Tragédia em preto e branco

Quase em câmera lenta e sem muitos diálogos, “Vazante” revela o país que se configurou sobre as raízes de um sistema patriarcal e escravista. E o preço que ainda se paga por isso

Foto: Ricardo Telles/Divulgação

Vazante é um filme que se constrói nos silêncios. Não há sorrisos, não há gentilezas, a paisagem é fria, ali ninguém está bem. Ninguém poderia ser feliz testemunhando a desgraça alheia.

Na Serra de Diamantina de 1821, quando a história do filme se desenrola, a população nacional era composta por milhões de escravos e, já não havia mais no ar a atmosfera luxuriante do tempos de riqueza gerada pelo diamante, mas restava uma casa grande decadente.

Nos 300 anos de escravidão, chegaram da África cerca de 5,8 milhões de pessoas que foram escravizadas no Brasil. E, muito diferente do que Gilberto Freyre e tantos outros estudiosos do tema preconizaram, não houve empatia entre raças, não houve relações cordiais, e os escravos não perderam sua representatividade pessoal, não se “colocaram no devido lugar” como poderiam desejar os brancos.

O filme, dirigido por Daniela Thomas, tem início com o luto do senhor português, Antônio, tropeiro e traficante de escravos, que perdeu a mulher e o filho no parto. Sua dor pungente ocupa o espaço, os cantos, a observação dos negros. Na aridez do entorno, das relações, parece que a dor dele é maior que a do mundo. Sempre nos pareceu que a dor do branco é mais dor que qualquer outra. O difícil nesse momento é constatar que estamos solidários com o senhor português, a despeito da multidão de homens escravizados ao redor.

Desde a década de 1980, as novas abordagens sobre o tema da escravidão trouxeram uma visão mais complexa do período, em que escravos deixaram de ser vistos como os objetos de posse e passaram a ser vistos como agentes históricos, que não estavam isolados da esfera social do regime escravista.

Vazante não se propôs a fazer essa discussão, no entanto não a recusa. No olhar lancinante dos negros percebe-se seus interesses divergentes dos do seu senhor, sua resistência muda, mesmo sem rebeliões, sem rebeldia, está ali, mesmo sem voz, na destreza, na energia.

Ainda que a dor do português branco comova o espectador branco, é a força dos negros que o seduz. É um alívio quando seus corpos dançam sobre a terra e seus cantos ecoam pela senzala — lugar testemunha de nossa vergonha, mas o único onde a vida pulsa.

Um soco no estômago

Vazante é apresentado primeiro pela visão reduzida de Antônio e, depois, pelo olhar da sinhazinha branca, Beatriz, filha de senhores falidos e, que aos 12 anos, foi obrigada a casar com o viúvo da sua tia morta no parto, o senhor português quase bicho.

A sinhá menina chega à fazenda de Antônio e no meio da penumbra, dos meios tons, reais e metafóricos, e, afundada em solidão, consegue imprimir alguma leveza às cenas, ainda que seja, ela também, mais uma dos desventurados.

Beatriz identifica a vida na senzala infinitamente mais atraente, em contraponto à melancolia da casa grande. Aproxima-se dos negros, crianças grandes como ela e, ali, tem alguma alegria. Num equívoco juvenil, julgou que poderia usufruir desse que parecia um mundo paralelo.

E assim seguem-se dois filmes, o que transcorre pela observação declarante e indagadora de Beatriz, e o outro, que se passa apenas no silêncio, no que nos provoca mal-estar, no que até hoje dilacera a nossa identidade nacional.

Não é um filme sobre a escravidão, é um filme sobre desvalidos de todos os lados, que não sabiam como lidar com as condições perversas em que estavam enredados. Cada um sobrevive como pode, cada um carrega a sua miséria.

A filmagem em preto e branco, o rigor formal, a precisão estética, os cortes rápidos em preto para marcar passagens importantes, o ritmo inflexível da montagem, quase em câmera lenta, vão construindo a sensação claustrofóbica de que não há saída possível.

Soma-se a trilha sonora desenhada com o mesmo cuidado por Vasco Pimentel, seca como a paisagem e as rochas a trilha não tem música, apenas o trinado dos pássaros, o farfalhar de galhos, insetos, os sons de animais, do vento, das água, o que confere maior crueza à narrativa.

As montanhas e os planaltos da região do Serro, envolvidas em nuvens densas, ajudam a crescer a atmosfera sombria, apoiada pela economia de ações e diálogos lacônicos. A câmera avassaladora de Inti Brione faz das imagens o principal meio de comunicação.

À medida que o filme transcorre, a sensação de falta de ar vai ficando maior. A cada encontro forçado de Antônio com a escrava Feliciana constata-se que, nas raízes do Brasil, o que se tem é uma miscigenação decorrente de estupros, de grandes atos de violência de gênero, de raça, de poder. Certeza que fica comprovada no final do filme que, materializa de forma superlativa, os pecados dessa nossa nação. Um soco no estômago.

Vazante não se pretende um ensaio sobre a escravidão e nem um documento histórico, mas tem o vigor de nos fazer pensar que não seria possível haver fertilidade de nenhuma espécie numa configuração de senhores e dominados. E que não há Brasil possível enquanto estupros de todas as ordens seguirem acontecendo sob os olhares concordes de governantes e autoridades, porque não poderá ser bem sucedida uma nação que não reveja o peso da dor de quem foi e segue sendo discriminado.

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