60 e 70. A partir disso vim a conhecer o universo da black music, do jazz e da música brasileira de forma mais profunda. Minha base musical é fortemente calcada nesse violão jorgebeniano, isso inclusive é bem reconhecível nos meus primeiros trabalhos, enquanto tocava com a banda Vulgo Qinho & Os Cara e depois no meu primeiro disco solo Canduras. Além é claro do violão de João Gilberto que atravessa quase tudo na música brasileira desde que veio ao mundo.

Como foi o trabalho em parceria?

É sempre muito instigante uma proposta que coloca dois artistas para convergirem e criarem algo novo a partir desse encontro. É um desafio, um tiro no escuro, um risco gostoso demais de se jogar. Acaba sendo um processo de grandes descobertas e de muito aprendizado. O campo que a BadSista atua me interessa muito, eu tenho flertado que esse universo mais eletrônico nos últimos anos e ela é uma beat maker/produtora de mão cheia nessa cena da Bass Music e do Trap. Curto muito a pegada dela mais pop e ao mesmo tempo mais pesada, carregada nos sons graves e estruturada a partir da força do som de bumbo e caixa. Misturar o violão brasileiro com a ponta da criação eletrônica funk/trap é uma das coisas que mais interessa enquanto estética atualmente.

Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?

Ótima expectativa, porque se trata de um show único e inédito, então “vai ser o que vai ser”. Em cima do palco a gente vai descobrir muitas coisas, como sempre, a gente nunca chega totalmente pronto ao palco. Como normalmente é o palco que molda o nosso trabalho, vai ser diferente nesse caso porque só faremos uma apresentação. Então isso adiciona um elemento ainda mais incendiário sobre a apresentação. Por tudo isso eu acho que vai ser muito desafiador e ao mesmo tempo extremamente prazeroso, porque vamos estar surfando uma onda inédita pra gente também. Essa emoção é única e isso acaba transparecendo pra quem assiste.

Arthur Nogueira

Arthur Nogueira + Jonas Sá

Qual a influência do violão brasileiro no seu trabalho?

Por influência do meu pai, ouvi música brasileira desde cedo, conheci e aprendi a admirar a obra de violonistas como Baden Powell, Turíbio Santos, Raphael Rabello. No entanto, tive vontade de começar a tocar violão por causa dos compositores, por causa da canção. Eu não me considero um violonista, minha relação com o instrumento se dá muito mais pela poesia que pela música propriamente dita. Até o ato de tocar uma canção de alguém, para mim, tem um quê do processo de compor, porque, ao invés de tentar reproduzir algo, é como se, por causa do violão, eu transformasse aquela canção em uma canção minha.

Quais os interesses nessa troca com o Jonas?

O Jonas Sá fez dois discos muito bons e importantes. Ouço direto e sempre quis fazer algum trabalho com ele. Pensei até em chamá-lo para produzir um disco meu, o que ainda não rolou. Como moro em São Paulo e ele no Rio, nosso primeiro contato foi virtual. Conversamos por e-mail e por telefone e as primeiras ideias surgiram. Sinalizei as canções dele com que mais me identifico e vice-versa. Ficamos a fim de cantar algo de outro compositor também, que seja uma referência comum. A próxima etapa será uma imersão, no Rio. Queremos passar pelo menos uns cinco dias juntos, antes do show, para ter certeza do que vamos apresentar ao público.

Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?

​O palco é sempre uma surpresa, ainda mais nesse caso, a estreia de uma parceria, em todos os sentidos. Minha maior expectativa é ter tranquilidade para demonstrar o quanto admiro o Jonas e o quanto percebo que nossos trabalhos têm muitas afinidades, das mais explícitas às menos previsíveis.

Gui Amabis

Gui Amabis + Marcelo Cabral

Qual a influência do violão brasileiro no seu trabalho?

O primeiro CD que comprei foi do João Gilberto, me apaixonei pela sua voz e o jeito que tocava seu instrumento. Logo depois, quando adolescente, escutei o disco do Dorival Caymmi e seu violão, conseguia ouvir a orquestra inteira ali e aquilo me fez pensar em como era maravilhoso aquele instrumento e como a música era uma expressão universal. Nessa época eu não estudava música, eu era professor de natação e não me imaginava como músico. O impacto foi tão grande que aquelas melodias não saíam da minha cabeça, como se minha nuca fosse pressionada. Nesse momento eu senti que era parte da minha vida, devia ter uns vinte e quatro anos. Decidi então estudar já que não sabia nada na prática. Através de um amigo conheci um violonista carioca chamado Levy Miranda, ele era um professor nato e me mostrou todo o universo do violão brasileiro, de Dilermando Reis a Baden Powell. Isso me acompanha até hoje, acho que foi uma das coisas mais importantes na minha formação como músico.

Como e trabalhar com o Marcelo Cabral?

Conheci o Cabral nessa escola, eu novato e ele já com alguns anos de estudo. Levy, não sei porque, me colocou na turma desses caras que já estavam lá há muito tempo, e Marcelo e Pedro Simão me acolheram me ajudando nos estudos. Depois disso fizemos algumas coisas juntos desde gravar a tocar ao vivo. O trabalho foi fluido e divertido, montamos nosso setup e saímos tocando, Cabral me conhece muito bem e minhas músicas mas deixamos um espaço para a improvisação pois achamos que isso pode ser rico e interessante.

Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?

Sempre que toco fico com medo e dá aquele frio na barriga, fico “tocando” o show na minha cabeça por dias a fio, tentando escutar tudo e organizar as coisas. Com o tempo tenho aceitado minha condição e estou conseguindo deixar tudo mais solto, mais humano. Já que a música é alienígena não cabe a nós dizer como ela deve ser, temos apenas que tentar escutar o que ela diz.

Luisão Pereira

Luisão Pereira + Livia Nery

Qual a influência do violão brasileiro no seu trabalho?

Nasci em Juazeiro, na Bahia, na mesma rua, a duas casas pra ser exato, da casa de João Gilberto. Ainda criança o vi algumas vezes em minha casa, principalmente em companhia do meu irmão mais velho. Já adolescente, entrei numa viagem de ouvir muito punk rock e metal, mas, em algumas idas de João a Juazeiro, por que ele se refugiava no sítio da minha família. E eu já o vi tocando violão com meu irmão na beira do rio. Sabia da importância dele, mas minha cabeça adolescente-punk não dava muita bola… (infelizmente). Naquele mesmo sítio eu vi Luiz Galvão com o povo dos Novos Baianos, vi Luciano Souza (um dos maiores guitarristas do Brasil) Hermeto, Baden.. tanta gente boa passava por lá. Além da presença constante do meu tio Ederaldo Gentil com o seu violão e canto de samba. Bem mais tarde esses encontros começaram a fazer sentido, a cabeça ecoa por todos aqueles tempos e é inevitável não se engendrar.

Como foi o trabalho em parceria?

Está sendo ótimo. Sou em muita das vezes produtor do disco dos outros, daí estou meio que acostumado em me meter em arranjos, etc. Mas desta vez está sendo bem diferente! Como é a primeira vez que faço um show quase todo cantando sozinho, tenho deixado o rumo das coisas com Lívia Nery. Ela é incrível, e as canções estão indo prum caminho que eu jamais imaginara. Ela é uma usina de ideias inesperadas. Eu to gostando bastante e está ficando lindo.

Qual a expectativa para mostrar esse trabalho ao vivo?

Então, estou na música desde os meus 13 anos, mas sempre ficava em algum instrumento e deixava uma outra pessoa cantar as minhas músicas. Foi também assim com a Penélope (1996–2004) e com o meu último trabalho autoral, o Dois em Um (2008–2016). Cantava uma ou duas musicas no máximo nos discos e shows, mas agora estou disposto a encarar o palco também no microfone e este convite chegou na hora exata. Estrear assim e no Rio… Me deu um gás pra revisitar músicas minhas que foram gravados por outros e até uma parceria que fiz a poucos dias com o pernambucano Juliano Holanda. A canção vai sair daqui de casa direito pro palco do Super Violão Mashup. ​No repertório tem músicas também de Livia e ela também vai cantar. Estou com boas vibrações pro show, acho que vai ser massa! ​

SERVIÇO

Festival Super Violão Mashup

Quando:

Lucas Santanna + Kassin (17/3) — 21h

Iara Rennó + Cibelle (18/3) — 21h

Quinho + Badsista (24/3) — 21h

Arthur Nogueira + Jonas Sá (25/3) — 21h

Gui Amabis + Marcelo Cabral (30/3) — 21h

Luisão Pereira + Livia Nery (1/4) — 21h

Onde:

Oi Futuro Ipanema

Rua Visconde de Pirajá, 54 — Ipanema

Ingressos:

R$ 30 (inteira)

R$ 15 (meia)

ticketplanet.com.br

Informações:

31 (21) 3131- 9333