Triunfo das ruas

Retrospectiva de Basquiat ocupa o CCBB, em São Paulo, e inicia o capítulo brasileiro de sua celebração global

“The Field Next to the Other Road”, 1981 (Divulgação)

A onda de revalorização — estética, financeira e pop — da obra de Jean-Michel Basquiat inicia o seu capítulo brasileiro amanhã (25) com a abertura da primeira retrospectiva do artista no país. Menos de um ano após arrebentar a boca do balão em leilão da Sotheby’s, onde uma tela assinada por Basquiat foi arrematada por mais de 100 milhões de dólares, suas obras chegam aos cofres do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, onde serão exibidas até 7 de abril. Brasília, no mesmo mês, Belo Horizonte, em julho, e Rio de Janeiro, em outubro, são as próximas paradas.

O conjunto de cerca de 80 obras advém da portentosa coleção de José Mugrabi, industrial israelense que vive em Nova York e coleciona artistas como Andy Warhol. “Ele tem a maior coleção de Basquiat no mundo”, diz o curador e produtor da mostra Pieter Tjabbes. “Nós pegamos as melhores obras da coleção dele”, garante. As negociações com a família Mugrabi levaram cerca de dois anos e, segundo os produtores da exposição, houve disputa com outros países para sediá-la, como o Japão e a Rússia. A confirmação da vinda das obras para o CCBB em janeiro fez ainda com que o Masp cancelasse uma mostra alternativa, com obras de diferentes acervos, prevista para abril.

“Untitled (Yellow Tar and Feathers)”, 1982 (Divulgação)

“Ter uma exposição do Basquiat é uma necessidade do momento atual da arte no Brasil”, defende Tjabbes. Além do recente boom do mercado, que contradiz previsões anteriores que reputavam a fama de Basquiat a um modismo passageiro, o curador sugere que o debate identitário contemporâneo possibilita uma reavaliação de sua obra. “Hoje em dia nós temos um olhar para a história que pode enxergar a importância dele como artista”, argumenta.

Nos bonés e galerias

O protagonismo negro na obra do filho de um haitiano com uma descendente de porto-riquenhos é marcante, bem como o comentário anticolonialista. A identificação que espectadores e artistas, oriundos sobretudo do hip hop, tem com Basquiat dão a medida do alcance de sua imagem — não é à toa que seu famoso desenho de coroa, que aparece em várias de suas telas, esteja estampado em toucas, camisetas e bonés de aba reta. Como não é por acaso que, em 2013, Jay-Z rimava em uma galeria de Nova York, diante de Marina Abramović e quetais, que “I just want a Picasso in my casa” e, em seguida, que “It ain’t hard to tell, I’m the new Jean-Michel”: o ícone do modernismo europeu é objeto de compra, o pintor que se fez nas ruas é um modelo a perseguir. Picasso é para ter; Basquiat, para ser.

Além da independência criativa franqueada por sua imaginação e idiossincrasia, o vigor da arte do velho Jean-Michel advém da efervescência cultural que Nova York vivia nos anos 70. Apesar (e em função) da depressão econômica e dos elevados índices de violência social, prédios no centro da cidade atraíam jovens boêmios de diversos lugares dos Estados Unidos e do mundo, tornando o lugar um epicentro artístico: tinta no muro, jaqueta no corpo e heroína na veia eram alguns dos elementos na paisagem ao mesmo tempo punk, hip hop e neo-expressionista. “Se alguém representa o que estava acontecendo lá, é o Basquiat”, diz Tjabbes.

“Brother’s Sausage”, 1983 (Divulgação)

Atacando em diversas frentes da cena cultural nova-iorquina, o artista pichou frases enigmáticas nos muros da cidade com o amigo Al Diaz sob o codinome SAMO© (de “same old shit”), tomou parte na banda experimental Grey e frequentou o CBGB, produziu discos de rap e interpretou Grandmaster Flash em um clipe do Blondie, protagonizou o filme independente Downtown 81, namorou Madonna antes do reinado pop e colaborou com Andy Warhol poucos anos após vendê-lo cartões postais a preços módicos em um restaurante. Tudo nele contribuía para a construção de um personagem incomum — e os holofotes não tardaram a aparecer.

New art, new money

Aos 25 anos, Basquiat figurava na capa da The New York Times Magazine como um ídolo pop: descalço e de terno, ele aparecia com pinturas suas ao fundo, o pincel entre as mãos, os dreadlocks para cima e os pés apoiados sobre uma cadeira caída em premeditada descontração. “New art, new money”, dizia a chamada. De fato, o artista viva então uma ascensão meteórica — de uma vida paupérrima ao glamour de festas sem limites, da pichação nas ruas às exposições em galerias fechadas. Mesmo tendo vivido pouco, Basquiat caiu nas graças do público e do mercado simultaneamente, um reconhecimento gozado por poucos pintores em vida — na crítica, no entanto, jamais houve unanimidade quanto à consistência de seu trabalho.

E foi como um rock star que, de forma trágica, Basquiat morreu: aos 27 anos, de uma overdose de heroína, em 1988. A trajetória do mito, que já estava em fabricação, enfim se completava. Mito que não demorou a ser registrado por Hollywood na excelente biografia Basquiat, longa de estreia do diretor Julian Schnabel, em 1996.

Bebop

As obras no subsolo do CCBB, onde estão dispostos trabalhos de seus últimos anos, dão a imaginar em que se desdobraria sua estética. Sua linguagem parecia caminhar então para um enxugamento: menos elementos, menos dispersão, mais foco. É também neste piso em que estão dois dos quadros que mencionam a tensão racial de forma mais direta: a acrílica sobre madeira Procession (Procissão) e a colagem Embittered (Amargurado), em que o perfil de uma silhueta preta com o mesmo penteado de Basquiat aparece contra um fundo cheio de desenhos de pessoas brancas.

“Procession”, 1986 (Divulgação)

Em depoimentos como os registrados no documentário Basquiat: The Radiant Child, de Tamra Davis, pessoas que conviveram com Basquiat descrevem seu método de trabalho como pouco reservado e silencioso: livros de anatomia abertos, toca-discos repetindo em alto e bom som o Bolero de Ravel e televisão ligada em desenhos animados lhe serviam de impulso criativo enquanto pintava. Mesmo coisas tidas como distrações, como o falatório de visitas inesperadas, eram incorporadas ao trabalho na forma de citações. Este modus operandi relaxado, no entanto, convivia com profunda concentração, horas dedicadas ao ofício e um senso de composição renitente.

“Dinah Washington”, 1986 (Divulgação)

Esta ambiguidade entre organização e improviso talvez aproxime a sua pintura do jazz (sobretudo o bebop e o free), ritmo que Basquiat ouvia e ao qual faz menção não só em entrevistas mas também em quadros — Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Dinah Washington são alguns nomes do gênero que já figuraram em suas telas. Mais do que no conteúdo, é na forma que a relação se revela, uma vez que suas obras não raro suscitam a ideia de improvisações sobre um tema. Se tentamos ler os elementos no quadro, acompanhamos a progressão de ideias, as associações livres, os desvios, os retornos — é um solista com o pincel na mão. Isso para não falar nas marcas deixadas pelo percurso: tinta escorrida, rabiscos inconclusos, grossas pinceladas deixadas à mostra.

Da mesma maneira, a ambivalência do seu modo de trabalho também aponta para uma tênue separação entre arte e vida —como denuncia a porta do banheiro do apartamento de uma namorada devidamente rabiscada por Basquiat e exposta no centro cultural.

Embora fosse nutrido pela força das ruas e pela energia da música, o artista se valia de um refinamento polivalente: era fluente em francês e espanhol (além do inglês), folheava avidamente os desenhos de Leonardo Da Vinci e, desde que o livro Grey’s Anatomy, escrito por Henry Gray e ilustrado por Henry Vandyke Carter em 1858, o entreteve no período em que ficou acamado após um acidente na infância, ficou fascinado pela anatomia humana — crânios e ossos aparecem com frequência em suas obras.

Acomodação e conflito

Diversos trabalhos de grafiteiros brasileiros produzidos para a exposição estão exibidos em uma caixa preta no saguão do CCBB — entre os inspirados por Basquiat estão Os Gemeos e Alex Hornest. É sintomático que suas ideias não tenham sido aplicadas diretamente à parede, mas em suportes pendurados. A acomodação das transgressões parece denunciar que o capítulo brasileiro de celebração global de Basquiat se dará em ambiente controlado — assim como o foi no Barbican, em Londres, no ano passado, por exemplo.

“Loin”, 1982 (Divulgação)

O caráter pop indissociável de sua persona, assim como o reconhecimento precoce na forma do dinheiro, colaboram para uma cooptação sem conflitos. Por outro lado, vale a pena esperar o que virá do encontro dessas obras com os públicos brasileiros (o plural aqui é imprescindível), tão pouco afeito a cordialidades nos dias que correm.

Para mencionar outra canção de Jay-Z, há uma em que, colaborando com ele, Frank Ocean canta: “I hope my black skin don’t dirt this white tuxedo before the Basquiat show” (“Eu espero que minha pele preta não suje este terno branco antes da exposição do Basquiat”). Já em Londres, o contraponto à acomodação foi feito como nos tempos de SAMO©: nas paredes externas do Barbican, um grafite atribuído a Banksy apresentava uma figura extraída de uma célebre tela de Basquiat, assemelhada a uma versão em raio X do artista, sendo revistada por policiais britânicos.

Vejamos como reagimos nós.


Jean-Michel Basquiat: obras da coleção Mugrabi

De 25/1 a 7/4. Visitação: quarta a segunda, das 9h às 21h. Grátis.

CCBB SP: Rua Álvares Penteado, 112 — Centro — São Paulo.


Veja outras obras de Basquiat presentes na exposição:

“Flash in Naples”, 1983 (Divulgação)
“Untitled”, 1983 (Divulgação)
“Leverage”, 1985 (Divulgação)