TRANSpensamentos em CIScorpos

Rafael Ventuna
Jun 27 · 5 min read

Radicado em Berlim, coreógrafo brasileiro mostra em São Paulo solo que discute identidade de gênero

© Dieter Hartwig

Corpo e mente. Hardware e software. Geralmente, é pelo conflito que se descobre a existência da dualidade indissociável entre o palpável e o intangível. Entre o exterior e o interior. O outro e si mesmo.

O coreógrafo potiguar Clébio Oliveira atesta conhecer profundamente — pela observação e vivência — muitos destes conflitos que colocam o desejo e a norma em opostos extremos.

Desde 2008, ele decidiu fixar residência em Berlim. Além de sua longa trajetória como intérprete, coreografou para companhias em vários países, incluindo a estadunidense Hubbard Street II e a brasileira Gira Dança — para a qual criou a admirável Proibido Elefantes.

Embora várias de suas obras já tenham circulado por São Paulo, esta será a primeira vez que o artista entra em cena na capital paulista com uma obra criada por ele mesmo. E não poderia ser diferente. O corpo do coreógrafo é uma representação autêntica de um Foreign Body — em toda a extensão que o termo “corpo estrangeiro” pode abarcar.

No jogo de perguntas-e-respostas à Bravo!, Oliveira revisita sua infância, onde as questões sobre gênero tiveram origem justamente porque as TRANSformações pelas quais passou eram incompatíveis com regras sociais.

© Dieter Hartwig

Por que Berlim?
É uma cidade que emana uma atmosfera inexplicável. Existe algo que ainda não consigo sintetizar. Ainda tento encontrar palavras para definir o motivo que me levou a escolher Berlim para viver.

Quando morava no Brasil, o corpo era uma questão para você?
A questão do corpo sempre exigiu de mim uma demanda muito grande. Quando criança — e vivendo quase que por instinto — , eu já sabia, de alguma forma, que eu era diferente e tinha consciência disso.

Tenho memórias de que não me sentia confortável no papel que me era atribuído, mas, por viver numa família tradicional, eu fui “ensinado” a me comportar como alguém que nasce com o sexo masculino. Já na adolescência, eu tive ginecomastia. E, com o intuito de escondê-la, eu desenvolvi uma cifose bem acentuada.

Felizmente, a dança resolveu esse problema. Até hoje eu sou surpreendido com certos mistérios acerca do meu corpo. Eles me fazem refletir. Indagações surgem, quase sempre, a partir do olhar externo, do outro. É como se fossem permanentes quiasmas de olhares cruzados me julgando por qualquer coisa que saia do convencional. Nesse sentindo, Berlim é um paraíso no meio desse retrógrado momento que o mundo vem transitando.

Então, quando precisamente as questões sobre gênero começaram a ser elaboradas por você?
Desde sempre. Onde eu nasci não se tem muitas escolhas. É preciso seguir um padrão. Os que não seguem vivenciam o inferno do que é ser rejeitado por uma comunidade. Basta você ser apenas um pouco diferente para saber o que é o abandono. O caos. A solidão. A dor.

No meu consciente/inconsciente, eu segui administrando o que era possível em relação a minha orientação sexual. Somente anos depois, lendo sobre o
assunto, dialogando com outras pessoas, pude compreender que eu não tinha nenhum tipo de distúrbio, como ainda propagam religiosos e conservadores.

Vivemos em uma outra época. Temos mais representatividade. Acredito que a internet vem contribuindo para a derrubada de critérios obscuros a respeito da questão de gênero - apesar da ascensão do conservadorismo.

Em Foreign Body, você elege, por exemplo, o salto alto como indicador do feminino e a forte musculatura como indicador do masculino, mas todos indicadores se diluem e formam um corpo não-binário.
O salto alto foi pensado inicialmente para os pés masculinos e teve origem no antigo Egito, ainda em 3.500 a.C.. Naquele momento ele servia para distinguir as classes sociais, pois a plebe andava descalça… É interessante pensar como o vestuário, de uma forma geral, foi se modificando ao longo dos tempos. De qualquer forma, em Foreign Body, o salto alto não é apenas um indicador do feminino. Nesse trabalho, ele é um símbolo do desejo reprimido, uma espécie de memória coletiva, incorporada no subconsciente, mas também um símbolo de poder, fetiche e vulnerabilidade.

A movimentação sugere angústia. Você considera que as “zonas cinzas” são perturbadoras?
Zonas cinzas nos ajudam a ser mais flexíveis sem abrir mão dos gostos e convicções. Elas definem até onde podemos ir. Na arte, na criação, isso também se faz necessário. Ser flexível é a única maneira de garantir que a gente não se despedace. Acho importante termos opinião própria e isso é fundamental. Mas ninguém suporta alguém que não muda nunca de ideia, não cede, não abre uma exceção sequer.

Como você tem acompanhado as discussões sobre arte e política no Brasil com o atual Governo Federal?
De forma bem desanimadora. Entretanto, penso que é preciso construir pontes de apoio, de afeto e de trocas. Solidariedade. Desenvolver novas ideias, maneiras e práticas de nos mantermos ativos/vivos. Fazer arte no Brasil nunca foi tão vital e necessário. Fazer arte — ou continuar fazendo — é quase uma vingança. É disso que precisamos.

Que condições você encontra para viabilizar sua carreira na Alemanha e como é sua rotina?
Em termos artísticos é muito interessante ter a possibilidade de morar em uma cidade multicultural e cosmopolita. Dialogar com outros artistas, vivenciar outras culturas, flexibilizar pensamentos. Isso permite, invariavelmente, que o olhar artístico ou pessoal esteja sempre em constante transformação. Uma experiência impagável.

Em termos práticos, a Alemanha ainda tem uma política cultural invejável. São vários fomentos, editais e etc.. Também são inúmeros artistas independentes, companhias e projetos “lutando” pelo seu espaço. É difícil a concorrência. Lei da oferta e da procura.

Como coreógrafo, me interessa sempre poder voltar ao Brasil. Essa ponte entre Alemanha e o meu país me nutre. Amo trabalhar/dialogar com bailarinos brasileiros. Para mim, são os melhores. A minha rotina se constrói na não-rotina. Como artista freelancer, estou sempre viajando ou envolvido em diferentes projetos. Isso me dá um certo frescor e me mantém sempre com os olhos apaixonados e cheio de amor pelas novas descobertas.


Foreign Body, de Clébio Oliveira. 27 a 30 de junho. Quinta a sábado, 21h30; domingo, 18h30. Sesc Pompeia (Rua Clélia, 93). 50 min. Livre. R$ 6 a R$ 20.

Revista Bravo!

A Bravo! olha para as fronteiras do fazer artístico, dá acesso à nova arte, dialoga com os artistas e com o público que consome arte, debate tendências e sonha curadorias.

    Rafael Ventuna

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    Jornalista Cultural e Crítico de Arte

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