Três perguntas para Cildo Meireles

Um breve papo com o artista que expõe no Sesc Pompeia, em São Paulo, obras dos anos 60 até hoje

Andrei Reina
Oct 4 · 6 min read
Foto: Everton Ballardin

Com um tênis sem cadarço confortável e uma boina, adereço substituído em outras ocasiões por um boné, Cildo Meireles caminha devagar e fala baixo. Prefere as pausas para fumar um cigarro a sós do que o agito da imprensa. Quando é reconhecido, acena com a cabeça, aperta a mão e abre um sorriso discreto. Cordial, a sua figura em tudo se opõe ao teor das cerca de 150 obras que expõe no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Na área de convivência, no galpão e no deck do prédio planejado por Lina Bo Bardi, o artista apresenta uma “antologia poética” de sua carreira. O termo o agrada mais que “retrospectiva” para classificar Entrevendo, exposição com curadoria de Júlia Rebouças e Diego Matos que cobre os mais de 50 anos de produção de Meireles, desde os anos 60 até os dias de hoje.

Em breve conversa com a Bravo!, o artista comentou a concepção das instalações anticoloniais Olvido e Missão/Missões (Como Construir Catedrais), a influência da física em seu trabalho e a indignação provocada pela política atual, estampada, com o rosto de Marielle Franco, na mais nova cédula de suas Inserções em Circuitos Ideológicos.

Fotos: Carol Mendonça e Everton Ballardin

Na área de convivência estão expostas instalações que elaboram o tema da colonização, como Olvido e Missão/Missões (Como Construir Catedrais). Li no catálogo que elas foram elaboradas em um período de tempo próximo, entre o final dos anos 80 e o início dos 90. O que interessou o senhor nessas obras?

Na verdade, Missão/Missões e Olvido eram parte de três projetos que eu tinha preparado para a exposição com o [curador] Frederico Morais em 1987 chamada A Visão do Artista, que era sobre os 300 anos da missões e circulou por cinco diferentes lugares — Brasília, Rio, Masp aqui [em São Paulo], Curitiba e Porto Alegre. Missão/Missões e Olvido têm praticamente a mesma estrutura. É uma tentativa de equação, conectando poder material, poder espiritual e o resultado disso, que é tragédia. O terceiro projeto, que eu não cheguei a realizar e que seria o prioritário entre os três, era simplesmente uma torre. Eu consegui uma planta métrica do [sítio arqueológico de] São Miguel das Missões e da torre da matriz de lá, que tinha 23 metros. A ideia era fazer, a partir dessa planta, desenhos de cada pedra — sucintamente, esquematicamente — e plastificar. Eram, se não me engano, 4 mil pedras nas quatro faces dessa torre. E em algum momento dessas exposições, você teria esses 4 mil desenhos plastificados. Nessa mesma época, eu tinha um ateliê na Lapa [no Rio de Janeiro] com um açougue embaixo. Todo final do dia vinha um caminhão recolher os ossos e tal. Eu achei que seria fácil fazer [a obra] assim. O que acabou sendo difícil, porque em 1987 já não tinha mais nenhuma empresa que processasse os ossos inteiros, em caldeiras e tudo. Só tinha uma empresa, com a qual estabeleci uma boa relação e consegui essas canelas de boi. A primeira ideia era fazer isso com ossos humanos. Ir numa Baixada Fluminense, acertar uma grana… mas eram 2500 ossos, ia ser complicado. Aí optei por usar canelas de boi. Se você notar, Missão/Missões é [composta] exatamente de ossos e moedas, praticamente o mesmo material do Olvido. Só que lá no Olvido, ao invés de hóstias, trabalhamos com as velas e, ao invés de moedas, usamos notas de todos os países das Américas. Os ossos são uma coisa comum. Mas eu fiz primeiro Missão/Missões, que acabou sendo a peça da exposição do Frederico. Depois, estava convidado para a Bienal de São Paulo e resolvi fazer um dos três projetos, um dos dois que não tinha executado, que era o Olvido. E a primeira ideia eu acabei nunca fazendo.

Fotos: Everton Ballardin e Carol Mendonça

Chama atenção em seu trabalho o interesse pela ciência — até pela geometria euclidiana e por ferramentas de medição — e ao mesmo tempo uma tentativa de se distanciar dela. Como o senhor acha que esse interesse e, digamos, essa desconfiança da racionalidade operam na sua obra?

Eu sempre fui curioso, sempre me interessei, mas não sou um especialista, não sou cientista. Em princípio, isso tem a ver com a teoria da incerteza do [físico alemão Werner] Heisenberg, que destruiu essa ideia da objetividade na ciência. Essa foi talvez a razão principal. E a outra é que eu sempre achei que as artes plásticas têm essa possibilidade de, a cada novo relâmpago que passa na sua cabeça — você não sabe definir o que é, sabe que passou e aos poucos vai se aproximando. Um pouco como aquela história do Contatos Imediatos de Terceiro Grau do [Steven] Spielberg. Você lembra quando ele está no aniversário do filho e bate uma coisa que ele não consegue circunscrever? Aí está lá na mesa e de repente ele começa a pegar o bolo, fazer uma forma, que é a montanha que está perto… É sempre um pouco assim. Mas eu acho que as artes plásticas têm essa possibilidade, de você sempre começar do zero. Eu tento, porque eu nem sei se isso existe. Essa aparente diferença, no fundo, obedece a uma lógica interna que eu ou alguém um dia vai conseguir estabelecer o que é e unir essas coisas todas aparentemente diversas. Aí tem outro conceito que me interessa muito também, da chamada nova física. É a ordem implícita, descoberta por um cientista americano [David Bohm] quando ele estava vendo televisão em Nova York, onde morava. Era um programa didático sobre química. O professor botou em um recipiente tinta azul e no outro tinta amarela, aí começou a misturar até um ponto em que chegou ao verde. A partir desse ponto ele continua a mexer, mas em sentido de rotação contrário, até decompor outra vez em amarelo e azul. Eu acho que é um pouco isso, essa questão da ordem implícita, é alguma coisa que subsiste em cada elemento.

Foto: Pat Kilgore

Mais cedo o senhor comentou que não gosta de arte panfletária e que se interessa mais pelo aspecto formal dos trabalhos. Tomando como marcos o Herzog e a Marielle, lembrados nas Inserções em Circuitos Ideológicos, quando a política transborda para as suas obras?

Os trabalhos ditos políticos são uma parte muito pequena da totalidade do meu trabalho. E na verdade eles aparecem com esse nível mais explícito de leitura em vários deles. Mas é só um dos níveis do trabalho e nem sempre aquele no qual estou mais engajado. Quando me sinto na obrigação de fazer alguma coisa, eu faço. É um trabalho que você pode ir ampliando, continuar a fazer. E o que motivou, claro, é o que motiva a maioria das pessoas que se defronta com essa situação, a indignação. É como esse idiota aí, que acho até que é do teatro na Funarte [o diretor Roberto Alvim]. Soube ontem que ele chamou a Fernanda Montenegro de sórdida. É uma imbecilidade, um desrespeito inclassificável. Esse tipo de coisa realmente me deixa assim, indignado. Claro que o mais fácil era chamar ele para o MMA, para o octógono, não é? Mas não vamos baixar o nível. Agora mesmo lá o idiota do Rio, o [governador Wilson] Witzel, com aquele discurso dois dias depois do fuzilamento da menina [Ágatha Félix] de 8 anos. São realmente situações assim que qualquer pessoa que tem o mínimo de integridade moral jamais concordaria.


Entrevendo — Cildo Meireles. Em cartaz até 2 de fevereiro de 2020 com entrada gratuita. Sesc Pompeia: Rua Clélia, 93 — Pompeia — São Paulo.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

Andrei Reina

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