Trama da intolerância

Foto: Divulgação/Renato Parada

Publicitário bem-sucedido de 43 anos, José Victor costuma trocar mensagens com Walter, amigo da mesma profissão e faixa etária. O primeiro, com o casamento em crise, conta que anda saindo com Dani, 20 anos, redatora-júnior da agência; o segundo, portador do vírus HIV, fala de suas escapadas na sauna Moustache’s. Por temperamento e hábito, ambos se valem daquele tipo de humor — não muito elegante, digamos — que dois caras podem usar em privado. Só que Teca, mulher de José Victor, descobre as mensagens. E elas vazam para as redes sociais.

Assim se constrói a narrativa de O Tribunal da Quinta-feira, novo romance de Michel Laub que chega hoje às livrarias. Em pauta, a intolerância. Que perpassa não só as relações sociais, mas também e principalmente as pessoais, lidas por uma geração que viu a Aids ser chamada de “peste gay”, lá nos anos 80, e assiste à cotidiana predisposição para os linchamentos virtuais na internet. Sobre esses assuntos, o escritor falou com a Bravo!

Como surgiu a ideia de usar um linchamento virtual em um romance?

Eu queria escrever um livro sobre tolerância, e foi natural que esbarrasse numa trama que tivesse a ver com redes sociais — a forma como elas mudaram as relações pessoais, a política, a cultura. Numa era de radicalização, e a eleição do Trump é só um exemplo disso entre tantos, não há como fugir do palco onde as ideias parecem estar cada vez mais sectárias. Claro que, na literatura, escrever um livro político não é necessariamente tratar de política partidária, de atualidades do noticiário. O viés da sexualidade me pareceu a forma literária mais interessante de falar sobre isso tudo.

Estamos perdendo a capacidade de tolerar diferenças?

Nenhuma dúvida sobre isso, e por motivos que já foram bastante discutidos: a tribalização da cultura, os algoritmos que nos fazem ter contato apenas com aqueles que pensam igual a nós, a crise de representatividade que põe em cheque a ideia de valores universais, e por aí vai. A literatura talvez tenha um papel importante no combate a esse estado de coisas, mesmo que o seu alcance não seja lá muito grande. Ela trabalha com a empatia, com ambiguidades que jamais aparecerão no discurso publicitário, corporativo ou político. Então, há uma potência a ser explorada aí. O fato de escolher um narrador ambíguo para este romance, alguém capaz de cometer atos sórdidos e também atos de grandeza, é uma tentativa de chegar a essa zona cinzenta onde as ideias e sentimentos não estão subordinados à ortodoxia ideológica ou moral — uma condição de liberdade que hoje não se encontra tão facilmente fora da ficção.

Dá para dizer que o livro é também sobre relacionamentos afetivos?

Sim, apenas considerando que os afetos não são imunes à história, à política e à cultura. Ano passado li uma matéria sobre aplicativos de encontros na Argentina onde os participantes declaravam se eram pró ou contra a Cristina Kirchner. Isso é uma caricatura do que já acontece na vida não virtual, lá, aqui e por todo o lugar — amigos antigos que brigam por diferenças de opinião, esse tipo de coisa. Talvez sempre tenha sido assim, mas a frequência e a intensidade com que isso ocorre hoje é maior. A tecnologia facilita isso. As redes obrigam você a se deparar com 100% do que pensam as pessoas ao seu redor, e isso é uma óbvia fonte de atritos.

Como andam as edições de seus outros livros no exterior?

Diário da Queda sai em 2017 na Turquia. É o último país, entre os doze que compraram o livro, a publicá-lo. A Maçã Envenenada sai também em 2017 na França e na Inglaterra. Não acompanho tão de perto a carreira dos livros no exterior, mas me parece que a maioria deles repercute num circuito restrito — que, com uma ou outra exceção, não é muito diferente do circuito literário brasileiro. Mas me considero privilegiado nessa área. É um grande esforço para editores, agentes, tradutores e órgãos de apoio conseguir publicar autores nacionais lá fora.

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